Fusão no casamento

Data de publicação: 07/03/2013

Cleusa Thewes*




No casamento, viver a individualidade não significa potencializar o individualismo. Casal em que um manda e o outro se submete, reduz-se a individualidade restringindo a felicidade

Individualidade e casamento são conciliáveis? A ideia da fusão, no relacionamento conjugal, pode levar o casal a sacrificar a individualidade. Em Romeu e Julieta, vemos frágeis emoções idealizando a trágica fusão amorosa, a aniquilação do individual, a morte do amor, intensificada pela proibição paterna do romance. Estes apaixonados contos de fadas do sonífero do amor são reais?

O mito da fusão − Na busca pela fusão conjugal, há sempre a crença, a expectativa, a esperança de que o outro preencha, não só a nossa solidão, mas também o medo e o vazio, e que fale a mesma linguagem, pense de forma igual, veja a vida e os fatos com idênticos olhares. O mito da fusão conjugal provém do vínculo biológico com a mãe, representando a amorosa continuação do protetor aconchego da barriga materna, do qual sentimos saudades. O nascimento rompe a fusão e propõe a separação, a individualidade e o crescimento.

Na história da vida, Mariana, 17anos, chorando, comenta ora o namoro que havia sido tão sonhado, ora o fato de ele já ter acabado: “Éramos parecidos, gostávamos das mesmas músicas, dos mesmos passeios, mas começamos a brigar por ciúmes. Eu não podia ter amigos. Ele me agrediu. Terminamos!”. A jovem, agora na estação do desencanto, percebeu a diferença entre suas próprias características e as de seu namorado. Ela, tranquila e confiante; ele, desconfiado e impulsivo. Mariana aprendeu que fusão romântica é ilusão e que a paixão enfeitiça a visão. Não há varinha mágica que transforme a decepção. A receita é colocar os pés no chão e a razão no coração. A busca da fusão decepciona, pois não nos encontramos no outro, descobrindo assim, qualidades que gostaríamos de possuir e defeitos que negamos ter.

Felicidade e individualidade − Ao abordarmos a individualidade, não potencializamos o individualismo. Herdeiros do machismo, homens, e do marianismo, mulheres, os casais acabam construindo um pacto silencioso de poder, no qual o homem manda e a mulher se submete. Esta contratação insegura reduz a individualidade e restringe a felicidade.

Mas o que é individualidade? É o que identifica um indivíduo, sua originalidade específica, seus dons e suas necessidades próprias. Cada pessoa, ao admitir sua potencialidade, exerce autonomia e concretiza projetos pessoais, relacionais e profissionais. Este reconhecimento eleva a realização e a alegria. Lembremos que Jesus Cristo alerta para os talentos recebidos, os quais devem ser desenvolvidos. O crescimento individual de cada cônjuge fará crescer a autoestima conjugal, projetos e ideias comuns.

Conjugalidade e Individualidade − No início do casamento, Paulo mostrou-se individualista. Após o trabalho, diariamente, ocupava-se com futebol, tênis, academia, happy hours,e nos fins de semana, fazia trabalho da empresa em casa. Regina, sua esposa, indignou-se e sentiu-se desconsiderada. Dialogaram e Paulo percebeu sua conduta de solteiro.Juntos reorganizaram seus projetos e atividades tanto individuais quanto conjugais. Desde então, partilham tarefas, orçamentos, e inclusive passeios. Ele vai aos seus happy hours,tênis e futebol. Ela faz academia e yoga. Ambos retornam para casa às 20 horas. Estabeleceram uma relação de confiança, amor e realização. Harmonizaram individualidade e conjugalidade; entenderam que a saúde do casamento, e a deles, precisa de ventilação.

Sílvia e Mateus têm muitas diferenças. Ela necessita falar, receber abraços e palavras de afeto. Ele carece de descanso, solidão, silêncio, privacidade física e emocional. Sílvia sofria achando que ele não gostava mais de conversar com ela. Ele sentia-se invadido, sugado, após os choros, atritos e portas batendo. Nos ensaios de separação, foram se conhecendo. Hoje há, naquele lar, tempo para falar, cantar, calar, abraçar e ficar só. Na casa deles há uma salinha de oração e, quando ele vai para lá, Sílvia o deixa se abastecer de silêncio e paz. Quando Sílvia senta no sofá, com o chimarrão, Mateus compreende que ela quer um abraço e companhia para conversar.
Para o psicólogo Arnold A. Lazarus, “não é inteligente forçar o cônjuge a nada. A maioria deles fica tão chateada que acaba se revoltando e não se sujeitando a pressão alguma. Começam então a aparecer os sentimentos que provocam as crises e tensões conjugais”. Como vemos, os casais vão criando semáforos de equilíbrio para um bom relacionamento, identificando as necessidades individuais e conjugais, construindo, assim, uma nova liberdade para ambos, minimizando conflitos, ou aumentando aproximação e afeto.
Amém!

*Terapeuta familiar e especialista em orientação familiar.






Fonte: Família Cristã 917 - Mar/2012
Postado por: Família Cristã




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