Criatividade Solta

Data de publicação: 16/06/2013

Morreu na tarde do dia 15 de junho de 2013, aos 94 anos, a escritora Tatiana Belinky. Uma das principais autoras de livros infantojuvenis do Brasil, ela estava internada desde o dia 4 de junho no hospital Alvorada, em São Paulo.

A reportagem a seguir foi feita pela jornalista Letícia Martins à Revista Família Cristã em março de 2012, por ocasião dos aniversário de 93 anos de Tatiana Belynky. Nesta Tatiana Belinky fala de seus amores.

Por Letícia Martins
Fotos Sonia Mele


Tatiana Belinky, escritora de espírito jovem, memória luminosa e criatividade solta, fez a primeira adaptação do Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão.


Com seus grandes amores, personagens, livros, e nas mãos uma foto nos braços do pai, Aron Belinky, com humor fala da personagem Emília: “Com o perdão da Capitu, para mim a Emília é a maior figura feminina da história brasileira, embora seja meio boneca, meio menina”.

Uma história que merece estar nos livros. Com quase um século de vida, a escritora Tatiana Belinky convive tranquila e alegremente com a criança que existe dentro dela. Grande incentivadora da leitura, tem um sem-número de livros publicados, além de traduções e premiações na área da literatura, teatro e televisão. Prestes a completar 93 anos de idade no dia 18 de março de 2012, ela recebeu a equipe da Revista Família Cristã em sua casa, no bairro do Pacaembu, em São Paulo (SP), para fazer o que mais gosta: contar histórias. Os livros, as crianças, a família, a boneca Emília criada por Monteiro Lobato, a viagem que mudou sua vida e a fez descobrir um mundo novo, quando deixou a Rússia, país natal, e veio para o Brasil, fugindo da guerra, são alguns dos assuntos favoritos desta escritora de espírito jovem, memória luminosa e criatividade solta.

O Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, em parceria com o marido, já falecido, o psiquiatra e educador Júlio Gouveia, com quem foi casada por mais de 50 anos e teve dois filhos, Tatiana despontou como escritora infantojuvenil em 1985 e dois anos depois publicava o seu primeiro livro, Limeriques, que teria outras versões posteriormente. Canhota, gosta de escrever as histórias a mão e até hoje recebe convites para obras infantis.
Sem formalismos, Tatiana vai logo avisando: “Não faço declaração nem dou depoimento. Gosto de bater papos. Você pode perguntar qualquer coisa que eu respondo se souber. Não minto... muito. Só um pouquinho”, brinca. O bate-papo divertido mesclou histórias de infância, as primeiras impressões de uma imigrante em terra tropical e a importância dos livros na educação de uma criança.

Educação infantil
- O mais importante na missão de falar para a criança é a própria criança. Não devemos domá-la nem domesticá-la, mas ajudá-la a abrir os olhos, os ouvidos, o coração e aprender a prestar atenção na vida. Não devemos encher a criança de medo, porque não é assim que se ensina. É importante expor a criança aos livros, levá-la em uma livraria e deixá-la escolher o título que quiser. Os pais precisam levar os filhos à biblioteca, à bienal, pois isso certamente marcará a infância deles, como fez comigo. É bom ler histórias para os filhos e deixá-los mexer no livro. Tem gente e até escola que não deixa o aluno manusear o livro por medo de estragar. Isso é um absurdo, porque a criança tem que ter o contato.

Aptidões - Comecei a escrever aos quatro anos, que é a fase que qualquer criança aprende mesmo se não houver imposição dos adultos e se for exposta aos livros. Antes de vir para o Brasil eu tinha uma grande estante de livros que eu adorava folhear. Tudo influência de papai, um exímio contador de histórias. Com essa idade eu falava três línguas, pois era comum na cidade de Riga, onde morávamos, as placas de rua trazerem o nome em três idiomas diferentes. Papai também era poliglota e aprendeu a falar português em uma viagem de navio que fez ao Brasil antes de trazer a família. Ser tradutora foi uma consequência da vida.

Literatura - Eu gosto de escrever para crianças e também para as crianças que estão dentro do adulto. Porque tudo o que é bom para as crianças é bom para os adultos, mas o inverso nem sempre é o correto. Eu também tenho uma criança que mora dentro de mim, afinal eu sou uma criança de 93 anos.

Inspiração - Uma vez uma criança me perguntou de onde vem as ideias para eu criar as histórias. Olhei bem nos olhos dela e respondi que ela era a minha inspiração. Crianças são uma fonte muito rica de boas ideias, basta querermos enxergar a mesma magia que elas enxergam.

Com seus grandes amores, personagens, livros, e nas mãos uma foto nos braços do pai, Aron Belinky, com humor fala da personagem Emília: “Com o perdão da Capitu, para mim a Emília é a maior figura feminina da história brasileira, embora seja meio boneca, meio menina”.

