Uma vida sem drogas

Data de publicação: 21/10/2013


Eduardo Carlos


Há alguns anos, a estudante Caroline Limeira Lima, então com 11 anos, perguntou ao seu pai, o empresário e marceneiro Reginaldo Lima, quando este foi buscá-la na escola, por que alguns adolescentes, em grupos, se encontravam após as aulas para fumar. “O senhor não diz que cigarro é só pra gente mais velha e, mesmo assim, faz mal? Esse pessoal aí tem no máximo 15 anos!” – observou a menina. Sem hesitar, o pai aproveitou a deixa para reforçar sua posição. “Olha, filha, eu disse isso e mantenho. Como qualquer droga, o cigarro vicia, faz mal e, cedo ou tarde, até mata. Como não desejo isso a você, continuo a aconselhar que fique longe das drogas” – respondeu Reginaldo. A pedagogia paterna tem  funcionado. Hoje, aos 16 anos, Caroline não só seguiu os conselhos do pai e da mãe, a funcionária pública Valcineide Nascimento Lima, como ainda se preocupa em ajudar na educação de sua irmã, Tatiane Limeira Lima, de 11 anos. “Eles nos orientam de forma que nos sentimos protegidas, mesmo estando longe. A gente pensa duas vezes antes de fazer algo que ponha em risco nossa saúde” – afirma Caroline.

A estratégia da família Lima é a de viver em paz em um mundo que nem sempre coopera. Eles moram em uma cidade da região metropolitana de São Paulo, em um bairro onde não havia, como hoje, a circulação de drogas. “Alguns moradores da vizinhança consomem drogas, talvez até as trafiquem. Nossa conduta é a de nos mantermos prudentes e alertas. Não nos aproximamos deles para seus hábitos não influenciarem nossa casa, mas também não procuramos inimizades porque, afinal, não sabemos o que eles podem fazer.É claro que redobramos os cuidados com as meninas. São orientadas a nunca aceitarem nada deles. Esse é o mundo que temos e precisamos viver nele da melhor forma possível” – define Reginaldo. Ainda que pai e mãe trabalhem, a vigilância sobre as meninas é constante. “O celular delas fica sempre ligado e, quando Caroline precisa fazer algum trabalho de escola na casa de uma amiga, telefono para os pais dessa amiga para saber se algum adulto estará por perto” – completa a mãe.

Blindagem – Exagero de mãe? Não, Valcineide e Reginaldo têm, intuitivamente, ido bem na difícil missão de educar as filhas em um mundo cheio de perigos. “Em tempos de globalização, não adianta cuidar só do próprio filho e descuidar de sua turma. Todos os pais devem se relacionar formando uma rede de proteção” – orienta o psiquiatra Içami Tiba, membro da Associação Parceria contra Drogas e autor de clássicos de leitura para pais e educadores, como Quem ama, educa!, 123 respostas sobre drogas e Juventude & drogas: anjos caídos, entre outros. O especialista não acredita em grandes medidas para acabar com a circulação das drogas e aposta na competência de cada cidadão para lutar contra esse flagelo. Para ele, isso custa menos e dá melhor resultado.

Como “competência”, podemos entender “autoestima” ou simplesmente “amor”. Assim, a blindagem contra as drogas existente na família Lima é facilmente interpretada pelo dr. Içami Tiba. “Os seres humanos tornam-se mais fortes e protegidos quando sentem que realmente pertencem a um grupo. E o primeiro grupo da nossa vida é a família. Quando um jovem não se sente pertencente à família, sua autoestima cai a níveis insuportáveis a ponto de ele procurar quem o adote, que pode ser um traficante. Já quando ele se sente parte de uma família, suporta contrariedades porque carrega a segurança de que sua família o ama” – explica o especialista.

Exemplos – É preciso tomar atitudes concretas como essas se as famílias não quiserem continuar perdendo seus membros para as drogas, que são muitas. Entre as ilícitas – comercialização ilegal – estão maconha, anfetaminas (como o ecstasy), cocaína, heroína, LSD, crack e o oxy. Já entre as drogas lícitas – consumidas legalmente – estão cigarro e álcool. Lícitas, porém, também nocivas. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), as drogas ilícitas respondem por 0,8% dos problemas de saúde no mundo, enquanto o cigarro e o álcool são responsáveis por 8,1%. No Brasil, o número de fumantes caiu de 33% da população em 1989 para 17% em 2010. Ainda assim, o Ministério da Saúde calcula que o fumo mata 200 mil pessoas por ano. Quanto ao álcool, duas das principais causas de morte (doenças cardiovasculares e o câncer) estão relacionadas a ele, que ainda responde por 50% (8,5 mil vítimas anuais) das mortes ocorridas no trânsito. A porcentagem de dependentes, no País, está em 11,2% da população, sendo que a maioria tem de 18 a 24 anos.

