O incômodo divórcio

Data de publicação: 24/09/2013

Padre Zezinho, scj*


Aconteceu mais de dez vezes. Por isso penso ser hora de me pronunciar. Escrevi em l974 uma canção chamada “Utopia”. Correu mundo e já foi cantada em mais de 40 países. Quase não há recanto do País onde não se cante. Nela, há uma frase final: “Se os pais amassem, o divórcio não viria!”. A palavra difícil é “divórcio”. Há quem a modifique. Parece palavra dura demais para alguns cantores, cantoras e editores!

A maioria dos cantores a canta, mas sei de uns 30 que se negam a cantá-la nos shows ou gravações. Mudam minha letra para “tudo isso não viria”, ou para “tanta crise não viria” ou ainda, para “a distância não viria”. Não sei os motivos, mas um deles me explicou que mudara a palavra porque não gostaria de conflitar com os divorciados na gravadora onde trabalhava. Eles não a divulgariam, porque quatro deles eram divorciados...

Reagi dizendo que então ele deveria compor a dele e não modificar a minha! Não componho canções, nem para vender milhões de CDs, nem para agradar a todos os ouvidos, da mesma forma que os Evangelhos não foram escritos apenas para agradar. Os autores dos Evangelhos assumem a controvérsia. Deixam claro que Jesus propôs, em palavras claríssimas, que, com Ele, a lei seria bem mais exigente (cf. Mt 19,3-12). A doutrina é dura. Cantar o que Jesus disse parece-me dever do cantor cristão.

Se alguém quiser mensagem mais amena deve compor sua própria melodia e canção. No meu caso, mesmo tendo grandes amigos e até familiares que se divorciaram, sei que há outras formas de ser carinhoso e gentil com eles, sem modificar a doutrina da Igreja. Ser amigo não é concordar em tudo! Meus amigos sabem disso! Eles também não concordam em tudo comigo, por que haveria eu de concordar com eles em tudo?

Direito meu – O texto foi escrito para dizer que, se o casal se amasse ao ponto do sacrifício, lutaria mais pelo seu casamento e, se ambos amassem a este ponto, fariam de tudo para não se divorciar. Acontecer acontece, mas nossa sociedade tornou-se condescendente por demais na questão do “estar bem!”. Em alguns países alguém pode se divorciar em questão de dias ou de horas! 

Que a canção faz pensar, não restam dúvidas! Sei disso pelas cartas e e-mails que recebo. Alguns textos são para ofender. A maioria, porém, é para agradecer pela canção que os levou a repensar seu casamento. Jesus poderia ter abrandado a questão do divórcio. E Ele amava como ninguém jamais amou! Se Ele, amoroso como era, não abrandou, não serei eu a abrandá-la. Continuarei cantando que “se os pais amassem, o divórcio não viria”.  Quem quiser cantar minha canção está proibido de mudar a letra! Em dois casos, os cantores retiraram a canção de seu álbum. Direito deles, direito meu! Comunicar nem sempre rima com amenizar. Mudar o texto não muda o contexto!

*Escritor, compositor e cantor.




Fonte: Família Cristã 906 - Jun/2011
Postado por: Família Cristã




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