Turquia, Capadócia

Data de publicação: 17/05/2013

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Por Pablo Villarrubia Mauso

Os brasileiros visitam cada vez mais a Turquia e também uma das regiões mais extraordinárias desse país: a Capadócia. As suas formações geológicas estão declaradas Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), desde 1985. Os vales estão salpicados de milhares de “agulhas” de pedra, algumas das quais evocam um passado em que o cristianismo teve um papel importantíssimo na ocupação daquela remota região semidesértica que outrora chamavam de Anatólia Central.

As formações que se pode contemplar e, que deixa atônito, remontam há cerca de 10 milhões de anos, quando três vulcões entraram em erupção e lançaram material basáltico do interior do planeta. Posteriormente, graças à erosão, acabaram adquirindo formas de palácios e criaturas insólitas que parecem saídas do mundo das fadas. De fato, há um grupo de formações chamadas “chaminés das fadas”, rochedos com vários metros de altura de aspecto cônico, às vezes cobertos por uma espécie de chapéu que lembram a forma de um cogumelo pontiagudo.

Muitas dessas formas tão peculiares - e únicas em todo o planeta Terra - foram lavradas e perfuradas pela mão do homem antes da Era Cristã, e também, depois, por ermitões e outros cristãos que as transformaram em capelas, igrejas e recintos monásticos. 13_uchisar

Montanhas e formações rochosas estão literalmente esburacadas e, já em tempos dos romanos, algumas foram convertidas em necrópoles. Também surgiram as chamadas igrejas trogloditas – há registro de 400 a 600 em toda a Capadócia –, sendo que as mais antigas datam do século 6º, embora a maior parte seja dos séculos 9º e 10º.

Também chama a atenção a existência de verdadeiras cidades subterrâneas, cuja origem deve-se às constantes invasões que a Capadócia sofreu ao longo de vários séculos.

Os habitantes da região – importante rota comercial entre Oriente e Ocidente – eram obrigados a se esconder debaixo da terra durante vários meses para escapar da fúria destruidora e assassina dos invasores. A partir da consolidação de Bizâncio, algumas destas cidades foram convertidas em igrejas rupestres cujas paredes foram pintadas, a mão, pelos ermitões cristãos.

Calcula-se que existam entre 150 e 200 cidades subterrâneas que esconderam milhares de pessoas dos povos invasores. Hoje os turistas ficam surpresos ao ver que algumas das entradas destas cidades ou casas trogloditas isoladas servem ainda de moradia para muitos habitantes. Outras cavidades foram aproveitadas e convertidas em pensões e hotéis para os visitantes.

A maioria foi construída escavando-se a crosta vulcânica embora não se conheça a técnica utilizada para esse trabalho monumental, cujo esforço foi superior ao empregado para construir as pirâmides do Egito.

São centenas de câmaras conectadas por túneis labirínticos para confundir os eventuais inimigos que pudessem adentrar nas galerias. O interior era iluminado com tochas, embebidas de um óleo extraído da linhaça, que também serviam para esquentar o ambiente durante o período de inverno.

Cristianismo na Capadócia - Comenta-se que São Paulo realizou três viagens à Capadócia entre os anos 44 e 58. Acredita-se que São Jorge teria nascido na região, indo depois para a Palestina, terra natal da sua mãe. Por isso encontraremos muitas representações tão familiares do santo - matando um dragão - espalhadas por todas as capelas e igrejas.

Já durante o período romano, o cristianismo se implantou paulatinamente e ganhou força a partir do século 3o depois da Era Cristã. No século 4o, três grandes santos oriundos daquela terra difundiram a religião: São Basílio (bispo de Cesareia ou Kayseri), seu irmão Gregório de Nisa e São Gregório de Nazianzeno ou Nazianzo. Os três são considerados “os filósofos capadócios”, também grandes teólogos que desenvolveram a teoria da “Trindade”.

São Basílio, por exemplo, viveu de maneira simples, longe das cidades, procurando lugares tranquilos – como as formações rochosas – para as práticas de recolhimento e oração diária. Foi o responsável pela difusão do sistema de reza no âmbito comunitário, aumentando os vínculos com toda a população.

Na vila de Guzelyurt, onde morou Gregório de Nazianzo, existe uma igreja construída no ano de 1891. Foi transformada em uma mesquita, mostrando um curioso contraste arquitetônico: os tapetes utilizados pelos muçulmanos para rezar no seu interior.

