"Guardate la luna"

Data de publicação: 19/08/2013

Padre José Oscar Beozzo*

Noite daquele 11 de outubro de 1962, uma procissão luminosa percorre as ruas de Roma. Queria recordar, assim, a espontânea e entusiástica homenagem que, ao final do Concílio de Éfeso (431), o povo da cidade, numa alegre procissão, à luz de tochas, prestara a Maria, proclamada pelo Concílio, Teótokos, Mãe de Deus.

O papa João XXIII havia escolhido de propósito esta festa da Maternidade de Maria para a abertura do Concílio Vaticano II e, agora, diante daquele mar de velas acesas que invadira a Praça de São Pedro e suas ruas adjacentes, assomou-se ao balcão dos aposentos pontifícios para abençoar a multidão: 

Olhai a lua!

Esta se levantava no horizonte, iluminando a noite. O papa, emocionado, dirige-se ao povo e brota dos seus lábios, inteiramente de improviso, um segundo discurso de abertura do Concílio, diferente do daquela da manhã, longamente meditado, amadurecido e dirigido aos cardeais, patriarcas, bispos e aos grandes da Terra.

Naquele cair da noite, volta-se para o povo miúdo da cidade saído dos bairros populares e para os peregrinos do mundo todo que haviam acudido a Roma para a abertura do Concílio.

Diálogo com a multidão – Dá-se início assim: Caros filhos, escuto suas vozes. A minha é uma só, mas retoma as vozes todas do mundo; e aqui de fato o mundo está representado. Dir-se-ia que até a lua se apressou nesta noite… Observai-a no alto a contemplar este espetáculo… Concluímos uma grande jornada de paz… Sim, de paz: “Glória a Deus e paz aos homens de boa vontade”.

A minha pessoa nada conta: é um irmão que fala a vocês, um irmão que se tornou pai pela vontade de Nosso Senhor… Continuemos, pois, a nos querer bem deste modo no encontro: tomar aquilo que nos une e deixar de lado alguma coisa que possa nos colocar em dificuldade…

Voltando para casa, vocês encontrarão as crianças. Façam-lhes uma carícia e digam-lhes: “Esta é a carícia do papa”. Encontrarão talvez alguma lágrima para ser enxugada. Tenham para quem sofre uma palavra de conforto. Que saibam os aflitos que o papa está com seus filhos, especialmente nas horas de tristeza e amargura…

E, então, todos juntos nos amemos: cantando, suspirando, chorando, mas sempre cheios de confiança no Cristo que nos ajuda e nos escuta, retomemos nosso caminho.

Adeus, filhinhos!


Acrescento à bênção o augúrio de boa noite (DCM IV 592-593).

Anotações desse diaFiat voluntas tua: Terminado aquele dia memorável e cheio de emoções, o papa, que acabara de ser prevenido por seu médico, poucos dias antes, acerca da grave enfermidade que o acometera e o levaria à morte, faz serena entrega de sua vida a Deus. Este lhe permitira abrir o Concílio Vaticano II, mas certamente lhe pediria que o entregasse ao seu sucessor, para seu prosseguimento e conclusão.

Escreve o papa Jõao XXIII em sua agenda:

11 de outubro – quinta-feira.

Esta jornada assinala a solene abertura do Concílio Ecumênico. A notícia está em todos os jornais e, em Roma, nos corações exultantes de todos. Agradeço ao Senhor por não fazer-me indigno da honra de abrir, em seu nome, este início de grandes graças para sua Santa Igreja.

Ele dispôs que a primeira centelha que preparou durante três anos este acontecimento tivesse saído da minha boca e do meu coração.

Estava disposto a renunciar também à alegria deste início.

Com a mesma tranquilidade repito o Fiat voluntas tua (Seja feita a tua vontade), a respeito do manter-me à frente deste primeiro posto de serviço, por todo o tempo e em todas as circunstâncias de minha humilde vida, e acerca do sentir-me obrigado, a qualquer momento, a passar ao meu sucessor esta tarefa de proceder, continuar e concluir (o Concílio).

“Fiat voluntas tua, sicut in coelo et in terra
- Seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu (Mt 6,10)” (livro de Angelo Giuseppe Roncalli, Pater Amabilis. Agende del Pontefice: 1958-1963, p. 441).

 
*Padre José Oscar Beozzo é estudioso da história da Igreja Católica na América Latina, coordenador-geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP) e vigário da Paróquia de São Benedito, na Diocese de Lins (SP).




Fonte: Família Cristã 919 - Jul/2013
Postado por: Família Cristã




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