Entre a inflação e o desemprego

Data de publicação: 23/04/2013

Franscisco Fonseca*

O atual frenesi acerca do aumento da inflação remete a experiências fartamente conhecidas, sobretudo nas primeiras décadas do século 20, e reiteradas desde 2008, acerca do dilema entre inflação e desemprego em perspectiva mundial. O desemprego foi o resultado mais drástico, com todas as suas consequências, dos crashs de 1929 e de 2008, este, vigente ainda hoje nos países europeus. O Brasil fora profundamente impactado pelos acontecimentos de 1929, a ponto de ser palco da “revolução” de 1930, mas tem, em relação ao crash de 2008, conseguido se manter em níveis bastante razoáveis quanto ao ritmo da produção econômica e consequentemente à empregabilidade e à renda.

Os arautos do combate sem tréguas à inflação, mesmo que à custa do desemprego, caso dos consultores financeiros, dos economistas conservadores e da grande mídia, ainda embevecidos com o credo neoliberal – que, paradoxalmente levou à crise de 2008 –, têm criado um clima catastrófico quanto à economia, propugnando a velha e derrotada doutrina do ajuste fiscal acima de tudo... e de todos. A experiência histórica nos ensina que a ideologia do ajuste fiscal – corte de investimentos, aumento de juros e contração econômica – “cura a febre matando o paciente”, como assevera nosso ditado popular, pois aniquila a atividade econômica e os empregos, levando à corrosão do tecido social que a tão duras penas vem sendo solidificado por meio de políticas econômicas (sobretudo o crédito e o estímulo ao consumo) e sociais inclusivas: programas de transferência de renda e um conjunto de políticas públicas focadas (específicas) e universais – casos, por exemplo, do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (Suas), que necessitam de financiamento.

Aumentar a demanda – Os ciclos de desemprego demonstraram reiteradas vezes seu potencial corrosivo às sociedades, mas permanecem como receituário dominante, caso da chamada Troika na Europa, que vem vitimando sociedades inteiras, como as da Espanha, Grécia e outros. O sistema de metas da inflação, adotado pelo Brasil desde o Plano Real, prevê flexibilidade quanto ao comportamento inflacionário, uma vez que o centro da meta de inflação anual, que é de 4,5%, permite uma banda superior de 2% para cima e 2% para baixo. Em outras palavras, se a inflação estiver entre 2,5% e 6,5% ao ano está sob controle, notadamente na atual conjuntura mundial e brasileira. Isso torna o quadro econômico absolutamente estável, em termos inflacionários, uma vez que, além de estar próximo às metas, tem passado por sazonalidades, caso dos produtos agrícolas.

Embora dentro do governo também haja visões catastróficas quanto à inflação, o fato é que, em perspectiva anual, ela está controlada – mesmo que seu monitoramento seja imperativo – e, mais importante, a história nos ensinou que é melhor um pouco mais de inflação se isso contribuir para a atividade econômica e consequentemente para o emprego, do que o contrário. O maior reformador do capitalismo – Keynes – percebeu isso na década de 1920, a ponto de propugnar que o Estado deveria contratar trabalhadores para “abrir buracos na rua e outros para fechá-los”, se isso aumentasse a demanda agregada e consequentemente a atividade econômica e o emprego. Hoje, torna-se imperativo pensar na história para que seus erros não sejam repetidos!

*Professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo.




Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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