Direitos humanos

Data de publicação: 10/03/2013

Por André Bernardo

Diretora-geral do Movimento Humanos Direitos (MHuD), Dira Paes (foto) afirma que gosta de dar voz a quem não tem visibilidade social


O nome dela é Ecleidira Maria Fonseca Paes, mas o Brasil inteiro já se acostumou a chamá-la de Dira. O apelido de infância virou nome artístico em 1985, quando a então estudante de 15 anos foi escolhida, entre 500 candidatas, para atuar no filme A Floresta das Esmeraldas, do cineasta britânico John Boorman. De lá para cá, essa paraense de Abaetetuba, cidade a 53 quilômetros de Belém, não parou mais. No cinema, atuou em 26 longas-metragens e colecionou premiações importantes, como o Kikito, do Festival de Gramado, e o Candango, do de Brasília. Um de seus filmes mais famosos, 2 filhos de Francisco, chegou a ser visto por 5,3 mi¬lhões de espectadores. Na TV, alterna personagens cômicos, como a apalermada Solineuza, da série A diarista, que lhe valeu o prêmio da APCA (Asso¬ciação Paulista dos Críticos de Arte), com outros, mais dramáticos, como a romântica Celeste, da novela Fina estampa, que envolveu até a então ministra Iriny Lopes, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, no debate sobre violência doméstica. E na atual novela Salve Jorge a mãe guerreira que teve a filha traficada para fins de exploração sexual. Mas, ao que tudo indica, o papel que a atriz melhor desempenha é o de militante social. “Não acho que faço nada além do meu dever como cidadã”, assegura. A paixão é tanta que, em 2002, ela e um grupo de artistas fundaram o MHuD (Movimento Humanos Direitos), que se dedica a defender a erradicação do trabalho escravo, o fim da exploração sexual infantil, a demarcação de terras indígenas e a implementação de projetos socioambientais. Por essas e outras, não é raro ver Dira Paes discutindo temas de repercussão nacional, como a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. “A sociedade tem o direito de saber onde é que está sendo gasto o seu dinheiro”, afirma. No ano em que o MHuD completa uma década, a atual diretora-geral da ONG (Organização não governamental) conversa com a Revista Família Cristã sobre trabalho escravo, ativismo social e violência doméstica.


FC – O Movimento Humanos Direitos existe desde 2002. Quando e por que você decidiu ingressar nesse movimento?

Dira Paes – A ideia de reunir um grupo de artistas numa ONG partiu do ator Marcos Winter. Ingressei no MHuD por julgar a ideia dele brilhante. Faço parte do MHuD desde sua fundação, mas, antes disso, já integrava esse grupo de artistas que sempre apoiou e deu voz a quem não tem a menor visibilidade social.

FC – Mas o que levou a atriz Dira Paes a se tornar uma pessoa tão engajada tanto política quanto socialmente?
Dira Paes – A minha postura engajada é anterior à minha filiação ao MHuD. E eu discordo da palavra “engajada” porque ela não resume o que a pessoa é. Pessoalmente, não acho que esteja fazendo nada além do meu dever como cidadã. O engajamento é a apropriação e a divisão dos problemas com aqueles que não têm com quem dividir nada. Isso é um dever! Nós vivemos em sociedade. E, se não abrirmos os olhos para dividir os problemas do próximo, estaremos cavando nosso próprio buraco. Não é possível que não estejamos prontos e preparados para melhorar este país! Se estamos prontos e preparados para sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada em sete anos, por que não estamos para melhorar a estrutura educacional deste país? As prioridades estão invertidas! As pessoas falam em Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, mas não falam em comida e educação. Se você for a qualquer comunidade a 20 minutos da cidade de Belém, vai encontrar crianças estudando nas coxas. Literalmente. Elas não têm onde apoiar os cadernos...

FC – Você é natural de Abaetetuba, uma cidade de 140 mil habitantes, no estado do Pará. Qual é o mais grave problema social enfrentado hoje por seu estado?
Dira Paes – Ah, são vários! No momento, são o tráfico humano, a pedofilia, o trabalho escravo, os crimes contra os trabalhadores rurais, a impunidade e a corrupção. Isso sem falar na questão ambiental, que está me deixando muito assustada...

FC – A propósito, qual é a sua posição em relação à construção da hidrelétrica de Belo Monte? Você é a favor ou contra? E por quê?
Dira Paes – Sou contra Belo Monte porque acho uma ideia retrógrada e antissocial. O governo brasileiro não preparou a sociedade, nem justificou o porquê desta obra faraônica. Quais são os prós e contras de Belo Monte? Isso precisa ser revisto urgentemente. Além disso, ao contrário do que está sendo mostrado publicamente, os ribeirinhos estão passando por necessidades absurdas. A sociedade tem o direito de saber onde é que está sendo gasto o seu dinheiro e dar uma opinião sobre isso, já que a justificativa da construção de Belo Monte é puramente econômica. Quero saber em que cartilha está escrito que o dinheiro vale mais do que a vida de um ser humano?

