Várias famílias em uma

Data de publicação: 24/09/2013

Fúlvio Giannella Júnior       
         

São diversos – mas superáveis – os desafios enfrentados por casais que estruturam um novo lar a partir dos filhos trazidos de um casamento desfeito.

Bráulio Rocha Gonçalves e Simone Mavignier Madeira foram namorados na adolescência. Os caminhos, no entanto, se separaram, cruzando-se novamente 35 anos depois, quando ambos já estavam com os casamentos desfeitos, após 25 anos de união conjugal. Ele trazia do primeiro matrimônio três filhas. Ela, duas filhas e um filho. Todos adolescentes e pré-adolescentes. Certos do sentimento que os ligava, Bráulio e Simone resolveram que era hora de tentar constituir novamente uma família, evitando ao máximo cair nos erros do passado. Sabiam, porém, que precisariam superar diversos obstáculos. “Como toda vida em comum, o casal enfrenta dificuldades, e, no caso de uma segunda união, há outros fatores que interferem na relação” – afirma Bráulio.

O primeiro deles é a convivência com os antigos cônjuges, que, no caso de terem filhos em comum, influem diretamente na educação das crianças, mesmo não estando mais diariamente com elas. Além disso, há avós, tios e outros parentes próximos que mantêm vínculos afetivos com os filhos daquela união conjugal desfeita. “É preciso bom senso. Não dá para estabelecer artificialmente como se dará essa dinâmica e quais os limites dessa relação” – observa Bráulio, ressaltando, porém, que o casal não deve esquecer que existem uma mãe e um pai biológicos que não podem ser alijados do convívio familiar.

Saber lidar com eventuais mágoas e ciúmes que muitas vezes estão presentes, tanto por parte das crianças e dos adolescentes quanto dos ex-cônjuges, é um desafio a ser vencido com muito tato, compreensão e diálogo. “Dos seis filhos, dois demonstraram maior resistência à nova união, mas conseguimos superar isso porque nosso vínculo como casal era muito forte e estávamos certos da decisão que havíamos tomado” – afirma Simone, há 17 anos vivendo com Bráulio. “Estávamos mais maduros para esta segunda união e hoje formamos uma família muito unida” – garante ela, que se casou aos 21 anos, após um mês de namoro e cinco meses de noivado.

Tolerância e jogo de cintura – No entanto, são comuns os casos de filhos que, não se conformando com a situação, passam a questionar a presença e a autoridade do novo cônjuge materno ou paterno, o que pode provocar conflitos e abalar a harmonia familiar. Serafim Nóbrega Abreu, 40 anos, e Judith Sabatel de Souza Abreu, 55 anos, por exemplo, passaram por períodos turbulentos no início da vida conjugal. Ele era solteiro, mas Judith trazia de seu primeiro casamento, que durara 14 anos, um menino, Rafael, de 6 anos, e uma menina, Ana Paula, então com 11 anos. Além das reclamações do pai das crianças, que a acusava de estar afastando os filhos dele, Judith teve de contornar a resistência da filha, que demorou a aceitar a nova união. “Ela retrucava qualquer conselho que o Serafim procurava lhe dar, dizendo que ele não tinha o direito de exigir nada dela porque não era o pai” – conta Judith.

Serafim sabia que esse tipo de reação seria normal, por isso procurou conduzir a convivência de um modo que, a médio e longo prazo, a nova família pudesse estabelecer um relacionamento harmonioso. “Às vezes, não dava muito certo, mas eu procurava sempre conversar com a Judith para que ela fizesse, nesse início, o meio campo com as crianças. E elas faziam o mesmo quando queriam se queixar de alguma coisa com a qual não concordavam” – afirma Serafim. Judith confessa, porém, que ficava dividida. “Tinha que tomar cuidado para não causar constrangimento nem aos meus filhos nem ao meu marido. Foi preciso muita tolerância e jogo de cintura para costurar essas relações no dia a dia” – garante.