Com a divisão do Império Romano, a Capadócia ficou sob o domínio de Bizâncio, ou Império Romano do Oriente, a partir de 397 depois da Era Cristã até o seu final, no ano 1071. Foi o começo do declínio do cristianismo na Turquia e a expansão do islamismo devido aos seljúcidas, povo procedente da Ásia Central.7-uchisar

Vale de Uçhisar - Uma das cidades mais curiosas da Capadócia é Uçhisar, conhecida pela montanha central perfurada por todos os lados, uma espécie de castelo outrora utilizado como refúgio da população local. Existem muitos recintos no interior dessa fortaleza, muitos dos quais estão conectados por escadas, corredores e túneis. Pedras enormes, redondas, fechavam as entradas antigamente para impedir o acesso aos intrusos. Ao redor, encontram-se tumbas – talhadas nas pedras – da época bizantina.

Curiosamente, uma parte das cavidades do castelo é usada, hoje, como pombal pelos agricultores. Eles recolhem os excrementos dessas aves para utilizá-los como fertilizantes. Atualmente, a vila está repleta de vendedores de souvenirs e muita das suas casas – prensadas entre os rochedos erodidos – estão coroadas por antenas parabólicas que conferem um estranho contraste entre o velho modo de viver e o atual. No interior dos lares, as pessoas acompanham as telenovelas turcas, algumas não tão diferentes das brasileiras.

O Vale de Uçhisar causa impacto à primeira vista por apresentar uma paisagem lunar com muitas “chaminés das fadas”, esburacadas como um queijo suíço. Algumas alcançam até 40 metros de altura. Tentamos imaginar como os antigos monges cristãos subiam por aquelas paredes – com escadas ou cordas – para poderentrar nas cavidades escavadas por eles mesmos com grande esforço que só a fé lhes permitia arrostar.

Infelizmente, aqui e em outras cidades rupestres da Capadócia, como em Goreme, as autoridades permitem a construção de prédios de concreto ou casas modernas no meio das formações rochosas, “poluindo” visualmente o meio ambiente. Também, em alguns casos, se destrói este patrimônio histórico, religioso e natural. Existem até mesmo discotecas dentro de capelas trogloditas.

Vale de Goreme – Os vales repletos de formações geológicas cavadas pelo homem serviram de refúgio aos cristãos perseguidos, primeiro pelos romanos e depois pelos muçulmanos. Mas houve um período de relativa tranquilidade durante o Império Romano Bizantino. Hoje essa tranquilidade é quebrada, diariamente, pelas centenas de ônibus turísticos que chegam até o vale despejando pessoas de todas as partes do mundo.17-saratli-cidadesubterranea

É difícil imaginar como no Vale de Goreme – tão inóspito e seco - se estabeleceram as primeiras comunidades camponesas que contaram com o apoio do bispo da Capadócia, Basílio de Cesareia (atual Kayseri), quem recomendou às famílias ocupar e cultivar as terras então férteis e praticar o cristianismo. Construíram suas casas dentro das rochas, perfuraram poços de água e fizeram silos fora e dentro da terra. São Basílio, por exemplo, espalhou o costume de distribuir pão aos pobres nas épocas de fome.

As igrejas eram, em sua maioria, rupestres, ou seja, lavradas diretamente na pedra. Hoje, os milhares de turistas do mundo inteiro que chegam ao Vale de Goreme observam, admirados, os afrescos pintados no interior destes templos, cuja originalidade é patente. Alguns somente preservam pinturas de cruzes ou arabescos, resultado do período em que o papa Leão III proibiu as imagens sagradas durante o século 8º.

Alguns monges cristãos, contrários a essa proibição, começaram a se refugiar na capadócia, especialmente entre 726 e 843 depois da Era Cristã. Mesmo assim, muitas igrejas foram parcialmente destruídas, es pecialmente suas pinturas e estátuas.

Mas no fim do período iconoclasta, os afrescos retornaram e com mais força. Porém, a maioria dos rostos destas pinturas voltou a ser destruída, provavelmente quando o islamismo chegou com mais poder à Capadócia.

As igrejas estão dentro do Parque Nacional de Goreme, como a de Karanlik (ou Sombria), que tem este nome porque somente recebe luz solar através de uma janela. As suas pinturas murais estão inspiradas na vida de Jesus Cristo.

