A vida não tem preço

Data de publicação: 22/10/2013

Osnilda Lima, fsp



A vida é muito preciosa para ser violada. Tráfico de pessoas é crime. O tráfico de pessoas é a terceira atividade ilícita mais lucrativa do planeta, perde apenas para o tráfico de drogas e o de armas

O tráfico de pessoas é uma atividade de baixos riscos e altos lucros. As pessoas traficadas são agenciadas para atividades legais de formas camufladas: o agenciamento de modelos, babás, garçonetes, dançarinas ou, ainda, mediante a atuação de agências de casamentos. De acordo com a advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos Eliceli Abdoral e membro da CJP (Comissão Justiça e Paz) do Regional Norte 2 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o tráfico de pessoas pode ser classificado como uma forma moderna de escravidão. As pessoas traficadas sofrem a já disseminada e denunciada exploração na indústria do sexo, mas há também outros destinos para as vítimas, como o trabalho sob condições abusivas, servidão doméstica, doação involuntária de órgãos para transplante e até adoção ilegal de crianças. Esse tipo de violência acontece com mulheres, crianças e adolescentes, mas há,  em menor número, casos de homens que são visados pelos traficantes, sobretudo para o trabalho escravo.

Há sempre um círculo, uma rede, um tripé que envolvem as raízes do problema do tráfico de pessoas, por isso a existência da demanda. Quem trafica é atraído pelos altos e milionários lucros que o crime gera, os agenciadores sem   escrúpulos buscam tirar proveitos da mão de obra aviltada e, por fim, as vítimas são as consumidoras desse trabalho produzido ilegalmente. Em Belém (PA), entre os dias 24 e 26 de junho de 2011, foi realizado pela CJP do Regional Norte 2 da CNBB o Seminário sobre Tráfico de Pessoas para articular diversos segmentos da sociedade civil e Poder Público na busca de ações voltadas à implementação de políticas públicas de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas.

Vidas pela vida – “Eu gosto de divulgar a minha terra, eu a carrego nos meus traços físicos, no rosto, no cabelo, no meu jeito” – conta a atriz Dira Paes, que é paraense e diretora-geral do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que tem desenvolvido uma série de atividades em prol da paz e dos direitos humanos e participou do Seminário. “Estamos num momento retrógrado aqui no estado do Pará, onde a gente vive os mesmos problemas do século 16, a pirataria dos barcos, o tráfico humano, o trabalho escravo, a exploração sexual das pessoas” – conta Dira Paes, que afirma não ter dúvida de que essa realidade é fruto da ganância pelo enriquecimento ilícito. “Como cidadã não posso ficar calada diante da ganância daqueles que cometem esses crimes. Sou indignada com o olhar de cobiça para o extrativismo de nosso estado, as empresas vêm buscar as riquezas minerais, ambientais e humanas também” – desabafa a atriz.

“A partir do momento em que fomos estudando e mergulhando nessa realidade do nosso estado, praticamente todos os dias, recebemos vítimas tanto de exploração sexual como tráfico de pessoas, e eu digo para você que nunca mais experimentei o que é ter paz. E eu digo que hoje é complicado dizer que você é feliz quando tantas vidas em nossa realidade estão gritando por dignidade, não dá para viver em paz, não dá para dormir mais tranquila, não dá para ficar como era há um tempo. O espírito de indignação aumenta a cada dia. O que dá a certeza de que estamos no caminho certo é justamente saber que essa população encontra na Igreja apoio e segurança. Eles vêm até nós para que encaminhemos as denúncias à Justiça, pois confiam mais em nós” − desabafa irmã Marie Henriqueta Ferreira Cavalcante, secretária-executiva da CJP do Regional Norte 2 da CNBB, que é ameaçada de morte e anda com proteção policial.

Dom José Luís Azcona Hermoso, bispo da prelazia do Marajó, no estado do Pará, conta que a dimensão do tráfico de pessoas é uma problemática multifacetada, pois realidades internacionais aparecem no quadro. “Já foi preciso entrar em contato com a Igreja no Suriname e Guiana Francesa, pois grande parte das pessoas traficadas aqui de Belém tem como destino esses países” – conta dom Azcona. Segundo o bispo, a Igreja na Amazônia é a grande catalisadora de ações e articulações em torno dessa problemática, vizualizando-as e cobrando a repressão dos crimes contra os direitos humanos. Em sua atuação pastoral, dom Azcona vem denunciando a situação miserável em que vive a população do  arquipélago do Marajó, sobretudo a prostituição infantil e o tráfico de mulheres para a Guiana Francesa, Suriname e para a Europa. Por conta dessas denúncias, ele vem sendo ameaçado de morte.

Amor à vida – De acordo com irmã Henriqueta, é muito arriscado e desafiador para quem assume a luta pelos direitos humanos, pois fica sempre muito exposto. “No estado do Pará é um desafio encontrar servidores com responsabilidade, compromisso e sensibilidade, a maioria são coniventes com o crime, são corruptos mesmo, isso é muito complicado. O estado não dá conta das mazelas que existem, há uma lacuna enorme no Poder Público que vem de muitos anos. Quando você chega aos municípios, a carência é enorme. A inexistência de políticas públicas é imensa, os gestores dos municípios não fazem nenhum investimento. Umas das coisas que a gente percebe é que as pessoas que têm poder, como juiz, advogado, delegado, passam a ser amigas desse gestor corrupto. Acabam criando uma relação de amizade que leva a encobrir as cobranças que o Ministério Público deveria fazer. As pessoas alegam que nem sequer chega a virar inquérito uma denúncia feita por uma família pobre. Muitas denúncias desaparecem. Então é muito fácil, a maioria das redes que exploram sexualmente, que violentam nossas crianças, são redes poderosas, consistentes, têm muito dinheiro, e elas acabam comprando os que são responsáveis em responsabilizá-las, aí essas famílias ficam numa situação de total descaso, de abandono, marcadas pela miséria, marcadas por esses poderes que não dão conta, que não servem a elas, tanto faz existir ou não” – revela Marie Henriqueta, que ainda afirma não ter dúvida que esses crimes são sustentados e estimulados pela cultura da impunidade, muito característica no estado do Pará.

“Aqui se você entrar na luta pelos direitos humanos precisa estar consciente, precisa estar muito focada no objetivo. Tem de ter muito amor à vida, e o amor à causa faz você ser resiliente e corajosa porque do contrário você não suporta as contradições que são inerentes a tudo isso, e são muito fortes. Você acaba lutando, mas ao mesmo tempo fica totalmente exposta. Então é preciso ter claro por quem você está lutando” – conclui Henriqueta.




Fonte: Família Cristã 908 - Ago/2011
Postado por: Família Cristã




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