Herdeiros do controle

Data de publicação: 20/08/2013

Cleusa Thewes*       
Ilustração: Ricardo Corrêa   
                    
Pessoas controladoras geram ruídos e desconforto  nos relacionamentos. E os  controlados? Sentem-se diminuídos, medrosos, rebeldes, pouco confiantes.

O que é cuidar? O que é controlar? Você é cuidadoso ou controlador? Estes questionamentos conduzem ao autoconhecimento e contribuem para construir um relacionamento saudável. A charada é conhecer-se para viabilizar uma interação conjugal equilibrada. Considere significativa, ainda, a distinção entre cuidar e controlar. Sentimentos inadequados geram atritos, repressões, distanciamentos e disfunções no relacionamento diário.

Historicamente, o  brasileiro carrega condicionamentos. Um legado emocional do rigor político: o medo de ser controlado. Fomos tolhidos, calados e reprimidos em nossa própria pátria, nosso chão. Hoje, finalmente, povo novo em nova pátria, com matiz e perfil renovados, resgatamos a autonomia cidadã, o protagonismo social: escolhemos, criamos e até criticamos. Mas, se abdicarmos do cuidado, “o berço esplêndido”, não acolherá seus parceiros. E na cantada “pátria livre”, dos “laços fora, soldados”, exercita-se um controle equilibrado, que busca limitar a violência, promover a segurança e o zelo pelos seus amados. Devemos entender que a realidade social fotografa e reproduz em uma instância macro a interação relacional da microcélula familiar, um cuidar ou um controlar.

Herdeiros da cultura machista – Em nossa família de origem, avós e pais foram criados num clima familiar onde o poder, a autoridade e o controle eram habilidades masculinas, compreendidas e aceitas como necessárias para a manutenção do sistema familiar. A mulher, na casa, apenas dava seu aval ao homem. As regras, impostas pelo marido, eram obedecidas por ela e pelos filhos. Recordemos até uma fala saudosa: “Lá em casa, o papai falava, e ninguém abria a boca”.

Resquícios dessa variável controladora acompanham as gerações como uma sombra. Mas as reflexões avançaram e começamos, enfim, a compreender onde a força controladora liquidifica autoritarismo e autoridade. Gente, desapegar-se dos velhos hábitos e assimilar outros novos é um aprendizado lento! Casais e pais, o controle continua disfarçado de cuidado colorido nos lares. Isso é manipulação e poder.

O que é mesmo cuidar? É zelar, amparar, respeitar, valorizar, regrar, flexibilizar, dialogar. Os cuidadores confiam, estimulam. Dão espaço ao outro. E pessoas cuidadas revelam-se seguras, abertas aos desafios. Amadurecem.
E o que é controlar? É algo diferente. É invadir o espaço alheio, determinando o que o outro  tem que ser,  fazer, vestir e até pensar. É fiscalizar com desconfiança! O controlador mostra-se rígido, inflexível, possessivo. Supervaloriza a sua verdade, minimiza a verdade  do esposo(a), dos filhos. Pessoas controladoras geram  ruídos e desconforto  nos relacionamentos. E os  controlados? Sentem-se diminuídos, medrosos, rebeldes, pouco confiantes.

João e Vera na cozinha – Os dois são casados há 30 anos. Ela, do lar. Ele, empresário aposentado, decide ajudá-la em casa. Vera coloca a chaleira para esquentar água no fogão; João  reclama que a chaleira está  mal posicionada, desperdiçando gás. Vera se enfurece! Vera lava a louça, limpa a pia. João comenta: “Você deixou a pia cheia de pingos, molhada, precisa secar melhor!”. E todas as manhãs, na cozinha, o bate-rebate: faça assim; não faço! Vera sente-se controlada e João, desgastado no controle sem êxito. Eis o resultado de confrontos e disputas por espaço no diário jogo de forças e controles....

Que soluções encontraram para cada cônjuge ser do seu jeito? Dividiram as tarefas. Ela cuida da cozinha e ele, do pátio. Ela borda, ele lê. Depois das brigas, dialogaram. E aprenderam a respeitar seus jeitos e quadrados num mesmo espaço.

Maria virou estudante – Ela é casada e aposentada, os filhos são adultos. Um dia, resolveu cursar uma faculdade. O esposo enlouqueceu. O lugar dela era ao lado dele. Durante 15 anos, ela tratou de depressão, tomou remédios para suportar fazer apenas o que ele queria. Sofria de fibromialgia, diariamente. Maria, porém, foi firme. Assumiu seu desejo. Foi fazer faculdade! A depressão sumiu e nunca mais sentiu a fibromialgia. E, o esposo, como está? Brigou, gemeu, nasceu... Entregou o comando da vida de Maria para ela. Juntos aprenderam que controlar não é cuidar.

Lembrete: use somente o controle remoto dos aparelhos eletroeletrônicos. Pessoas não são máquinas. São seres que desejam cuidado equilibrado.

*Cleusa Thewes é terapeuta familiar, especialista em orientação familiar.




Fonte: Família Cristã 914 - Fev/2012
Postado por: Família Cristã




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