Igreja, Povo de Deus

Data de publicação: 26/08/2013

Padre Ney de Souza *

O Vaticano II se abre às dimensões da política, do social, do progresso, da cultura, da paz, da promoção e do desenvolvimento dos povos e de sua libertação integral

Em outubro de 2012 ocorreu a comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965). Este Concílio é um porto de partida para a Igreja do século 21. É um evento pastoral-eclesiológico que inicia um novo tempo para a Igreja Católica.

João XXIII não desejava um concílio que repetisse os anteriores. O Vaticano II deveria se preocupar com o caminho necessário para a sociedade do tempo presente, abrir-se ao Evangelho. Como anunciar o Evangelho para a sociedade contemporânea e como vivê-lo na atualidade?

Em um discurso no dia 29 de setembro de 1963, Paulo VI orientará o Concílio nos caminhos eclesiológicos: Igreja, o que dizes de ti mesma? Como a Igreja é chamada a dialogar com o mundo de hoje?

O Concílio introduziu um novo modo de fazer e pensar a teologia. Elaborou uma teologia a partir da realidade. Assim, a Igreja será vista na história como uma presença nova e atuante de Jesus de Nazaré. Antes do Vaticano II a ideia da Nouvelle Théologie (Teologia que nasceu na França no início do século 20), de Daniélou, De Lubac, Congar já era uma teologia de contato com as fontes. Esta teologia estava aberta ao pensamento contemporâneo. Uma teologia que, a partir do contexto, ilumina as ações do ser humano. A salvação não é colocada antes ou depois do mundo, mas dentro do mundo. Como afirmou Paulo VI, a Igreja não veio para condenar o mundo, mas para salvá-lo. Aqui se apresenta a teologia do Reino de Deus já presente no mundo por meio da Igreja, que é o sinal, o germe, o princípio evangélico do Reino de Deus (Lumen Gentium, LG, 5). A Igreja é o fermento evangélico inserido no coração da sociedade e da humanidade.

Igreja Povo de Deus – Novos aspectos do ser Igreja no mundo chamam a atenção na reflexão conciliar. O Concílio apresenta uma Igreja aberta à comunidade como forma de viver a vida cristã e de estar presente na sociedade. Existir em comunidade é a exigência da vida cristã (LG, 9). A pastoral não é um meio de segregação, mas de coparticipação profunda da condição humana na qual estão inseridos todos os membros da Igreja. Daí uma Igreja “Povo de Deus”, vivendo a comunhão e a participação.

A Igreja não pretende dominar o mundo, mas servi-lo. Sua presença no interior da sociedade é ser sinal de solidariedade e não uma busca por privilégios e poder. Igreja que se esquece de si mesma em prol da dignidade da pessoa humana. A Gaudium et Spes,40, revela esta Igreja que deve sempre ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus. O Vaticano II evitou o triunfalismo e usou expressivamente o vocabulário do serviço.

O Concílio indica um estilo novo de Igreja: diálogo, valorização e respeito pelo ser humano, cooperação com todos para o bem da verdade, liberdade, justiça. Tudo para o progresso e a paz. O Vaticano II, portanto, se abre para as dimensões das realidades temporais, da política, do social, do progresso, da cultura, da paz e contra a guerra, da economia, da promoção da pessoa e do desenvolvimento dos povos e de sua libertação integral. O próprio Paulo VI aponta para os valores humanos no seu discurso de encerramento do Concílio.

Leigos – Neste novo estilo de Igreja os leigos deixaram de ser receptivos e passivos. Pela expressão Povo de Deus, o Concílio afirma o papel ativo de todos os batizados, especialmente os leigos. Todos os cristãos são iguais, embora haja diversidade de ministérios. Os leigos não são simplesmente o braço direito da hierarquia, mas participantes ativos da vida da Igreja. Todos têm vocação missionária. Sem dúvida, as mulheres ganham maior destaque na Igreja no momento sucessivo ao Concílio. É importante ressaltar este novo estilo de Igreja com uma grande participação dos leigos e leigas para uma comunidade cristã que quer influenciar o século 21. Sem esta participação ativa, pensando a fé criticamente, fruto conciliar, a esperança ficará obscurecida. Todos são Igreja, não só os padres, mas os bispos.

Neste novo modelo eclesiológico, todos que passaram pelas águas do Batismo são chamados a se constituir como Povo, na continuidade do Povo chamado no Antigo Testamento. Todos são partícipes da mesma missão que é anunciar o Reino de Deus.

Colegialidade – Esta palavra não foi usada nos textos conciliares, mas foi usada para comentar os textos e expressa uma grande aspiração da Igreja inteira. Apesar de não ter ocorrido uma sensível modificação na relação entre os bispos e a Cúria Romana, é possível colher do Concílio possibilidades iniciais de uma colegialidade nas decisões gerais da Igreja.

Existem várias instituições que possibilitam a concretização desta colegialidade: as conferências regionais nacionais, que anteriormente ao Concílio existiam em diversos lugares. No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil (CNBB) foi criada em 1952. Outra instituição criada depois do Concílio, o Sínodo dos Bispos.

Lentamente este tipo de estrutura colegial vai se firmando na Igreja. Várias dioceses convocam suas assembléias, onde se vive fortemente uma base laical e colegial da Igreja particular. Multiplicam-se os conselhos em diversos níveis com participação dos fiéis.

O Concílio Vaticano II foi um marco importantíssimo na História da Igreja Católica, um divisor de águas. O evento conciliar é o símbolo máximo do diálogo no século 20. Assembleia corajosa no diálogo com a modernidade. Para não se deixar inebriar pelo evento será necessário também analisar acontecimentos no decorrer do Concílio e no pós-Concílio. Serão encontrados traços de aproximação e distanciamento da modernidade.


* Ney de Souza é padre da Arquidiocese de São Paulo (SP) e professor de História da Igreja na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).




Fonte: Família Cristã 920 - Ago/2012
Postado por: Família Cristã




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