Dízimo é partilha

Data de publicação: 02/09/2013

Paróquia no interior de São Paulo vive experiência das primeiras comunidades cristãs e retoma o sentido bíblico do dízimo e da partilha

Por Fernando Geronazzo

Não se pode negar o quanto é bom entrar em um templo, igreja, ou outro espaço de culto, para fazer suas orações, celebrar a fé, ou simplesmente se encontrar com os irmãos e se deparar com um espaço físico que favoreça a experiência do sagrado. A manutenção da limpeza, organização e a segurança são elementos importantes nestes lugares públicos, bem como as pessoas que se dedicam à missão evangelizadora. E, sobretudo, o cuidado com os mais necessitados da comunidade. Toda essa infraestrutura tem um custo. De onde vêm esses recursos? Da comunidade, ou seja, das pessoas que se utilizam desses espaços e serviços.

O capítulo 4 do livro dos Atos dos Apóstolos narra a experiência das primeiras comunidades cristãs. O texto bíblico afirma que os cristãos tinham tudo em comum... Dividiam seus bens com alegria e eram um só coração e uma só alma.

Com o passar dos anos, a prática de ajudar a Igreja em suas necessidades passou a ser um dos cinco mandamentos da Igreja Católica, por meio de ofertas voluntárias e uma prática chamada dízimo. Mas, para muitas pessoas, o dízimo foi reduzido a uma espécie de taxa ou imposto. Porém, a Paróquia São Francisco de Assis, na periferia de Rio Claro, interior de São Paulo, busca recuperar esse costume como um sentido primitivo da partilha e da experiência de fé.

Com o pároco, padre Edmundo de Lima Calvo, o povo vive uma nova proposta da organização da paróquia, que hoje tem 22 mil habitantes e vive inteiramente do que é arrecadado nas ofertas das missas e no dízimo.

“Eu era padre novo e estava em uma quermesse paroquial, quando uma criança me abordou e pediu o ‘resto’ do meu refrigerante e do meu pastel e depois pediu a lata do refrigerante para vender. Então um paroquiano lhe disse que a lata seria vendida para ajudar a igreja. Aquilo me incomodou muito e a partir daí eu procurei entender mais o que era dízimo”, conta o padre, que se especializou em Teologia Bíblica e Língua Hebraica, em busca da fonte desta prática na Sagrada Escritura.

Fundada há 15 anos, a paróquia há nove anos se tornou uma rede de comunidades dividida em cinco setores subdivididos em distritos, e em cada distrito há várias células de evangelização, grupos bíblicos que se reúnem nas casas semanalmente para momentos de oração, estudos e partilhas. Tal experiência vem ao encontro do que os bispos latino-americanos propuseram na Conferência de Aparecida (SP), em 2007, e que foi tema da última Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em abril.

Em torno da Bíblia – “Todos usam a Bíblia, e a paróquia oferece uma formação bíblica para as pessoas. Aqui ninguém é chamado agente de pastoral, todos são missionários. Trabalhamos o dízimo nesse contexto bíblico-missionário”, completa padre Edmundo, que já escreveu cinco livros sobre o tema, um deles chamado Dízimo – Bênção de Deus, de Paulinas Editora.

A principal referência bíblica do dízimo está no capítulo 28, versículo 20 do livro do Gênesis. “Jacó, então, fez este voto: ‘Se Deus estiver comigo e me proteger no caminho por onde eu for, se me der pão para comer e roupas para vestir, se eu voltar são e salvo para a casa do meu pai, então o Senhor será o meu Deus. (...) Eu te darei a décima parte de tudo o que me deres’.”

Padre Edmundo explica que o dízimo não está baseado em porcentagem. A palavra dízimo não é um numeral, mas um substantivo. No original hebraico da Bíblia, dízimo significa a décima parte de tudo o que a pessoa tem. “O dízimo é uma experiência individual que a pessoa faz com Deus, uma experiência livre, que não pode ser imposta”, alerta.

