Novo espírito

Data de publicação: 05/08/2013

Padre José Oscar Beozzo *



Manhã de 11 de outubro de 1962, início do 21º Concílio da história da Igreja Católica


João XXIII fixou para 11 de outubro, festa da Maternidade de Maria, o início do Concílio Vaticano II, o 21o Concílio da longa série iniciada com o Concílio de Niceia, no ano de 325. Na Basílica de São Pedro, encontravam-se os mais de 2.500 padres conciliares, as delegações oficiais de 86 países e organismos internacionais, os observadores das Igrejas cristãs não unidas a Roma, os peritos e convidados; na praça, a multidão que aplaudira a procissão dos bispos de túnica e mitra brancas e, o papa, que a abençoava do alto da sedia gestatória.

Na entrada, a surpresa: o papa desce da sedia e percorre a pé a nave central da basílica, como irmão entre irmãos. Dirige-se ao altar da confissão de São Pedro e acompanha a missa presidida pelo cardeal Tisserant. Senta-se e recebe a obediência dos cardeais, patriarcas, arcebispos e bispos. Faz sua profissão de fé, na formulação do Credo niceno-constantinopolitano, e inicia o discurso de abertura do Concílio: Gaudet Mater Ecclesia, Alegra-se a Mãe Igreja.

Alceu Amoroso Lima, que integrava a delegação oficial do governo brasileiro para a abertura do Concílio, escreveu à sua filha religiosa sobre o discurso do papa: (Apreciei) o que ele disse, nas passagens em que falava do “novo espírito” da Igreja, que não era de anátemas e condenações, mas de amor, fraternidade, união na verdade, em suma, tudo aquilo que venho pregando há tanto tempo em torno do espírito de universalidade, equilíbrio, paternidade, paz, amor etc; que você já está chateada de ouvir. Destacou o “trabalho” e condenou os “pessimistas”!

De modo que o que me falou, antes de tudo, foi a palavra do papa, ouvida (e vista) da sua própria boca, com uma voz tão firme como de um moço e uma atitude tão calma, tão desprendida, tão natural (e portanto tão sobrenatural) como se estivesse rezando sozinho em sua capela particular! E, no entanto, estava e estávamos vivendo um momento histórico naquela basílica, onde agora se celebrava o maior Concílio da História. Entrou por seus pés, e não na “sedia gestatória”, o que apreciei muito (estava torcendo que assim fosse) e também saiu assim (LIMA, Amoroso Alceu, João XXIII, 1966, pps. 84-85).

Discurso meditado – Se a ideia do Concílio brotara na mente de João XXIII como “fiore d´inattesa primavera”, “flor de inesperada primavera”, chegara a hora, depois de três anos de intensa preparação, de abrir o tão esperado Concílio. João XXIII preparou-se para aquele momento.

No discurso transparece uma síntese de toda sua vida: a fé e a piedade bebidas no leite materno e no exemplo laborioso de um pai lavrador; sua vocação e seu ministério, iniciado em meio aos horrores da Primeira Guerra Mundial como capelão militar, continuado como diplomata na Bulgária ortodoxa e na Turquia muçulmana; na nunciatura em Paris (França) e como bispo no patriarcado de Veneza e na cidade de Roma, acumulando ali o ofício de pastor universal. Condensou neste discurso toda sua experiência de vida, sabedoria e espiritualidade.

No mês de agosto, nas suas férias, embora movimentadas de Castel Gandolfo, começou a esboçar o discurso. Em setembro, de 8 a 16, retirou-se para os exercícios espirituais. O papa anota no dia 10: “Início do meu Retiro Pessoal para o Concílio na Torre S. Giovanni”, no livro de Angelo Giuseppe Roncalli, Pater Amabilis. Agende del Pontefice: 1958-1963, p. 430). Tudo aqui é preparação da alma do papa para o Concílio, e logo adiante: “Vejo bem que a preocupação de servir o Concílio prevalecerá sobre as formas costumeiras dos assim chamados exercícios espirituais’’. No dia 11, anota: “Nesse meio tempo, alinhavo também o primeiro esboço das ideias para o discurso de abertura de 11 de outubro’’ (ibidem, p. 431).

A Gaudet Mater Ecclesia, como ficará conhecido o discurso de abertura, compreende a introdução, sete pequenos blocos e a conclusão, num total de 44 parágrafos. O papa buscou a inspiração bíblica no Evangelho de São Lucas, Evangelho do Espírito Santo, da alegria e do cântico de Maria. Lucas é citado quatro vezes, Mateus, duas. Recorre ainda ao Gênesis e, no Novo Testamento, aos Atos dos Apóstolos, a Paulo (2 Coríntios e 1 Timóteo) e, enfim, ao Apocalipse. Dos Santos Padres, apenas Agostinho é evocado.

Mais do que um programa para o Concílio, João XXIII oferece uma atitude perante a História, uma postura em face do presente, um caminho para o amanhã, “como se visse o invisível” (Hb 11,27b).

O que desejava era transmitir o espírito que devia animar o Concílio, ir além das fronteiras da Igreja Católica, à humanidade toda. Propõe:

Atitude confiante e positiva, afastando-se dos profetas da desventura que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo (IV.3).

Nada de condenações e anátemas, mas a serena apresentação da verdade. Ela deve responder às exigências do nosso tempo. Uma coisa é a substância do depositum fidei, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance (VI.5).

Magistério de caráter eminentemente pastoral. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais correspondam ao magistério, cujo caráter é pastoral (VI.5).

Remédio da misericórdia. A Igreja sempre se opôs a estes erros; muitas vezes até os condenou com severidade. Agora, a esposa de Cristo usa mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações (VII.2).

Busca ecumênica pela unidade dos católicos, dos cristãos, dos fiéis de religiões não cristãs e de todo o gênero humano. Veneráveis irmãos, isto se propõe o Concílio Ecumênico Vaticano II, que, ao mesmo tempo, que une as melhores energias da Igreja e se empenha por fazer acolher pelos homens mais favoravelmente o anúncio da salvação, como que prepara e consolida o caminho para aquela unidade do gênero humano, que se requer como fundamento necessário para que a cidade terrestre se conforme à semelhança da celeste na qual reina a verdade, é lei a caridade, e a extensão é a eternidade (VIII.4).

Que o Concílio corresponda às necessidades e esperanças dos diversos povos. Queira o céu que as vossas canseiras e o vosso trabalho, para o qual se dirigem não só os olhares dos povos, mas também as esperanças do mundo inteiro, correspondam às aspirações universais (IX.4).

Espíritos mais alertas colheram, sob a aparente simplicidade daquelas palavras, a profunda novidade do discurso do papa. Conforme o Concílio avançava, foi a Gaudet Mater Ecclesia bússola e farol que o guiaram nos momentos de incerteza e impasses.

As emoções daquele dia não se acabaram, porém, com a longa cerimônia de abertura que durou mais de sete horas e cujo ponto alto fora o discurso do papa. A noite reservava nova surpresa. (Este artigo continua na próxima edição com “Ao cair da noite’’).

* Padre José Oscar Beozzo é estudioso da história da Igreja Católica na América Latina, coordenador-geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP) e vigário da Paróquia de São Benedito, Diocese de Lins (SP).




Fonte: Família Cristã 918 - Jun/2012
Postado por: Família Cristã




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