A mesa virou

Data de publicação: 06/11/2013

Padre Estêvão Raschietti *



O Vaticano II é assumido na América Latina sob a ótica da Igreja Povo de Deus, dos pobres, da comunhão, solidária, samaritana e próxima às situações mais humanas

As pessoas de mais idade devem se lembrar de que, quando crianças, o padre celebrava a missa em latim, por conta, de costas para o povo, com o altar colocado contra a parede. A assembleia quase nem participava. Mas o que era uma prática secular da Igreja, de repente mudou: o altar desgrudou-se da parede e virou-se para a assembleia, o sacerdote dirigiu-se às pessoas na língua habitual, a liturgia passou a ser bem mais simplifi cada às ações essenciais, os cantos foram sendo ouvidos segundo a cultura do tempo e do lugar, o povo de Deus começou finalmente a participar.

Essa virada de mesa correspondeu a uma nova postura da Igreja em relação ao mundo que aconteceu com o Concílio Ecumênico Vaticano II. Era preciso, segundo as palavras do papa João XXIII, um novo Pentecostes que ajudasse a Igreja a sair, a comunicar, a colocar o Evangelho em contato com o mundo moderno, perscrutando os sinais dos tempos, trabalhando pela paz, pela unidade dos cristãos e da família humana. Era urgente uma atitude mais otimista, de coragem, abertura, diálogo, escuta, humanidade e proximidade ao povo. Ao jornalista que lhe perguntou sobre o que esperava do Concílio, o papa respondeu que não sabia muito bem. Porém, abrindo a janela, acrescentou: “Pelo menos um pouco de ar fresco!”.

Medellín – O ar fresco conciliar investiu de cheio a Igreja na América Latina. Em 1968 é convocada a 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Medellín (Colômbia), no meio dos clamores dos povos do continente e a violência institucionalizada das ditaduras, sob o pretexto de aplicar as disposições programáticas do Vaticano II. A Conferência de Medellín, porém, não apenas aplicará tais disposições mas as reinterpretará a partir de uma caminhada e de uma sensibilidade singelamente autóctone.

A esse propósito, como observou o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, se o tema inicial da Conferência era A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Vaticano II, o resultado final foi: A Igreja do Vaticano II à luz da realidade latino-americana.

De fato, o que o Concílio representou para a Igreja no mundo, Medellín significou para a Igreja na América Latina, na medida em que se propôs encarnar as intuições e os eixos fundamentais do Vaticano II no próprio contexto, periférico e empobrecido. A virada de mesa e a postura dialógica entre a Igreja e a humanidade traduziram-se principalmente na proposição das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e na opção preferencial pelos pobres.

A partir destas duas intuições, o Concílio Vaticano II é assumido pela Igreja latino-americana sob a ótica da Igreja Povo de Deus e de uma Igreja dos pobres, de uma Igreja comunhão de irmãos e irmãs, e de uma Igreja solidária, samaritana, próxima às situações mais humanas, comprometida com a causa dos oprimidos.

Portas fechadas – Essas perspectivas causaram entusiasmo e apreensão ao mesmo tempo. O período pós-conciliar foi extremamente criativo, mas também bastante turbulento. A teologia e a opinião pública eclesial eram muito pouco preparadas para a abertura ao mundo moderno. De fato, no embalo do entusiasmo, muitos caminhos sucumbiram a equívocos excessivamente seculares. A Igreja do Concílio, e sobretudo a da América Latina, era continuamente acusada de ter desviado o olhar para questões puramente humanas, adotando instrumentos de análise que não eram próprios de sua tradição, “contaminando” sua doutrina com a influência nefasta de ideologias.

Com o passar do tempo,portas e janelas abertas, pelas quais passaram os ventos da renovação, foram se fechando: quase como um desencanto por um otimismo missionário que não produziu os resultados esperados. Apesar de tudo, a caminhada das conferências episcopais latino-americanas manteve firme o seguimento evangélico e a renovação eclesial que desde o começo caracterizou seus passos. Depois de Medellín em 1968, houve a 3ª Conferência, em Puebla (México), em 1979; a 4ª Conferência, em Santo Domingo (República Dominicana), em 1992; e a 5ª Conferência, em Aparecida (Brasil), em 2007. Todas elas, mesmo se ressentindo do clima nem sempre favorável, insistiram no caráter profético de uma Igreja Povo de Deus convocada a ser “advogada da justiça e defensora dos pobres” (Documento de Aparecida, 395).

Novas gerações – Há exatos 50 anos da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, nossas Igrejas contam com outras gerações de cristãos e cristãs, distantes daquelas experiências vividas nos anos 1960, com uma nova sensibilidade cultural e espiritual, certamente afinada com novos sinais dos tempos e novos desafios.

O Concílio Vaticano II pode ainda entusiasmar as novas gerações e abrir portas e janelas à ventania do Espírito? Apostamos que sim. Mas para isso se faz necessária uma reinterpretação do Concílio, que se fundamente num renovado reencantamento pelas fontes bíblicas e patrísticas, numa recompreensão do quadro histórico do evento conciliar, numa releitura de cada formulação no conjunto de todos os textos conciliares e numa necessária retomada da recepção pós-conciliar na doutrina e na vida das Igrejas locais. Em outras palavras, no nosso caso específico, não poderíamos interpretar hoje o Concílio Vaticano II sem retomar as conferências de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida.

Ao mesmo tempo, é preciso nos dias de hoje não fazer do Concílio um mito, e sim um ponto de partida para que se possa olhar para o tempo presente e futuro. Segundo o teólogo e cardeal Walter Kasper, o Vaticano II concentrou de tal maneira seu discurso sobre a Igreja que acabou se descuidando um pouco do verdadeiro conteúdo da fé. Hoje a Igreja é chamada a falar menos de si mesma e focar muito mais o essencial: retornar a Jesus e seu Evangelho, testemunhando a proximidade do inefável mistério de Deus.

* Padre Estêvão Raschietti, SX, é secretário-executivo do Centro Cultural Missionário (CCM) e autor do livro Ad gentes: texto e comentário, de Paulinas Editora.




Fonte: Família Cristã 923 - Nov/2012
Postado por: Família Cristã




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