Tudo em comum – Toda a rede de comunidades da paróquia possui um caixa comum. “Até nossas festas e eventos são partilhados. Cada um traz o seu prato de doce ou salgado. Um ajuda o outro”, ressalta o padre. Até a metodologia de atendimento do dizimista tem perspectiva missionária. “Aqui nós não temos o chamado ‘plantão do dízimo’, nós temos acolhimento dos dizimistas. Plantão nós temos em delegacia ou posto de saúde. Igreja é lugar de acolhida”, destaca o padre.

A conscientização das pessoas a respeito do dízimo é feita a partir da experiência de fé. “Partimos da Sagrada Escritura e do testemunho dos dizimistas, indo ao encontro das pessoas em suas casas”, explica o pároco, ressaltando que dízimo não é dinheiro, mas fé. “Sem fé ninguém pode ser dizimista”, diz o padre.

A paróquia conta hoje com 290 dizimistas e uma média de 64 reais por pessoa, mesmo estando localizada em uma realidade humilde. “Somos uma paróquia de periferia, habitada predominantemente por marceneiros, agricultores, pedreiros, faxineiros, garis, lavadeiras, domésticas”, conta padre Edmundo.

O que é arrecadado no dízimo é aplicado para investir na evangelização, como a realização de retiros espirituais e formação para os missionários, construção da igreja, manutenção da secretaria e da casa paroquial, pagamento das contas de água, luz e telefone, entre outras despesas. O dinheiro é administrado por um conselho formado pelo padre e por leigos. “Quem conta o dinheiro são os próprios missionários, e eles mesmos depositam no banco. A única coisa que faço é assinar os cheques da paróquia”, afirma o padre.

Partilha em casa – Amadeu Gomes Filho, 39 anos, é apicultor e agricultor e coordena a Pastoral do Dízimo na paróquia. Ele começou a missão na comunidade quando ele e sua esposa, a dona de casa Ana Maria Gonçalves Gomes, 34 anos, foram convidados pelo padre Edmundo para serem ministros extraordinários da eucaristia, e começaram a frequentar a Igreja. “Certa vez, participávamos de um retiro espiritual no qual foi citada uma leitura bíblica. A leitura falava sobre o dízimo, e isso me fez refletir. Como eu estava atuando na igreja, eu achava necessário ser dizimista”, conta Amadeu.

A experiência como dizimista motivou Amadeu a viver mais a partilha dentro de sua própria casa. Todos os meses, ele e sua esposa sentam e fazem as contas do que receberam. Quando ele separou pela primeira vez o seu dízimo, Ana Maria perguntou do que se tratava, ele explicou. “Ela apenas ouviu e ficou quieta. Até que um dia ela me disse: ‘Se eu trabalhasse fora eu também teria meu dinheirinho e poderia devolver meu dízimo’. Fiquei pensativo. Até que noutro dia eu propus de partilhar meu salário com ela, algo que nunca havia pensado. Não que eu discorde com o fato de ela trabalhar em casa. Porém ela já tem os afazeres dela em casa e o cuidado de nossos dois filhos e não precisaria trabalhar fora, pois o dinheiro é nosso”, relata Amadeu.

Amadeu garante que a experiência do dízimo o ajuda a organizar a economia da casa. “Quando eu recebo, já separo o dízimo e a partir daí eu organizo minhas despesas. O dízimo não é sobra.” Ele também diz que fica muito feliz ao ver a comunidade se desenvolver com a sua participação. “Saber que o que fazemos na comunidade, não só materialmente, mas também espiritualmente, sobretudo com os mais necessitados, é uma graça maravilhosa.”

O padre Edmundo de Lima Calvo ministra cursos e palestras sobre o dízimo em todo o Brasil. Ele atende pelo e-mail pe.edmundo@ig.com.br.




Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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