FC – Das muitas causas defendidas pelo MHuD, como combate ao trabalho escravo, proteção à criança e ao adolescente e defesa dos povos indígenas, qual delas toca mais profundamente seu coração?
Dira Paes – A sociedade brasileira precisa entender que vivemos em um país escravocrata. Ainda existem trabalhadores escravos em várias fazendas espalhadas pelo Brasil. Mas, no momento, o que precisa ser combatido ferozmente é o tráfico humano e a pedofilia. O direito das crianças está sendo lesado bem diante dos nossos olhos. O direito das crianças não está sendo lesado somente por aqueles que as agridem, mas também quando o Brasil decide sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada enquanto ainda existem tantas crianças fora da escola e sem ter o que comer neste país. Não entendo essa equação. O que mais me preocupa são as novas gerações.

FC – Você é diretora-geral do MHuD desde 2007. Qual teria sido a maior conquista do movimento nesses cinco anos?
Dira Paes – O MHuD ainda não venceu nenhuma guerra, mas conquistou importantes batalhas. Sinto que a nossa contribuição tem sido contínua. Muita gente quer contribuir com a sociedade, mas, às vezes, não sabe como. Há dez anos, o MHuD contribui de certa forma. E o que é mais importante: contribui de forma contínua. A nossa contribuição pode até ser pequena, mas é contínua.

FC – De batalha em batalha se vence uma guerra, não?
Dira Paes – Olha, não estou satisfeita por apenas vencer algumas batalhas. Eu quero vencer a guerra! Como mãe, meu sentimento é de que o Brasil tem potencial para se tornar a grande potência mundial que é. Então, se o Brasil tem essa possibilidade, eu quero que ela se torne realidade o quanto antes porque quero ver meu filho vivendo numa sociedade melhor. Quero ver as pessoas que amo vivendo numa sociedade melhor. E as que eu não amo também... (risos) Enfim, quero todos vivendo numa sociedade melhor.

FC – Uma das estratégias do Movimento Humanos Direitos é tirar proveito da visibilidade dos membros que o integram para assegurar proteção a pessoas ameaçadas de morte. Algum dos integrantes desse movimento já foi alvo de ameaças ou hostilidades?
Dira Paes – Sofremos hostilidade quando estamos face a face com as pessoas que têm opiniões contrárias às nossas. Mas, individualmente, isso nunca aconteceu. Pelo con¬trário. Somos muito respeitados! Nosso trabalho no MHuD é voluntário. Angariamos passagens, hospedagem, alimentação... Realizamos uma premiação anual – que é o Prêmio João Canuto – e convidamos pessoas de diferentes estados para participar dela. Alguns oferecem passagens. Outros, hos¬pedagem. E, assim, viajamos pelo Brasil, visitando os lugares onde as causas exigem nossa presença.

FC – Das viagens que você realizou pelo MHuD, qual delas considera a mais marcante e inesquecível?
Dira Paes – Eu posso citar a que eu fiz para Belém, quando ocorreu o primeiro julgamento dos mandantes do assassinato do sindicalista João Canuto, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria (PA), que foi assassinado a tiros em 18 de dezembro de 1985. O julgamento foi realizado no dia 23 de maio de 2003 e também compareceram Marcos Winter, Letícia Sabatela, Leonardo Vieira, Carla Marins e Emílio Gallo. A comunidade, diretamente atingida pela morte, estava toda lá. Apesar de termos conseguido a condenação dos mandantes do assassinato, eles ainda não foram presos.

FC – Você já sentiu algum tipo de preconceito ou discriminação por parte de setores da imprensa ou de representantes da classe artística por causa de sua militância social?
Dira Paes – Diretamente, não. E não daria o menor ouvido a quem tivesse qualquer tipo de preconceito contra isso. Em nenhum momento misturo minha profissão com as minhas opiniões públicas. Sou uma cidadã e essa cidadã é atriz. São duas coisas absolutamente diferentes.

FC – Interpretar na TV personagens que estão envolvidas com temas sociais de suma importância também é uma forma de exercer sua militância social?
Dira Paes – Não. Uma coisa é diferente da outra. A vida imita a arte. E vice-versa. É uma troca. Estamos falando de coisas muito próximas: a realidade e a ficção. A minha militância é como cidadã e não como atriz.

FC – Como você analisa a atuação do Ministério dos Direitos Humanos?
Dira Paes – Acho que, infelizmente, o Brasil ainda precisa de heróis. Há alguns anos, o Ministério vem procurando marcar presença diante de todas as idiossincrasias que acontecem diariamente no Brasil. Mas acho que a sociedade civil é que vai ser a grande transformadora de tudo que o Brasil precisa como país desenvolvido. Temos a faca e o queijo na mão. O Brasil vive seu melhor momento político e econô¬mico. Agora, é vergonhoso saber que estamos em 6º lugar em desenvolvimento econômico e em 84º em desenvolvimento humano. Ou seja, não dá para ser feliz em uma sociedade onde poucos têm muito e muitos não têm nada ou quase nada. Então, me sinto constrangida de viver em um país de grandes desajustes sociais.


"É vergonhoso saber que estamos em 6º lugar em desenvolvimento econômico e em 84º em desenvolvimento humano. Não dá para ser feliz em uma sociedade onde poucos têm muito e muitos não têm nada ou quase nada."

"O MHuD ainda não venceu nenhuma guerra, mas conquistou importantes batalhas. Nossa contribuição pode até ser pequena, mas é contínua. Isso é o mais importante."

Entrevista concedida à Revista Família Cristã impressa, edição de março de 2012.





Fonte: Família Cristã 915 - Mar/2012
Postado por: Família Cristã




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