A igreja em foco

Data de publicação: 23/07/2013

Dom Demétrio Valentini *


Depois de 2 mil anos, o Concílio Vaticano II colocava a Igreja diante do espelho para verificar sua identidade e as marcas de sua caminhada que precisavam ser retocadas.

Em 2012 celebramos os 50 anos da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, que acontecia no dia 11 de outubro de 1962. Como já pudemos constatar, o jubileu nos ajuda a reviver este grande acontecimento, que envolveu a Igreja de maneira tão intensa.

Uma constatação emerge com muita evidência: o tema central deste Concílio foi a Igreja. A partir desta constatação, fica mais fácil perceber a dimensão ampla e profunda do Concílio.  Ele encarou de frente o mistério da Igreja, à luz do Evangelho e da Igreja Primitiva,  ao mesmo tempo situando a Igreja no contexto da realidade de hoje. Ao longo da história, nenhum outro Concílio tinha centrado suas atenções de maneira tão global e direta sobre a vida e a missão da Igreja, como fez o Vaticano II.
          
A vista clareou − Como o povo se alegra, e canta feliz quando clareia a mensagem que Deus lhe dirige, assim aconteceu durante este Concílio. Aos poucos, ao longo das discussões conciliares, o assunto foi emergindo. Até que todos se deram conta: este era o desafio para o Vaticano II: identificar e descrever a natureza e a missão da Igreja.  Depois de 2 mil anos, ela se colocava diante do espelho, para constatar sua verdadeira identidade, e ao mesmo tempo verificar as marcas de sua caminhada, que precisavam ser retocadas.

Assim, a ideia insistente do papa João XXIII de promover um grande aggiornamento, uma grande atualização, encontrava o destinatário certo: era preciso atualizar a própria Igreja, buscando os critérios na “volta às fontes”, como também insistia João XXIII. Mas não foi fácil chegar a esta primeira grande unanimidade do Concílio: o seu tema central.

Os debates conciliares − Lembramos como a generosidade de intenções tinha suscitado tantos assuntos, que iam sendo colocados em “esquemas preparatórios”, para garantir que o Concílio os pudesse tratar.  Ao começar seus trabalhos, o Concílio, somando todos, tinha pela frente 75 esquemas. O mais maduro, e o mais fácil para os bispos se situarem, era a liturgia. Ela foi de fato o primeiro assunto debatido na primeira sessão em 1962. Em seguida entrou em pauta outro assunto, bem mais complicado, referente à revelação, redigido de maneira bastante inconveniente, pois ainda refletia o clima de animosidade contra os cristãos separados da Igreja Católica. Tanto que o Concílio resolveu rejeitar este esquema, para surpresa de muitos bispos.

Foi neste clima, já quase no final da primeira sessão em 1962, que entrou em pauta o esquema preparatório sobre a Igreja. Então os bispos começaram a se dar conta de que estavam entrando no assunto esperado por todos, e que podia aglutinar os outros. 

Algumas intervenções ajudaram a fortalecer esta constatação. Uma delas foi feita pelo então cardeal João Batista Montini, que depois seria o papa Paulo VI.  Dizia ele que o Concílio tinha encontrado o seu grande assunto, e a partir dele podia traçar melhor os rumos a seguir.

De tal modo que, terminada a primeira sessão, os bispos não tinham aprovado ainda nenhum documento, mas ao menos tinham encontrado o grande assunto, em torno do qual dava para situar todos os outros.

A grande constelação − Foi no intervalo entre a primeira e a segunda sessão, sob o comando ainda do papa João XXIII, que se decidiu reduzir os 75 esquemas a pouco mais de dez, procurando integrar todos os assuntos por sua vinculação com o tema igreja. Assim, encontrado o assunto central, era possível articular os outros assuntos. Olhando agora os 16 documentos aprovados pelo Concílio, podemos perceber como todos eles, de fato, se relacionam com o tema central. O documento mais importante é o Lumen Gentium, que trata diretamente da Igreja. Os outros todos giram ao redor desse documento, como os planetas giram ao redor do sol.

O Gaudium et Spes trata da Igreja no mundo moderno. O documento Sacrosanctum Concilium fala da Liturgia, mas tem como pano de fundo a Igreja, que celebra seu mistério e sua missão. O documento Dei Verbum se refere à Palavra de Deus, fonte permanente de renovação na Igreja. E assim é possível citar todos os documentos conciliares, identificando sua conexão com a Igreja, que o documento Lumen Gentium aborda diretamente.

Revolução copernicana − Ao longo dos debates conciliares, aconteceu um fato muito importante. Diversos bispos expressavam seu descontentamento com a pobreza do esquema preparatório, que não dava conta da riqueza de um assunto tão grande, como era a natureza e a missão da Igreja de Cristo.

Foi então que o cardeal Döpfner, da Alemanha, propôs que, antes de estudar a situação específica de cada categoria de membros da Igreja, se fizesse primeiro um capítulo que incluísse a todos, como membros vivos e efetivos da Igreja. E propôs um capítulo prévio sobre a Igreja como Povo de Deus, onde todos encontram sua dignidade, com direito a participar da vida e da missão da Igreja.

A proposta agradou a todos, e foi prontamente aceita. Ela foi tão decisiva, que acabou caracterizando o Vaticano II como o Concílio que recuperou a visão bíblica da Igreja como Povo de Deus.
Esta visão acolhe a diversidade de vocações e de ministérios, que se destinam a enriquecer a Igreja e estar a seu serviço. Assim, a própria hierarquia passa a ser entendida como um serviço à Igreja, importante e indispensável, mas sempre um serviço ao Povo de Deus.

Isto causou uma mudança de perspectiva muito grande. Alguns a compararam com a situação vivida nos tempos de Copérnico, quando ele descobriu que não era o sol que girava em torno da terra. Mas era a terra que girava em torno do sol. Assim, não é a Igreja que gira ao redor da hierarquia. Mas é a hierarquia que gira ao redor da Igreja, para servi-la.

Conclusão − Encontrar o tema central do Concílio é encontrar o tesouro escondido no campo. Sabemos o que Jesus nos recomenda fazer.

* Dom Demétrio Valentini é bispo de Jales (SP) e ex-presidente da Cáritas Brasileira.




Fonte: Família Cristã 917 - Mai/2012
Postado por: Família Cristã




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