“Os pais não podem achar esses números normais” – afirma a teóloga Dalva Carvalho, uma das coordenadoras da Pastoral da Sobriedade da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). “A primeira prevenção contra as drogas é dar aos filhos um verdadeiro testemunho pessoal. Não adianta aconselhar a não fumar se um dos pais fuma. Assim como amor, crianças e jovens precisam de exemplos” – afirma. “Como esponjas, as crianças absorvem tudo e imitam nossos acertos e erros” – adverte o médico Ignácio Costa, especializado em dependência química e também membro da Pastoral da Sobriedade. Entre pais e filhos, ele aconselha uma abordagem sem meias verdades. “Não vale dizer que a droga é ruim,porque o mundo está dizendo que a droga é gostosa. Fale a verdade: a droga pode ser gostosa, mas é venenosa e mata. Para resistir à tentação, o filho precisa fazer parte de uma família estruturada, funcional e se sentir amado. Um jovem com essa base dificilmente se perde” – reforça dr. Ignácio.

Viradas – A recomendação serve para deixar menos intranquilos os pais cujos filhos estão na fase das baladas que, diga-se, existem desde sempre, só que com outras denominações: festas, bailes, shows, discotecas, vida noturna, night, boemia etc. “Nelas, as drogas já existiam. O que devemos fazer não é combater esses eventos e situações, pois é grande o risco de ficarmos falando sozinhos. Uma proposta é partir para o enfrentamento direto e implantar postos avançados de esclarecimento nos espaços onde ocorrem, hoje, as baladas” – sugere dr. Ignácio Costa.

Ainda que não da maneira tão incisiva como desejem os pais e especialistas no assunto, esse enfrentamento acontece naquela que pode ser considerada uma das maiores baladas do mundo, a Virada Cultural de São Paulo (SP), que acontece desde 2005 e reuniu um público de 4 milhões de pessoas – a maioria jovens – em sua sétima edição ocorrida em abril de 2011. Durante o evento, fiscais da prefeitura e a Guarda Civil Metropolitana apreenderam 28 toneladas de uma beberagem denominada vinho químico, uma mistura de groselha com álcool utilizado em limpeza e que pode chegar a 96 graus de teor alcoólico – a cerveja possui cerca de 4,5 graus. A embalagem de 500 mililitros do produto seria vendida a 2 reais. Uma análise feita pelo Instituto Adolfo Lutz confirmou o alto poder de destruição da droga que, apreendida a tempo, evitou transtornos e, certamente, consequências piores. “Temos uma preocupação que permeia a questão da segurança, no entanto as pessoas são livres para consumir as bebidas legalizadas” – informa Giovana Longo, assessora da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Não é o caso de condenar uma boa iniciativa ainda que nela possam ocorrer problemas pontuais. A Virada Cultural de São Paulo ofereceu, em 2011, 952 eventos (shows, peças de teatro etc.), mobilizando mais de mil artistas. Tudo gratuitamente. A Virada foi inspirada na Nuit Blanche (Noite Branca) promovida pela prefeitura de Paris (França) desde 2002 e que mobiliza durante um dia e uma noite galerias de arte, monumentos turísticos – que permanecem iluminados –, teatros e casas de espetáculos. A iniciativa francesa gerou imitações não só no Brasil, desde 2011 também acontece o Viradão Carioca, no Rio de Janeiro (RJ), mas também em Madri (Espanha), Miami (Estados Unidos), Tóquio (Japão), Montreal (Canadá) e Bucareste (Romênia), apontando o quanto está globalizado o fenômeno das grandes baladas.

Heliópolis – É forçoso reconhecer que diversão na vida noturna não é necessariamente sinônimo de coisa ruim, como o consumo de drogas. Até pode significar o contrário. E um exemplo disso vem da Comunidade de Heliópolis – ex-favela que foi urbanizada – , localizada na região sudeste de São Paulo, que com 190 mil habitantes é a segunda maior do País – superada apenas pela Rocinha, no Rio de Janeiro. Ali, um grupo de adolescentes denominado Jovens Alconscientes, ligado à rádio comunitária da Comunidade (Heliópolis FM 87,6 MHz) e à associação de moradores locais, a Unas (União de Núcleos, Associações e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco), realiza há seis anos a Balada Black. Durante um sábado por mês, a quadra poliesportiva da Unas é tomada por cerca de 600 adolescentes, que se divertem ao som de black music, funks e música eletrônica. Não há fumaça de cigarro e muito menos bebidas alcoólicas. Só refrigerante. “Nossa proposta é oferecer uma balada educativa. Provar para os nossos jovens que é possível se divertir sem cigarro, álcool ou qualquer outra droga” – explica o DJ Reginaldo José Gonçalves, de 32 anos, um dos mentores da Balada Black.

