Conversa afiada

Data de publicação: 25/06/2013

Sérgio Esteves Jr.

Uma eventual discussão que não resvale para o desrespeito e termine de forma bem resolvida pode contribuir para a solução de conflitos. Mas, atenção: se elas se tornarem rotineiras a relação está em crise


Pesquisa realizada com 192 casais pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, durante 17 anos, e publicada em 2008 pelo Journal of Family Communication apontou que nas uniões em que parceiros guardam mágoas há maior probabilidade de um dos dois morrer prematuramente. E mais: a longevidade aumenta nas uniões quando um ou os dois cônjuges externam ressentimentos e resolvem conflitos. “A morte prematura é mais provável entre os cônjuges que escondem sua indignação”, conclui Ernest Harburg, responsável pela pesquisa. Uma redução simplista – mas sincera – dos resultados desse estudo pode estar em uma expressão de um antigo apresentador de TV, Abelardo “Chacrinha” Barbosa: “Quem não se comunica se trumbica”. O Velho Guerreiro tinha lá sua razão. Afinal, o estudo provou que faz mal se calar diante das críticas do companheiro ou da companheira, ainda mais quando injustas.

Portanto, quem tiver ouvidos para ouvir ouça: comunicar, através da fala, sentimentos, angústias, expectativas e outras emoções, faz parte de uma vida a dois. E quem não estiver preparado para isso é melhor ficar sozinho, pois será considerável a chance de uma desilusão. Até eventuais discussões, quando acontecem para resolver algum problema, não resvalando para o desrespeito ou ofensas e terminando de forma bem resolvida, sem mágoas, têm seu lado positivo e podem contribuir para o fortalecimento do casal – só mesmo em um relacionamento do conto da carochinha, entre fadas e príncipes encantados, elas não acontecem. “Uma discussão pode não ser ruim”, pondera o psicólogo clínico e psicoterapeuta de casais José Carlos Vitor Gomes. “Todo diálogo tem uma dialética em que um interlocutor levanta uma tese, o outro apresenta uma antítese que provoca, como resposta, uma síntese. E assim o processo se repete ad infinitum. É normal. O anormal são as ‘DRS’, ou as Discussões da Relação, porque quando são muito constantes se tornam nocivas” – define.

Rotina discutível – Com a experiência de um casamento que durou 24 anos e em uma segunda união iniciada em 2008 com a enfermeira Heloísa Chamma, o dentista Antônio Carlos Lacava, de 60 anos, pai de três filhos adultos e integrante do Grupo Bom Pastor, da Arquidiocese de São Paulo (SP), assina embaixo da afirmação de José Carlos. Para ele, homem e mulher são duas pessoas que se uniram para formar um só corpo, mas nem por isso deixam de ter mentalidade e formas de pensamento diferentes. “Creio que é humanamente impossível um casal que vive anos juntos não incorrer eventualmente em uma ou outra discussão. O mais importante, no entanto, é que elas sejam resolvidas da forma como nasceram: através do diálogo. Porque é conversando que a gente se entende. Um cede daqui e outro cede de lá, conversa mais um pouco e assim a gente vai vivendo bem” – garante o dr. Antônio Carlos.

É claro, no entanto, que as discussões não podem se tornar uma rotina na vida de um casal, pois aí fica claro haver, entre os dois, um problema de comunicação, para não dizer que a relação está em crise e precisa ser repensada. “O excesso de discussão geralmente vira briga e essa não leva às sínteses, porque não produz acordo e não conduz à paz. Um casal que vive em harmonia se respeita e, embora os dois não pensem igualmente em relação às coisas, há uma aceitação entre as diferenças. Existe concordância, perdão e bom senso para as discussões não se alongarem. Normalmente, ambos examinam juntos a questão e chegam fácil e rapidamente a um consenso. Passada a discussão, mudam de foco e falam sobre outras coisas, sem se deterem muito sobre o objeto da discórdia”, explica o psicoterapeuta José Carlos.

Paz e harmonia – E os filhos, como ficam, no caso de presenciarem uma discussão dos pais? Eis um problema à parte, pois as consequências não são positivas. “Uma regra de ouro em um casamento é evitar a situação, pois filhos têm pai e mãe como exemplos de vida e não gostam de ver uma discussão entre os dois. Mas se eventualmente isso acontecer, não vejo mal em pedir desculpas ao filho e dizer que o problema foi superado para evitar sofrimento”, acredita o dr. Antônio Carlos. “Os filhos não assistem às discussões de seus pais como se fosse um teatro que se passa fora da vida deles. A criança se divide, pois é metade do pai e metade da mãe”, interpreta José Carlos, para quem, por outro lado, uma conversa amistosa ou comum entre pai e mãe é uma das melhores coisas que um filho pode presenciar. “Conversar diante dos filhos é ótimo”, confirma o psicoterapeuta. “A sensação transmitida a eles é a de que a família vive uma harmonia que vem de dentro da alma e que os pais estão, realmente, em paz”, descreve o psicoterapeuta.




Fonte: Família Cristã 921 -Set/2012
Postado por: Família Cristã




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