Os sonhos da rua

Data de publicação: 24/04/2013

Basta caminhar pelas ruas de uma grande cidade para encontrar moças e rapazes, quase invisíveis aos olhos da sociedade, que se somam às milhares de pessoas em situação de rua. As histórias de Marinaldo Penha, Flaviane Tiago de Sousa, Heide Ferreira Lima Santos e Sandro Castilho se convergem em vários aspectos, principalmente no que diz respeito à família. Uns perderam a referência familiar muito cedo, outros, não encontraram em sua família base suficiente para enfrentarem seus problemas. Mas os quatro têm diante dos olhos a meta clara de construir uma família e oferecerem a ela tudo o que não puderam viver.

Sonho roubado – Marinaldo Penha, 23 anos, nasceu em Santa Helena (MA). Deixou a mãe e suas duas irmãs em busca do sonho de uma vida melhor em São Paulo, capital, ainda conhecida como a terra das oportunidades. Porém, chegando à metrópole, uma fatalidade mudou o rumo de seu caminho. “Estava em uma biblioteca quando fui furtado. Levaram a carteira com todos os meus documentos, dinheiro e os telefones dos meus parentes no Maranhão”, relata o jovem, que teve que dormir na rua até encontrar um albergue.
Mesmo estando entre a rua e o albergue há apenas quatro meses, o jovem já experimentou o suficiente do que é estar à margem da sociedade. “Nunca senti medo de dormir na rua. Já fui abordado algumas vezes pela polícia. Graças a Deus sempre foram tranquilos, mas já presenciei agressões. As pessoas que passam na rua olham para nós como se fôssemos desocupados, como se gostássemos de ficar assim. Pior é quando acham que somos bandidos”, conta. Atualmente está ansioso por regularizar a sua documentação para conseguir um emprego, juntar dinheiro e voltar para o Maranhão “quero comprar um terreno e construir uma casa para acolher a família que sonho em formar”.

Tempo para Deus – Há cinco meses em uma das casas da Missão Belém, Flaviane Tiago de Sousa, 21 anos, sonha em reaver a guarda dos filhos Gabriel e Guilherme e resgatar o marido das drogas. Natural de Arapongas (PR), a jovem começou a usar drogas aos 13 anos, quando saiu de casa para se prostituir. Aos 14 deu à luz ao primeiro filho, Caio, que mora com a mãe dela no Paraná. “Comecei a usar drogas por causa do desprezo da minha família, tive uma infância muito triste”, diz.
Em alguns anos a jovem chegou ao ponto de mendigar com os filhos ao colo e ficar mais de uma semana sem comer para comprar drogas. Quando o Conselho Tutelar do Paraná ameaçou a tirar a guarda dos filhos, o casal procurou ajuda, ele ficou um mês na Missão no Paraná e voltou para as ruas, ela veio para São Paulo com o objetivo de se recuperar “quem se droga só tem dois caminhos, cadeia ou cemitério”.
Hoje, Flaviane ajuda na coordenação da Missão, na triagem, e pretende permanecer no projeto de resgate na Cracolândia. Para ela cada dia é a vitória de um obstáculo, “é só por hoje, é só por Ti, Jesus, que eu vou passar mais um dia na Tua presença”.
História parecida viveu Heide Ferreira Lima Santos, 20 anos. Ela morava com o pai na cidade de Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo, quando um amigo lhe apresentou a cocaína. “Eu acabei me viciando e comecei a ficar mais na rua do que em casa, até que eu realmente fui para a rua”, relata. Heide nunca se afastou da rua de sua casa, mas recusava a ajuda de seu pai e irmãs.  Antes de ir para a rua, ela se relacionou com um rapaz de quem teve dois filhos, que moram com sua família. A persistência do pai a convenceu a buscar ajuda. Há algumas semanas, a jovem também foi acolhida em uma das casas da Missão Belém e está tentando se libertar das drogas. “Meu único medo era ficar nessa vida para sempre. Mesmo sem conseguir me libertar, eu não queria viver assim, quero ensinar aos meus filhos tudo o que for necessário para que eles não caiam no mal que eu caí. Agora é vida nova!”, diz.

Em busca de um lar –  Já Sandro Castilho, 23 anos, nasceu em Guarulhos (SP). Sua mãe morreu quando ele tinha 5 anos. Ele e seus quatro irmãos ficaram aos cuidados do conselho tutelar por dez anos, até que o pai, que havia abandonado a família, apareceu e levou as crianças para o Pará. Sandro não se deu bem com o pai e foi sozinho para o Maranhão, onde trabalhou em circo e como locutor de rádio. Ainda insatisfeito, voltou para São Paulo, mas não foi bem acolhido pelos familiares. Na grande cidade conheceu o álcool e as drogas. “Não vou dizer que eu consegui me livrar, mas estou começando a lutar para deixar os vícios. É difícil morar na rua. Passei frio, fome, mas não devemos desistir nunca de vencer na vida. Muitas pessoas nos criticam, mas temos que ser fortes. Conheci pessoas que já me acolheram em albergues e hoje são acolhidas comigo. Nunca sabemos o dia de amanhã.”
Para ele, o poder público ajudaria muito se oferecesse mais oportunidades que qualificassem para o mercado profissional. “Mas é preciso melhorar também o atendimento social, não oferecendo apenas um teto, mas condições para mudarmos de vida”, desabafa.
Sandro, hoje no Arsenal da Esperança, entidade que acolhe diariamente 1.200 homens em situação de rua, está terminando os estudos e já sabe a profissão que quer seguir. “Meu sonho é ser locutor profissional de rádio e TV. Eu gosto de me comunicar!”.  Quando perguntado sobre o que ele ensinaria aos seus filhos, Sandro tem a resposta na ponta da língua. “Eu quero que eles aprendam a nunca abandonarem a família. A família é tudo. O que eu passei e eu estou passando eu não gostaria que um filho meu passasse.”

À margem até dos números
As estatísticas nacionais mais atuais sobre o assunto constam da Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, de 2008, encomendada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Porém, não há um dado específico sobre os jovens. As pesquisas, em geral, dividem grupos etários em crianças, adolescentes, adultos e idosos.
O que se sabe é que mais da metade (53%) das pessoas adultas em situação de rua entrevistadas possuem entre 25 e 44 anos, de modo que o restante (47%) tem entre 18 e 24 anos ou acima de 50 anos.  Mesmo não havendo informações precisas sobre a juventude, sabe-se que eles fazem parte das seguintes estatísticas:
• A população em situação de rua é predominantemente masculina (82%).
• Os principais motivos pelos quais essas pessoas passaram a viver e morar na rua se referem aos problemas de alcoolismo ou drogas (35,5%); desemprego (29,8%); e desavenças com pai, mãe, irmãos (29,1%).
• Dos que já moraram em outra(s) cidade(s), 45,3% se deslocaram em função da procura de oportunidades de trabalho. O segundo principal motivo foram as desavenças familiares (18,4%).
• 51,9% dos entrevistados possuem algum parente residente na cidade onde se encontram.  Porém, 38,9% deles não mantêm contato com esses parentes e 14,5% mantêm contato em períodos espaçados.
• 24,8% não possuem quaisquer documentos de identificação, o que dificulta a obtenção de emprego formal, o acesso aos serviços e programas governamentais e o exercício




Fonte: Família Cristã 928 - Abr/2013
Postado por: Família Cristã




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