A odisseia gaúcha

Data de publicação: 18/12/2013

Alexandre Ayub Stephanou*

A

Revolução Farroupilha, que teve início em 1835 e término em 1845, ocorreu no estado do Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul é um estado peculiar, culturalmente peculiar. Cantamos o hino rio-grandense ao encerrar uma formatura ou antes de uma partida de futebol. E cantamos mesmo, todos sabem a letra de cor. Delegamo-nos qualidades espartanas, tanto para o estado como para o gaúcho em si, exaltando uma alegada bravura estoica, e qualidades atenienses, quando nos investimos da condição de “povo que fala o português mais correto”, ou “povo com maior índice de leitura no País”, ou ainda “povo mais politizado da Nação”. A lista de qualidades atribuídas a nós por nós mesmos é tão extensa quanto exagerada: “temos as mulheres mais lindas do mundo”, o “pôr do sol mais bonito do Planeta”, a serra gaúcha “é um pedaço da Europa no Brasil”... Construímos a imagem de um estado movido à coragem e onde tudo é o melhor do mundo. Aliás, a pretensão de ter o mundo como parâmetro é explicitada em um adágio gauchesco: “O Rio Grande do Sul só é menor que o mundo em tamanho”.

Essa perspectiva ufanista vista de forma racional e pragmática fica até constrangedora. Se olhada de forma mais condescendente, no entanto, demonstra a paixão que o gaúcho tem pela sua cultura, a tentativa de preservação da mesma como uma espécie de resistência à cultura globalizada, massificada, mcdonizada, que cria lugares iguais em qualquer lugar. Nós temos diferenças e gostamos de acentuá-las. Excessos extremistas e separatistas são cometidos por uma pequena minoria, a maioria identifica-se como brasileiro e se orgulha dessa condição, conciliando tranquilamente a cultura gaúcha com a brasileira. Na verdade, nós, gaúchos, forjamos uma identidade para amenizar a indefinição característica de uma região de fronteira, pois ora éramos espanhóis, ora éramos portugueses. Essa condição efêmera, de nacionalidade transitória, nos obrigou a afirmação de uma personalidade própria, pois não sabíamos até quando continuaríamos sendo espanhóis ou portugueses.

Nasce uma identidade − E de onde vem essa identidade própria? Esse sentimento gaúcho tem sua origem na Revolução Farroupilha (1835-1845), acontecimento histórico que foi dinamizado pelos gaúchos como uma espécie de mito fundador do estado, a nossa Guerra de Troia, materializada como prova da coragem de enfrentar um Império. A história da província que enfrenta um governo injusto e busca construir um sistema republicano, um movimento contra a centralização política, a escravidão e a monarquia em pleno século 19. Essa história é real? Esses foram os verdadeiros objetivos do movimento farroupilha, um levante popular contra a injustiça e a escravidão? Sim e não. A região do atual estado do Rio Grande do Sul localizava-se, originalmente, em “terras de Espanha”, e não na América Portuguesa. Desde o Tratado de Tordesilhas pertencíamos à Espanha, ocupado pelas missões (reduções) jesuíticas. O Brasil terminava em Laguna, em Santa Catarina.

O estado gaúcho foi incorporado ao Brasil oficialmente apenas no século 18, devido à relação comercial dos estancieiros (proprietários de terra e criadores de gado) e charqueadores com a região ourífera de Minas Gerais. Nós fornecíamos charque para a alimentação dos faiscadores e mulas para o transporte do ouro. A escolha de “ser brasileiro” foi nossa, visando garantir a continuidade da relação comercial com a zona mineradora. Portugal negocia com a Espanha a transferência do Rio Grande do Sul para o Brasil, oficializada em 1750.