Outra igreja, a de Elmail (da Maçã) foi construída diretamente sobre um paredão rochoso. Dentro há representações de santos e profetas, especialmente São Gabriel com uma maçã na mão. Outros afrescos do século 11 ou 12 narram cenas da Bíblia, de Cristo e de Abraão.

A igreja de Yilanli (da Serpente) tem pinturas datadas do século 11 feitas diretamente sobre a pedra – como muitas da região – onde aparece Cristo com um livro na mão, além do imperador Constantino e sua mãe, Helena de Constantinopla. A igreja Çarikli (das Sandálias) alberga uma curiosa “pegada” supostamente deixada por Jesus Cristo e uma representação pictórica da traição de Judas.

Na entrada do Parque Nacional, encontra-se a igreja mais imponente, mais antiga e mais bem decorada de todas: a de Tokali, com absides, abóbodas e muitos afrescos. As cores das pinturas são bem vivas, especialmente o vermelho e o verde. Mas o azul anil domina a parte principal da igreja na qual se narra a vida de Cristo, desde sua infância até a Paixão. Porém há pinturas da fuga para o Egito, o assassinato de Zacarias ou a profecia de João Batista e o reencontro dele com Jesus.

Também existem outros recintos de grandes dimensões dentro dos rochedos. Popularmente são conhecidos como “refeitórios”, pois se acredita que os monges destinavam a este uso tais espaços. Os nichos nas paredes eram utilizados para armazenar provisões e existem fornos e uma grande mesa para umas 50 pessoas.

Acredita-se que Goreme e suas imediações foram aproveitadas como necrópoles para os habitantes de Venessa, atual Avanos durante o período romano. Isso se verifica nos muitos túmulos talhados nas pedras e um monumento funerário com duas colunas escavadas em uma “chaminé de fada”.

1agacalti-igreja-de-ihlara Vale de Ihlara e de Pasabagi - Chamado vale de Peristrema - hoje é o de Ihlara - é um espaço natural preservado, um convite para caminhar de forma aprazível contemplando a vegetação que contrasta com o aspecto desértico do seu exterior. Este canyon, formado pelo rio Melendiz, tem 14 quilômetros de comprimento e sua altura, em alguns pontos, oscila entre 100 e 150 metros.

Ao redor, nas encostas, aparecem entradas escavadas que dão acesso ao interior de igrejas rupestres muito antigas, algumas do século 6o. Várias estão conectadas por meio de túneis, com cidades subterrâneas.

As igrejas estão pintadas no estilo oriental, algumas, e no bizantino, outras. Em uma delas aparecem os nomes do imperador cristão Andrônico II e do sultão seljúcida Mesud II, que conviveram pacífica e harmonicamente, embora de religiões distintas, no fim do século 13 e princípio do 14. Dentre as igrejas do vale, a de Agaçalti mostra, em sua cúpula central, uma belíssima pintura da Ascensão de Cristo.

Antigamente Pasabagi era chamado “Vale do Monge”, onde as “chaminés das fadas” estão ao alcance dos turistas e não muito longe de Goreme. O interior de uma delas – com três chapéus - era habitado por ermitões e foi fundada por São Simeão. Este santo viveu no século 5o, nas proximidades de Alepo, mas decidiu ir até a Capadócia para se isolar completamente. Começou a ouvir vozes e a fazer milagres e somente saía da sua caverna para recolher os alimentos que os seus discípulos deixavam na base do rochedo.

É difícil imaginar a vida desses anacoretas, sem nenhum conforto, com temperaturas baixíssimas durante o inverno e com uma profunda fé que os fazia renunciar a todos os bens materiais.

Hoje se pode caminhar entre as formações tão peculiares e subir até uma rocha em forma de tartaruga para admirar todo o conjunto de Pasabagi em seu máximo esplendor. Turistas vindos de todo o mundo árabe se confundem com os ocidentais, em uma mistura de costumes e vestimentas que chamam a atenção no meio daquele cenário outrora ocupado pelos monges ermitões. O que eles pensariam hoje deste desfile de povos que convivem graças à beleza daquele espaço natural?

Reportagem publicada na edição de janeiro da Revista Família Cristã.


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Fonte: Família Cristã 925 - Jan/2013
Postado por: Família Cristã




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