Com o empenho do casal, as incompreensões foram sendo superadas. As crianças aproximaram-se da Igreja, onde Serafim e Judith participavam da equipe responsável pelo Encontro com o Bom Pastor – movimento voltado para casais em segunda união – e perceberam que os cuidados do companheiro da mãe eram os mesmos de um pai. Com isso os desentendimentos ficaram no passado. Tanto que Ana Paula, hoje com 29 anos e de casamento marcado para julho, será conduzida ao altar por Serafim.

De braços abertos – É comum na caminhada de todo casal em segunda união existir certo sentimento de culpa ou uma sensação de fracasso por um casamento desfeito (veja boxe na pág. ...). “Nesse sentido, os cuidados para que aquela nova experiência conjugal que se inicia seja permanente são redobrados” – reconhece Bráulio. E esse objetivo fica facilitado quando os familiares e a própria comunidade a que pertencem os novos cônjuges compreendem aquela realidade. Portanto, para casais em segunda união que dão importância à vivência cristã, o bom acolhimento da Igreja é fundamental. Nem sempre, porém, isso acontece, o que provoca muitas vezes mágoa e o afastamento da comunidade cristã.

“Muitos católicos que vivem uma segunda união conjugal se sentem discriminados por algumas paróquias nas quais tanto os leigos quanto os párocos ignoram o fato de que eles, mesmo com algumas restrições, podem participar da vida comunitária” – observa Bráulio, que, apesar da formação católica, estava afastado da Igreja desde seu casamento. Foi só depois da separação e do reencontro com Simone, que tinha uma forte ligação religiosa, que ele se reaproximou da vivência cristã. “No começo era aquela coisa formal de ir apenas às missas dominicais, mas depois sentimos a necessidade de participar mais” – garante Simone.

A oportunidade veio quando ela viu na Igreja uma faixa convidando os paroquianos para o curso de Crisma. Simone, que era apenas batizada, resolveu, então, se crismar. Antes de se matricular no curso, porém, foi conversar com o padre para lhe contar sobre sua situação. “Ele me disse que nos avisaria sobre a Crisma, mas não entrou em contato. No ano seguinte, o curso foi aberto novamente e resolvi me matricular” – conta. Quando o padre a viu, veio ao seu encontro com os braços abertos, num gesto de acolhida, pedindo inclusive que Bráulio a acompanhasse no curso. “Eu me senti fortalecida e, uma semana depois de crismada, tomei conhecimento do Encontro com o Bom Pastor, feito para casais em segunda união. Participamos dele e, a partir daí, nos engajamos em diversas atividades sociais da paróquia” – garante Simone.

Maior orientação – Para Bráulio, se não houvesse por parte do religioso aquela postura acolhedora, é possível que eles se afastassem da Igreja. Hoje, porém, além dos trabalhos pastorais, eles ainda participam da coordenação do Encontro com o Bom Pastor, que na Região Sé da Arquidiocese de São Paulo (SP) já está chegando à sua 20a edição. “Nossa maior dificuldade, porém, é nos aproximar de pessoas que foram discriminadas em suas paróquias. Por isso, é importante que a Igreja Católica, como instituição, dê uma orientação clara a leigos e religiosos sobre quais são os limites da participação de casais em segunda união na vida religiosa” – afirma Bráulio.

A mesma preocupação é compartilhada por Serafim, que, em 2009, pôde se casar na Igreja com Judith, que ficara viúva. “Nos encontros de casais em segunda união, nós nos deparamos com pessoas rejeitadas em suas paróquias, mas que tiveram disposição de procurar outras comunidades onde foram bem acolhidas. Fico me perguntando quantos outros desistiram, sem buscar uma nova chance” – questiona Serafim. Para padre Victor Santana Milagres Fernandes, pároco há 12 anos da Paróquia Santíssima Trindade, no bairro paulistano da Casa Verde, e organizador de diversos encontros com casais em segunda união, é importante que a Igreja se mostre disposta a abraçar as novas famílias formadas a partir de casamentos desfeitos. “Uma vez batizadas, essas pessoas, mesmo com restrição a alguns sacramentos, fazem parte do corpo místico de Cristo e, sendo filhas e filhos de Deus, não podem ser excluídas de forma alguma do seio da Igreja” – assegura.



