Procura-se um irmão

Data de publicação: 16/08/2013

Cézar dos Santos



Cerca de 15 mil pessoas terão direito a pleitear uma indenização do Estado em função de terem sido separadas, ao nascer, de pais hansenianos. Tão importante quanto isso, porém, é eles se reencontrarem

A hanseníase acompanha a humanidade há 4 mil anos e só em 1940 foi descoberto um tratamento eficiente para combatê-la. Com ele, os casos contagiosos deixaram de ser transmissíveis em 15 dias. Uma vez curado o paciente – o que ocorre em 100% dos casos –, não há mais como transmitir a doença. Vale dizer que o contágio se dá em menos de 10% das vezes, pois em mais de 90% delas, quando há exposição ao bacilo de Hansen, esse causador da doença não passa pelas defesas naturais dos seres humanos. Se não fosse assim, a saúde pública estaria pior, pois a hanseníase ainda não foi erradicada. Nos últimos dez anos, 20 milhões de pessoas a contraíram no mundo, 500 mil delas no Brasil, onde surgem 37 mil novos casos todos os anos. A situação deverá melhorar com mais intervenções na área da saúde pública. “O Brasil tem condições de alcançar a meta de um paciente para cada 10 mil habitantes, proposta pela OMS (Organização Mundial da Saúde)” – reconheceu Yohei Sasakawa, embaixador da ONU (Organização das Nações Unidas) para a Eliminação da Hanseníase, em visita recente ao País.

Junto a ações que diminuam a incidência da doença, o Brasil se esforça para reparar os danos causados no passado aos portadores da doença. O motivo? Mesmo sabendo que havia cura para ela – em 1953, a OMS não mais admitia internações compulsórias –, o Brasil, a exemplo de outros países, preferiu varrer o "lixo" para debaixo do tapete, ou seja: confinar os portadores de hanseníase em hospitais de isolamento, os leprosários, onde permaneciam até morrer e sem direitos. A prática teve início na década de 1920 e foi oficializada através da Lei federal 610 de 1949, que recomendava o isolamento compulsório dos hansenianos. Revogada em 1962, a lei só caiu, na prática, em 1986. Em razão disso, os leprosários cresceram – abrigavam mais de 100 mil pessoas –, a ponto de se transformarem em comunidades. Hoje são conhecidas 32 comunidades cujas origens remontam aos antigos leprosários. O País chegou a ter 101 desses leprosários, sendo os mais conhecidos o Sanatório Aimorés, de Bauru (SP), o Hospital do Pirapitingui, em Itu (SP), e o Hospital Curupaiti, no Rio de Janeiro (RJ).

Indenizações e reencontros – Só em 2007, o Estado brasileiro reconheceu o erro de sua política higienista e, desde então, indeniza os ex-hansenianos com uma pensão vitalícia – o Brasil foi o segundo País do mundo a ter tal atitude, sendo antecedido pelo Japão. Até agora, o benefício chega a 8 mil pessoas, mas pode atingir 12 mil, pois mais processos correm na Justiça. Outra reparação em vias de ser concedida beneficiará os filhos dessas pessoas isoladas, porque assim que nasciam, nos leprosários, eram levados a orfanatos, onde permaneciam ou eram adotados, muitas vezes de forma irregular. As separações aconteciam não apenas entre pais e filhos – há registros de suicídios de alguns pais em função da separação –, mas também entre irmãos. Acredita-se que vivam, no Brasil, cerca de 15 mil pessoas com direito a pleitear uma indenização em função de terem sido separadas de suas famílias e condenadas a viverem em educandários ou serem adotadas.

A luta por essa indenização parece encaminhada. Sob o comando do Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase), uma organização não governamental criada em 1981, ela foi lançada em agosto de 2011 com o nome de Programa de Identificação de Familiares Separados pelo Isolamento Compulsório de Pessoas com Hanseníase, ou simplesmente Programa Reencontro. Com uma mobilização nacional, o Programa realizou reuniões em 18 estados para o preenchimento de cadastros por parte de pessoas interessadas em conhecer suas origens. A iniciativa conta com o apoio da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), de parlamentares de vários estados, do Congresso Nacional e recebeu sinal verde da Secretaria Especial dos Direitos Humanos e do Palácio do Planalto, através da presidente Dilma Rousseff, que declarou apoio à causa. “O Brasil poderá ser o primeiro País do mundo a indenizar os filhos que foram separados pela hanseníase” – acredita Artur Custódio, coordenador nacional do Morhan.