A balada começa às oito horas da noite e termina por volta da uma hora da manhã, mas alguns adolescentes só vão embora após limparem a quadra. Na verdade, eles são responsáveis por todos os serviços, que vão da escolha do repertório à segurança. Gabriela Gonçalves de Souza, de 15 anos, que trabalha como locutora da Heliópolis FM e está no 1o ano do Segundo Grau, comanda as pickups quando o som é funk. “Procuramos tocar o funk mais light, sem palavrões ou linguagem de duplo sentido” – diz a menina, que também ajuda na observação da plateia. “No começo dava mais trabalho, alguns queriam entrar com latinha de cerveja. Agora, não. O que rola mesmo é conhecimento, amizade, diversão e namoro” – descreve.

Consciência – Como resultado, a Balada Black da Comunidade de Heliópolis – cuja entrada é gratuita – atrai jovens de outros bairros de São Paulo e de cidades vizinhas, como São Caetano do Sul (SP). “Se comparar com algumas outras, fico com essa daqui, onde há uma atitude mais saudável. Em outros lugares, você percebe que a bebida alcoólica torna as pessoas mais agressivas” – avalia  Leandro Costa, de 16 anos, estudante do 2º ano do 2º Grau e que atua como  voluntário no grupo Jovens Alconscientes.

A missão do grupo foi posta à prova logo depois que a Balada Black surgiu, em 2006. Um garoto acendeu um baseado (cigarro de maconha) no meio da quadra e o DJ Reginaldo logo assumiu o microfone para pedir que ele o apagasse. Como isso não aconteceu, a festa parou ali. Ao contrário do que Reginaldo e sua equipe  imaginavam, não houve confusão e os jovens foram saindo aos poucos. Dias depois, o rapaz do baseado voltou para pedir desculpas, prometeu que aquilo nunca mais aconteceria. Mais jovens apareceram para pedir que as baladas não fossem interrompidas. “Ali começamos a ver todo o sentido do nosso trabalho: provar para a juventude que a diversão não é uma droga” – afirma o DJ Reginaldo.

Trocando a noite pelo dia

Em uma noite de quinta-feira, em um posto de gasolina da Vila Madalena, um dos principais pontos da vida noturna de São Paulo (SP), o estudante de publicidade Daniel Dias, de 21 anos, o profissional da área de eventos Bruno Franze, 26 anos, e o comerciante Alexandre Teruya, 31 anos, tomam cerveja enquanto decidem que rumo tomar na noite. “Um lugar bom é o que tem gente bonita, mulher, claro... Além de agitação e conforto” – diz Bruno. “O ambiente precisa ser legal, sem confusão. Se você vai no funk, o ambiente é pesado. Se for uma casa de rock, tem muito doidão. Por isso a música é fundamental” – emenda Daniel. “Damos preferência ao samba ou à música eletrônica” – resume Alexandre. Para os três, quando todos os pontos positivos se encontram, a soma resulta em uma noite sem hora para terminar.

“Mas nem sempre é assim. Apesar de ser dono do meu próprio negócio e não ter horário, tenho minhas responsabilidades. Não posso chegar muito tarde” – diz Alexandre. Já Daniel lembra-se da mãe, a professora Ana Dias, com quem mora – seu pai é falecido. “Como toda mãe, quando eu comecei a ir para a balada, ela ficava preocupada e me esperava acordada. Com o tempo, se acostumou, pegou mais confiança em mim. Mas mãe é mãe e quem tem precisa cuidar, ser responsável e dar atenção. Meu celular fica sempre ligado e ela me encontra onde for. Ela também conhece meus amigos e sabe que é tudo gente boa” – aponta o estudante.

Segundo os rapazes, os melhores dias para ir à balada não são sexta, sábado. “Durante os finais de semana o público é mais descompromissado, tem gente de tudo quanto é tipo, não é legal... Já durante a semana tem por aí uma galera mais certa, que sabe curtir e tem seus compromissos no dia seguinte” – lembra Daniel. “Durante a semana, a balada é mais tranquila. Nos finais de semana, reponho o sonho perdido” – concorda Alexandre. “Os finais de semana, geralmente, fico mais em casa, sossegado” – admite Bruno.

E quanto às tentações da noite? “Toda droga é muito louca. Dispara o coração, dá azia etc. Mas cada um sabe o que faz” – afirma Alexandre. “O ideal é curtir sem nos prejudicar e prejudicar ninguém. Ficar quieto no seu canto e não arrumar encrenca. Cada um sabe o que faz” – conclui Daniel. Para eles, as baladas deverão durar muito tempo ainda. “Não quero marcar uma idade-limite. Vou levando…” – diz André. “Vou pra balada até achar uma mina (companheira)  legal que fique do meu lado e me deixe tranquilo” – diz Alexandre. Bruno não tem dúvida: “Até a gente formar uma família. Família, para mim, é tudo”.




Fonte: Família Cristã 906 - Jun/2011
Postado por: Família Cristã




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