Crimes de paixão

Data de publicação: 12/06/2013

Por Maria Helena Brito Izzo*


Uma das perguntas mais recorrentes da história da humanidade, e talvez ainda sem uma resposta satisfatória, é por que alguns relacionamentos de pessoas que, ao menos aparentemente, emitiam sinais de viver bem terminam em tragédias ou no que se convencionou chamar de “crimes passionais”. Quem ama não pode nunca ser capaz de matar, nos ensina a razão mais óbvia e ética. E mesmo quem não ama e tenha inimigos, como nos ensinou Jesus Cristo, não deveria praticar tal violência. O problema, no entanto, é que, por sermos humanos e falíveis, não somos seres 100% guiados pela razão e, muitas vezes, nos deixamos guiar pela emoção mais instintiva e primitiva, que leva à destruição de um modo irrefletido. Pelo menos, e felizmente, é que o acontece apenas com alguns de nós e não com a maioria. Poderia aqui estar falando de um sem-número de casos, mas me refiro a esse episódio assustador que foi e ainda está sendo explorado pela mídia: o da jovem Elize que matou e, depois, esquartejou o marido, Marcos Matsunaga. O motivo: estaria sendo traída.

Não estamos aqui para julgar ninguém ou comentar, sob um ponto de vista moralista, o que Elize, foi ou deixou de ser no passado. Mas sim tentar entender, junto com o leitor, o que leva uma família a ter um fim tão violento e trágico. Levando em conta que estamos a distância, nos baseando apenas pelo noticiário da mídia – algo muito longe de ser um tribunal da verdade – e que ninguém nunca saberá ao certo o que aconteceu entre os dois, pela ausência de testemunha, o crime parece ter ocorrido pelo mesmo motivo que outros crimes passionais semelhantes ocorreram e, infelizmente, ocorrerão: o inconformismo pela perda anunciada do parceiro ou da parceira. Ninguém pode negar: não é fácil aceitar uma perda ou uma desilusão, ainda mais amorosa. A iminência de ser trocado ou trocada por outra pessoa nos fere, nos arrasa, nos derruba, tira o nosso chão e fere o nosso amor-próprio. No entanto, nem por isso a maioria das pessoas “resolve” o problema como Elize. Por quê?

Amanhã – Por uma questão de equilíbrio. A linha divisória entre o equilíbrio e o desequilíbrio, entre a sanidade e a insanidade, é muito tênue e quase invisível. Costumo compará-la a um fio de seda que separa dois imensos mares. Algumas pessoas, a maioria felizmente, têm a capacidade de navegar pelo lado certo dessa linha, outras, não. Postas a uma prova em que seus limites são testados simplesmente não resistem e afundam. Num momento de provação, de desvario, perdem a razão e, às vezes, tornam-se pivôs de tragédias. Talvez por falta de princípio, de preparo e de caráter, de um sentimento mais nobre que as leve a se resignar com uma perda ou frustração, ou, principalmente, devido a mais prosaica e conhecida das deficiências humanas: a fraqueza. 

Deixo claro que nada justifica as violências e brutalidades. E sei perfeitamente que vou dizer algo que cabe no mais raso senso comum: as pessoas dotadas naturalmente de uma maior parte de razão e de uma menor parte de emoção devem entender que ninguém nesta vida pertence a ninguém e que os seres humanos não podem ser tratados como uma propriedade. São livres. E como é extremamente difícil aceitar uma perda sentimental, o pior que podemos fazer quando isso acontece é partir para um ato impensado e sem retorno. Nesta vida, alguém já disse isso, não apenas se ganha nem sempre se perde, mas se luta a cada dia. Em caso de queda, vamos levantar a poeira e dar a volta por cima. Que amanhã há de ser um novo dia.


* Terapeuta familiar




Fonte: Família Cristã 920 - Ago/2012
Postado por: Família Cristã




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