Prolongar o sofrimento?

Data de publicação: 06/02/2013

Padre Léo Pessini *

O termo distanásia é ainda pouco conhecido. Ao contrário do que acontece com seu antônimo eutanásia. A distanásia é praticada especialmente nas Unidades de Terapia Intensiva, que podemos chama-las de “catedrais do sofrimento humano”. 

A distanásia se trata de um neologismo, de origem grega. O prefixo grego dys tem o significado de ato defeituoso. Denota o prolongamento exagerado da agonia, sofrimento e morte de um paciente. O termo também pode ser empregado como sinônimo de tratamento fútil e inútil. Trata-se da atitude médica que, visando salvar a vida do paciente terminal, submete-o a grande sofrimento. Nesta conduta não se prolonga  a vida propriamente dita, mas o processo de morrer. No mundo europeu se fala de obstinação terapêutica, nos EUA de futilidades médicas (medical futility).

O novo Código de Ética Médica Brasileiro (2012), se  posiciona contra a prática da distanásia: “Nas situações clínicas irreversíveis e terminais o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados”. Precisamos utilizar tecnologia de sustentação artificial de vida com sabedoria, dizendo um grande não à tecnolatria e reconhecer que toda vida humana chega a um final, e este final deve ser coroado de respeito e dignidade. A tecnologia por mais que progrida, e esperamos que continue a progredir, não nos dará o dom da imortalidade biológica.

Finitude Humana − Dados do Conselho Federal de Medicina dizem que temos hoje no Brasil 30% dos pacientes em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) são pacientes em estado terminal. Esses pacientes deveriam estar recebendo cuidados paliativos. Não somos doentes nem vítimas da morte!  Podemos ser curados de uma doença classificada como mortal, mas não de nossa mortalidade e finitude humanas. A condição de existir não é uma patologia! Quando esquecemos isso, acabamos caindo na tecnolatria e na absolutização da vida biológica e os instrumentos que deveriam ser de cura e cuidado se transformam em ferramentas de tortura.

Neste sentido, lembro o Papa João Paulo II, que o perceber que sua vida chegava ao seu momento final, ao lhe proporem voltar para o Hospital (Clínica Gemelli), ele diz não, recusa e simplesmente implora: "Deixem-me partir, para o Senhor".   O que se evitou aqui foi à distanásia.

É necessário cultivar uma profunda indignação ética em relação a tudo que diminui a vida num contexto social excludente (mistanásia), e se comprometer solidariamente. Entre dois limites opostos: de um lado a convicção profunda de não abreviar intencionalmente a vida (eutanásia), de outro a visão de não implementar um tratamento fútil e inútil, prolongando o sofrimento e adiando a morte inevitável (distanásia). Entre o não abreviar e o não prolongar está o cuidar com arte e humanidade, ou o cultivo da morte em paz e sem sofrimentos (ortotanásia), que a prática dos cuidados paliativos proporciona. Como fomos cuidados para nascer precisamos também ser cuidados no final da vida. Cuidar é um desafio que une competência técnico-científica e ternura humana, sem esquecer que a chave para se morrer bem está no bem viver!.

*Padre Léo Pessini é sacerdote camiliano e doutor em Bioética




Fonte: Família Cristã
Postado por: Administrador




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