Índios Guarani Kaiowa

Data de publicação: 19/04/2013

Neste Dia do Índio, reveja a reportagem Extermínio Silencioso, da jornalista Karla Maria, publicada na edição de janeiro de 2012 da Revista Família Cristã, vencedora do Prêmio dom Helder Câmara de Imprensa, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), também em 2012. A matéria denuncia que os povos Guarani Kaiowá estão sendo assassinados e encurralados em suas próprias terras, que se tornaram mercadorias.

Extermínio Silencioso

Por Karla Maria

Um genocídio silencioso acontece no País. Índios Guarani Kaiowá estão sendo assassinados em suas próprias terras. A constatação vem do levantamento da antropóloga Lúcia Helena Rangel: 60 indígenas foram mortos no Brasil em 2010, destes, 34, ou 57%, só em Mato Grosso do Sul. As vítimas pertencem a povos diferentes, 29 Guarani Kaiowá, 1 Guarani Nhandeva, 1 Terena, 1 Ofa-ye-Xavante e 2 Kadiweu.

O Guarani Kaiowá, Faride Mariano, 52 anos, faz parte de outra estatística, é um dos 152 indígenas que estão ameaçados de morte, por defender a demarcação de suas terras. Faride é cacique na Aldeia Laranjeira Nhãnderu, no município de Rio Brilhante, a 165 quilômetros de Campo Grande, capital do estado. O nome da aldeia foi herdado da família. “Aquilo lá era herança do meu avô, que se chamava Laranjeira, e do meu bisavô, que se chamava Nhãnderu” − conta o líder político e religioso dos povos Guarani Kaiowá de Rio Brilhante, que nunca sai sozinho, com medo dos “jagunços”.

A disputa é histórica e os conflitos surgem a partir do arrendamento, venda e intitulação indevida de terras indígenas, baseadas e fundamentadas no desenvolvimento econômico e agrário. “Roubaram nossa terra” − disse o cacique, e sua denúncia também é a de muitas aldeias em Mato Grosso do Sul, que desde o fim do século 19, depois da Guerra do Paraguai (1862-1870), testemunharam o início de ocupações sistemáticas de terras Guarani Kaiowá, no sul do estado.

Em busca dos direitos – Com a chegada da ervamate e os projetos de colonização, na década de 50, acentua-se a instalação de empreendimentos agropecuários, aumentando o desmatamento e o deslocamento de comunidades indígenas para dentro de oito reservas de terra, num total de 18.124 hectares, demarcadas pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio), antes Funai (Fundação Nacional do Índio). Na década de 70, chega a soja, na de 80, o Pró-álcool, a indústria sucroalcooleira, e as primeiras usinas de produção de açúcar e de álcool.

Confinadas em reservas demarcadas pelo SPI e já descontentes com a situação de vulnerabilidade social e cultural, lideranças indígenas, como Faride, começaram a retomar suas terras. “No início éramos 17 pessoas, vindas de Caarapó, Amambaí e Dourados, todos nós sem aldeia, viemos retomar nossa terra, e agora estamos aqui, somos 150 índios lutando” − disse o cacique, que há quatro anos permanece na resistência pela terra de seus avôs.

A resistência é dramática e enfrenta o poder do agronegócio e de suas relações políticas. “Os fazendeiros estão muito fortes, eles têm o apoio político, são eles que mandam no estado de Mato Grosso do Sul, eu vejo tudo, eles fazem o que querem, já até prenderam a Funai em Dourados” − denunciou o cacique, lembrando da ocasião em que a aldeia, ao receber a visita da Comissão de Direitos Humanos, com deputados federais e estaduais, policiais federais, rodoviários e membros do Ministério Público Federal, foram barrados pelos “jagunços”.

Segundo relatório do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) de 2010, 73 terras no estado aguardam alguma providência da Justiça, e tal vulnerabilidade gera maiores conflitos, entre indígenas e fazendeiros, produtores de soja, cana-de-açúcar; outras três terras sofrem com a morosidade na regularização dos territórios.

Nos 25 hectares da aldeia do cacique Faride, garantidos pelo Ministério Público Federal, os índios moram em barracos. Sem espaço para cultivar, vivem da doação de alimentos vindos da cidade e da cesta básica do SPI, que não chega há dois meses, mas, segundo o cacique, deveria ser entregue de 15 em 15 dias. Sem comida, as crianças adoecem, ficam desnutridas e, embora o problema seja simples e de fácil tratamento, leva à morte, uma vez que a assistência médica também não chega. “Quando a gente está doente, a ambulância não entra, a gente tem que levar o doente nas costas por 4 quilômetros até chegar na estrada, e lá pegamos um táxi.” O acesso à escola também está separado pelos 4 quilômetros, 57 crianças e adolescentes que vivem na aldeia têm de sair às 3 horas da madrugada, percorrer os quilômetros pelo mato, para pegar ônibus na estrada. A estrada, inclusive, já foi morada deste povo, que por ordem de despejo morou um ano e sete meses na Rodovia BR-67, de Rio Brilhante. “Quando a Polícia Federal fez nosso despejo, eles nos falaram que em 90 dias iriam resolver nossa demarcação, e ficamos um ano e sete meses na beira da rodovia.

A polícia fez tiroteio em cima das crianças, dos idosos. Bateram em nós, machucaram, tiraram o nosso sangue. Tinha tropa de cavalo e até helicóptero” − disse Faride, lembrando que três jovens, com idades de 22, 21 e 15 anos, foram atropelados e até hoje ninguém foi preso.

Preservar a cultura − Outros jovens, contudo, desenham um futuro melhor. Oriel Benites, 28 nos, é Guarani Kaiowá, professor na Aldeia Limão Verde, na região de Amambaí, e membro do Conselho Internacional da Nação Guarani.

Para o jovem, que já trabalhou como mão de obra escrava nos canaviais, a luta pela terra nasceu no ‘berço’: “A gente nasce e, cresce na luta, e como vivia no meio dos grandes rezadores, eles me transmitiram uma fé, uma força para entender como a gente pode se posicionar diante dessas violências”. O jovem esteve na capital paulista, em dezembro, com a Comissão Athy Guassu para denunciar a situação dos povos Guarani em todo o estado sul-mato-grossense e receber com Faride uma homenagem da Rede Social de Direitos Humanos.

Para Oriel, a aprovação do novo Código Florestal é um retrocesso para o País. “A política está indo contra a natureza, meu avô já dizia, enquanto tiver um rio, um pé de árvore para ser derrubado, os grandes empreendimentos não vão parar de explorar, destruir e poluir.”
Estudante no último ano de Teku Arandu na Universidade Federal da Grande Dourados, um curso de Pedagogia com estudos específicos sobre a cultura Guarani, Oriel afirma: “Se a gente perde a terra, perde também a cultura. Luto para que haja educação, saúde e segurança dentro de nossas aldeias, porque naquelas terras, hoje, a soja é cultivada com o sangue de nossos pais”. No País, há cerca de 900 mil indígenas, destes 45 mil são Guarani Kaiowá.

Veja também:

Reportagem de Karla Penna, Flávio Vicente Machado e Nelson Henrique, da TV Imaculada, mostra a situação dos Guarani Kaiowa.






Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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