Os principais interessados já avisam: indenização só não basta. Para Artur Custódio, a indenização é apenas um pedido de desculpas da sociedade aos milhares de brasileiros submetidos à violência física, psíquica, social e moral. É preciso, também, que as pessoas saibam de onde e como vieram ao mundo. “Os muros das antigas colônias foram derrubados, seus portões foram abertos, mas a luta pelo reencontro dessas famílias ainda continua” – garante ele. “Buscamos não apenas a reparação, mas reatar laços familiares” – completa Elson Dias, membro voluntário do Morhan no estado do Acre.

Saliva e genética – Para irmãos que procuram irmãos ou, mesmo, suas famílias, a adesão do Inagemp (Instituto Nacional de Genética Médica Populacional) ao Programa Reencontro foi um reforço. A entidade, ligada ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), está montando no Hospital das Clínicas de Porto Alegre (RS) um banco de dados com o material genético de pessoas envolvidas com o Programa Reencontro, interessadas em descobrir suas origens biológicas e desejosas de reencontrar seus familiares. “A iniciativa foi inspirada na história das Avós da Praça de Maio, na Argentina, que utilizaram exames genéticos para reencontrar seus netos, filhos de cidadãos desaparecidos durante a ditadura militar” – revela Artur Custódio.

Para a coleta do material nada de sangue ou de fio de cabelo, mas saliva. “Não precisa congelar, refrigerar nem picar ninguém. A saliva pode ser facilmente manejada: é coletada dentro de um pequeno frasco especial que a preserva e enviada pelo correio de qualquer local do País para o Hospital das Clínicas de Porto Alegre, onde análises moleculares serão realizadas em um processo que leva cerca de 15 dias” – explica a geneticista Lavínia Faccini, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e voluntária do Morhan desde 2005. Como o Programa Reencontro é recente, esse banco de dados genéticos ainda é incipiente. Até o final de 2011, ele tinha o material de 150 pessoas. A expectativa, porém, é que ele chegue a 2 mil pessoas até 2013 e, assim, possa ajudar a reunir famílias separadas pela hanseníase, seja cruzando informações genéticas de irmãos que não se conhecem e confirmando – ou não – o parentesco de pessoas que desconfiam ser irmãs de outras.

Como, aliás, aconteceu com a pedagoga e assistente social Maria Teresa da Silva Santos Oliveira e de suas irmãs, Marisa Luchetti e Elza Melo, todas na faixa dos 50 anos. As três irmãs, que não se conheciam, nasceram em Mogi das Cruzes (SP), no Leprosário Santo Ângelo, Colônia de Jundiapeba, desativado nos anos 1980 e hoje conhecido como Hospital Geral Doutor Arnaldo Pezutti. Devido a pesquisas empreendidas por Maria Teresa, que foi adotada por uma família de classe média alta ao nascer e até 2002 desconhecia suas origens biológicas, ela chegou primeiro às suas irmãs e, depois, ficou sabendo que ainda tinha outros cinco – um falecido. “Entre muitas descobertas, constatei que tenho duas certidões de nascimento. Fui registrada e batizada primeiro como Maura Regina Luchetti e, depois de adotada, como Maria Teresa. Acho que muita coisa errada ainda virá à tona” – afirma Maria Teresa, que hoje é a responsável pela unidade do Morhan de Barueri, onde reside. Encontros realizados nesse local já reuniram mais de 100 pessoas interessadas em descobrir suas origens.




Fonte: Família Cristã 912 - Dez/2011
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Arte e natureza se fundem no I
Visitantes têm experiências múltiplas em um dos maiores centros de arte contemporânea a céu aberto do mundo
Panorama
Uma cidade pequena, conhecida como a "Assis brasileira", vive da fé de milhares de romeiros.
Tecendo arte e vida
O Tear traz em seus pilares o desenvolvimento humano e o respeito à diversidade biocultural,
O mar de Minas Gerais
Entre a serra e a represa, um lugar mágico, com canyons e paisagens deslumbrantes
Eu tenho um sonho
Meus amigos, apesar das dificuldades e frustações eu vos digo: eu ainda tenho um sonho.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados