Filhos adultos, novo cenário

Data de publicação: 03/09/2013

                                                                                                   
Cleusa Thewes *       
                        
“Tomar a decisão de ter filhos é importante – é decidir para sempre ter seu coração andando por aí, fora do seu corpo”, diz a frase da escritora Elizabeth Stone. Comparemos a família a uma peça teatral.  Atos e ciclos compõem o cenário familiar: namorados, casal sem filhos, com filhos pequenos, em idade escolar, adolescentes, adultos e, finalmente, o ninho vazio. Cenas desiguais entrelaçam o processo sequencial de aprendizado.  Os fatos não são isolados.  A infância já é passada, mas a criança ainda é presente. Cada adulto, diz o ditado, carrega sua própria história. Amadurecer é integrar e abrigar todos os sentimentos vividos. A experiência de ontem acolhe ou desacolhe o agora. No cenário familiar, pais e filhos protagonizam, a cada novo dia, novos atos, ambos desempenhando e adequando papéis  ao ciclo vigente.  A mudança de ciclo requer flexibilidade e deslocamento de antigos para novos papéis.

Filhos em idade escolar
No cenário familiar, assistimos a dois atos: pais com filhos em idade escolar, 6 a 11 anos e filhos adultos. No primeiro ato, crianças curiosas, desorganizadas, pouco responsáveis, brincam.   Na sala, tênis e mochila jogados em um canto, videogame ligado. No quarto mora o senhor bagunça. Pela casa, xícaras e copos espalhados. No banheiro,  toalha molhada jogada no chão. Pais em cena: brigas viram pano de fundo:
− Filho, vá tomar banho.  Desliga a TV.
− Filha, e o tema?
− Menino, tira já esse uniforme sujo. Estou avisando... Mais um minuto e tiro o PC do ar.
− Vá dormir! Como? Está na cama sem escovar os dentes?
− Chega! Amanhã não tem videogame.  
– Pô, mãe, sem essa!
Pais exaustos no papel principal: coordenam, delimitam lazer e dever. Determinam, combinam, cobram. Têm pulso firme e normatizam, mas também amam e treinam filhos para o amadurecimento. Filhos atuam no papel secundário, conforme a idade.

Filhos crescidos
As crianças crescem, mas a missão parental, pais, permanece. Segundo  Ketty Peel, para os pais não existe end zone, ou seja, linha de fundo.
No cenário com filhos mais velhos, 18, 21 ou 40 anos, os pais abdicam do papel principal. O estilo de educar muda, de coordenadores de atitudes.
− Menino, coma salada!
− Menina, arruma a cama!
Ou seja, os pais propõem, assessoram.
− Não quer vestir uma roupa mais discreta para a entrevista, filha?
Os pais dão passos lentos, movem-se entre dois extremos: a superproteção e a independência. Tomam cuidados para não sufocar a prole crescida. Então aconselham, já não mais impõem. Sabiamente aguardam a oportunidade de dialogar. Filhos grandes são reservados. Ora impõem limites aos pais. Ora protestam as invasões. Aos trancos e barrancos os pais devolvem aos filhos adultos a coordenação de suas vidas. É tarefa fácil?  Sim e não... Depende do estágio de amadurecimento dos envolvidos.

Histórias de filhos crescidos
Letícia, 28 anos, mora com os pais. Em casa escolhe ficar no quarto. Descansa, lê, tecla com amigos e namorado. Queixa-se da mãe porque ela invade o seu quarto sem bater na porta.
− Minha mãe é bisbilhoteira e invasiva.  Tentei dialogar, ela continuou igual.  Hoje passo a chave na porta.  Agora, ela bate.  Recuperei a privacidade!

Maurício, 29 anos, está noivo. Relata que a mãe, de 65 anos, vasculha seu guarda-roupa, mexe em documentos, na gaveta. Conversou, mas não adiantou. Hoje guarda seus pertences pessoais na casa da noiva. Mas a mãe continua vasculhando seu quarto.

Isadora, 46, e Léo, 47 anos, são pais de Liliana, 22, e Letícia, 19 anos. Os pais, entristecidos, dizem: 
− Deixamos de ser uma família. As filhas se fecharam, não contam mais nada, nem das brigas. Parece que não se amam como irmãs.
Os pais, chateados, expõem seu sofrimento para as meninas.
Liliana explica:
− Mãe, eu estou muito bem. Não senti necessidade de falar sobre a briga que tive com meu namorado. Resolvi. Não sou mais a guriazinha que contava tudo. Se precisar, peço ajuda a você.
Letícia diz:
− Pai, eu e a mana estamos muito próximas. As nossas brigas, administramos. Fica tranquilo.
Liliana dá o recado: 
− Mãe e pai, cuidem de vocês, viagem, namorem. Relaxem! A mana e eu crescemos.

Recado aos pais
Pais, saiam da coordenação e desçam do palco.  Ocupem uma cadeira na plateia. Os filhos precisam de torcida. Sejam seus fãs. Na necessidade de novo ato, entrem em cena como amigos confiáveis, incentivadores de conquistas e oportunidades. Tenham fé em vocês, filhos amadurecem no vai e vem.  E, principalmente, confiem nos filhos que criaram. Amém!

*Terapeuta familiar e especialista em orientação familiar.




Fonte: Família Cristã 916 - Abr/2012
Postado por: Família Cristã




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