Riscos a serem evitados

Os últimos censos demográficos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam modificações nas estruturas familiares contemporâneas, com o crescimento de lares monogâmicos chefiados por apenas um adulto e de famílias em segunda união, na qual podem conviver filhos comuns do casal com aqueles trazidos de outras uniões desfeitas. Em palestra que tratou sobre o assunto, no Colégio Oswald de Andrade, em São Paulo (SP), e no artigo “Em defesa da família tentacular”, a psicanalista Maria Rita Kehl observou que, ao longo do tempo, as famílias extensas, que abrigavam sob o mesmo teto vários casais com filhos submetidos à autoridade de um patriarca, deram lugar a um núcleo familiar mais restrito, composto apenas por pai, mãe e seus filhos.

Essa configuração de família fechada sobre si mesma, que começou a ser formada no final do século 19 e predominou durante boa parte do século passado, sofre hoje alterações significativas. “As separações e as novas uniões efetuadas ao longo da vida foram formando, aos poucos, um novo tipo de família que vou chamar de ‘família tentacular’, diferente da família extensa pré-moderna e da família nuclear que aos poucos vai perdendo a hegemonia” – afirma Maria Rita. Com isso, segundo a psicanalista, o núcleo central da família tradicional foi implodido pelo contato íntimo com adultos, adolescentes e crianças vindos de outras famílias, em um novo arranjo no qual se acumulam vínculos profundos com pessoas que não fazem parte do núcleo original de suas vidas.

Justamente por essa convivência extensa e pela necessidade de o casal conseguir organizar, a partir de uma experiência conjugal infeliz, uma base de sustentação sólida, as “famílias tentaculares” tendem a ser menos fechadas e mais arejadas que o modelo familiar predominante na sociedade. “Nelas há uma busca maior de diálogo e a palavra normalmente circula com mais facilidade entre seus membros” – observa à psicanalista. Isso não significa, porém, que essa nova configuração não apresente problemas que podem resultar em situações delicadas para a boa formação dos filhos.

Um primeiro sentimento a ser contornado é a sensação de culpa dos adultos, que se questionam pelo fato de não terem conseguido manter seus casamentos e, com isso, oferecerem aos filhos um novo modelo familiar que, em comparação com a estrutura tradicional de família, pode parecer precário. No entanto, essa visão de que núcleos familiares diferentes do padrão predominante tendem a ser desestruturados não corresponde à verdade. “Por definição, uma família desestruturada é aquela em que a geração responsável por educar a nova geração e transmitir a ela valores éticos não cumpre esse papel. Essa omissão, porém, pode ocorrer em qualquer configuração familiar na qual não haja adultos, sejam estes pais, avós ou tios, que assumam essa tarefa” – pondera Maria Rita Kehl.

Outro risco a ser evitado por famílias de segunda união é o de não deixar bem claro para as crianças que existe ali pelo menos um adulto que vai assumir a educação e a proteção delas até as últimas consequências. “Muitos casais que colocam sua felicidade, seja ela amorosa ou sexual, no mesmo patamar do cuidado com os filhos podem se tornar lenientes no exercício de sua autoridade e não tomar para si a missão de dar limites às crianças e aos adolescentes” – constata a psicanalista. Para ela, o abandono sofrido pelas crianças mimadas de hoje, qualquer que seja a composição familiar a que pertençam, é o abandono moral. “Todos os papéis dos agentes familiares são substituíveis. O que é insubstituível é um olhar de adulto sobre a criança, a um só tempo amoroso e responsável” – conclui.




Fonte: Família Cristã 905 - Mai/2011
Postado por: Família Cristã




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