Monteiro Lobato -  O Jeca Tatuzinho foi o primeiro conto de Monteiro Lobato que li, aos 12 anos, eu não sabia nem quem ele era. Mas, anos depois, o Lobato esteve na minha casa para conversar com o meu marido, Júlio, por causa de um artigo que o Júlio havia escrito para a revista Literatura e Arte. Criamos uma relação de amizade com ele, eu o admirava muito. E foi uma grande honra adaptarmos a obra dele, o Sítio do Pica-Pau Amarelo para a televisão, anos mais tarde, quando Lobato já havia falecido. Naquele tempo, a televisão era em preto e branco, e o colorido eram as próprias conversas, as piadas, as histórias, o faz-de-conta, os personagens. Havia muita magia na tela da TV, tudo feito ao vivo.

A boneca de pano - Com o perdão da Capitu, para mim a Emília é a maior figura feminina da história brasileira, embora seja meio boneca, meio menina. Gosto nela a liberdade e a coragem que tem, enfrenta todo mundo e diz o que pensa. É como uma criança que ainda não sofreu muita intervenção dos adultos. A criança expressa sua criatividade quando a deixam livre para isso.

Os livros digitais -  Uma coisa não atrapalha a outra. O coração da gente é elástico, cabe muita informação e aceita fazer experiências diferentes, e o computador faz maravilhas. O importante é que a pessoa leia. Mas a criança precisa ter o livro nas mãos, tem que tocar, tem que fazer essa experiência que é mágica, de abrir o livro e ler linha por linha, viajar nele, levá-lo na viagem, na hora de ir para a cama, no parque. Nada substitui o livro de papel.

Em Agridoce nostalgia, (foto ao lado) dedicado à memória luminosa do papai, Aron, com 70 anos de saudades, Tatiana Belinky nos conta: “E do Além, do seu ‘encantamento‘, meu papai me anima a fluir e a viver melhor cada momento, pois jamais deixou de me acudir”. “Vem cá que eu te levanto.”

A família - Meus pais foram grandes educadores para mim. Não me esqueço da pedagogia de papai, que era muito peculiar. Uma vez, quando eu era criança, estava brincando na sala e sofri um tombo grande. Meu pai não correu para me acudir, ao contrário, ele estava sentado em um canto da sala e me disse: “Vem cá que eu te levanto”. Já faz 70 anos que papai morreu e até hoje quando estou em uma situação difícil eu peço ajuda para ele me levantar.
Minha mãe era dentista e, embora fosse muito delicada, tinha muita força nos braços. Na época, não era comum usar anestesia, então ela arrancava os dentes dos pacientes com muita força e de uma só vez. Na hora, eles ficavam muito bravos com ela, mas depois, quando viam que a dor passava e o problema estava resolvido, mandavam até flores. Era uma pessoa forte. Gosto de lembrar da voz dela, era uma ótima cantora.

A viagem - A viagem para o Brasil foi uma grande aventura que eu nunca poderia imaginar. Foram três semanas de navio, eu tinha dez anos e só conhecia o Brasil pelas imagens que via nos selos que meu pai tinha. “O Brasil é um país tropical”, dizia meu pai, e, quando chegamos aqui, eu senti isso na pele. Era o país que tinha a porta aberta para imigrantes como nós. Cheguei ao Brasil sem nem imaginar como seria esse país de clima tão diferente. Chegamos ao Rio de Janeiro, uma paisagem linda, sem prédios altos, nem o Cristo Redentor havia na época. Víamos a praia de Copacabana à noite com as luminárias gigantes. Chamávamos de “colar de pérolas”, contornando a praia. De cara, gostei do Brasil. Para mim, não era outro país, era outro mundo. Fiquei mais impressionada quando vi um cacho de bananas no pé! Em Riba (Rússia), nós comíamos banana uma vez por ano. Por ser uma fruta exótica lá, meu pai comprava uma e dividia igualmente entre os filhos. Eu ficava imaginando uma grande palmeira, com folhas enormes e em cada folha uma banana. Quando vi pela primeira vez um cacho de bananas, achei que estava na terra prometida, que estava no país mais rico do mundo!

Histórias de imigrantes - Quando desembarcamos no Rio de Janeiro, meus pais me deixaram cuidando dos meus dois irmãos, um de sete e outro de um ano, no quarto de uma pensão enquanto eles iam resolver detalhes da documentação.Estávamos impacientes, embora tudo estivesse indo muito bem, até que apareceu um monstro no quarto e ficamos encolhidos na cama. Ficamos apavorados! Depois fomos descobrir que era uma barata. Nunca tinha visto uma barata tropical, porque no país de origem uma barata tinha o tamanho de uma unha. Além da barata, tinha outras coisas que nunca tinha visto, como um túnel, que vimos quando viajamos de trem para São Paulo. Achei fantástico! Até hoje, essa cidade me encanta.

Tatiana Belinky (1919 - 2013)




Fonte: Família Cristã 915 - Mar/2012
Postado por: Família Cristã




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