Em 1835, ano do início do movimento farroupilha, a situação era outra. O Brasil, já independente, era um “Império sem imperador”, uma “monarquia sem monarca”, pois Dom Pedro I abdicou ao trono brasileiro em 1831, deixando como seu sucessor o filho, Pedro de Alcântara, de apenas 5 anos de idade na ocasião. Dom Pedro I havia outorgado uma Constituição em 1824, que centralizava todo o poder na figura do imperador e, sete anos depois, deixava o País sem imperador e mergulhado em uma profunda crise política e econômica. O Brasil foi governado, então, por regentes da corte do Rio de Janeiro, políticos que não tinham nenhuma projeção nacional ou representatividade fora da capital, era um poder sem legitimação de fato e, por isso, rebeliões separatistas eclodiram em todo o país. O Rio Grande do Sul enfrentava uma grave crise financeira devido à decadência da produção charqueadora. O charque, carne seca e salgada usada na alimentação dos escravos, era o nosso principal produto.

Um movimento militar – Nesse período, no entanto, o charque do prata, do Uruguai e da Argentina, chegava mais barato ao centro do País do que o gaúcho. E por que o nosso charque estava tão caro? Porque o Império cobrava altos impostos sobre o produto. O sal vinha do Rio Grande do Norte, o que aumentava o preço final da carne. O ultrapassado sistema escravista também era muito dispendioso, era preciso comprar escravos, alimentar, vestir, alojar... Além disso, na Argentina e no Uruguai havia uma política de favorecimento do produto, pois esses países eram governados por estancieiros (caudilhos). A crise foi agravada pelo fato de o Brasil ser o nosso mercado consumidor. Éramos a única província da Nação que produzia para o mercado interno. O perfil da economia gaúcha, pecuária para consumo interno, contrastava com o perfil da economia brasileira, agricultura de exportação.

A elite gaúcha, organizada em torno da Assembleia Legislativa do estado, reivindica uma política de auxílio à produção charqueadora, pedindo a taxação do charque estrangeiro, ou seja, tarifas alfandegárias para o charque da Argentina e do Uruguai. Assim, o charque do prata ficaria mais caro do que o gaúcho. A resposta do governo imperial, regido por Diogo Feijó, foi negativa, crescendo o sentimento de injustiça no estado. O Rio Grande do Sul acreditava ter crédito com o governo do Império, pois havia sido o estado que mais contribuiu com soldados e recursos para o Exército brasileiro durante a Guerra da Cisplatina, confronto bélico entre Brasil e Argentina na disputa pelo Uruguai, dez anos antes. E em outras tantas guerras de fronteira, quando o estado gaúcho com recursos próprios havia defendido as fronteiras do País. O sentimento de injustiça tomou conta da elite gaúcha. Os estancieiros partem então para uma ação militar, tomando a cidade de Porto Alegre, capital do estado, no dia 20 de setembro de 1835.

A ideia era apenas dar “um susto”, pressionar o governo central, o movimento não tinha nenhum caráter separatista, aliás, não havia ainda nem sequer a ideia de que era o início de um movimento militar. O general Bento Gonçalves, líder dos rebeldes, inclusive, escreve uma carta ao governo da regência afirmando que o Rio Grande do Sul era fiel ao futuro imperador. As reivindicações, no entanto, não foram mais uma vez atendidas, ao contrário, o Império ameaçou os rebeldes provocando o início de um movimento de fato. Com o confronto bélico estabelecido, era necessário “popularizar” o movimento, torná-lo mais abrangente, pois duas dúzias de estancieiros não poderiam enfrentar o Império. Era preciso aumentar, principalmente, as milícias militares. Assim, novas propostas tiveram de ser incorporadas ao movimento, como a promessa de liberdade aos negros escravos que entrassem no Exército farroupilha e de terras aos camponeses que combatessem na cavalaria. A população do estado em 1835 era de 160 mil habitantes, sendo 30% composta de escravos. Por isso, a importância numérica de incorporá-los à Revolução.

República rio-grandense − Um ano após o início do movimento, ocorre o primeiro confronto bélico, a Batalha do Seival, vencida pelos farroupilhas ou farrapos. Eles lutaram com laços vermelhos cobrindo o uniforme azul do Exército brasileiro, a fim de se diferenciar dos imperiais, os uniformes eram iguais, pois ambos integravam o Exército brasileiro, tanto os rebelados quanto os legalistas. A bandeira do estado do Rio Grande do Sul faz uma referência a essa batalha, o vermelho “cortando” o verde-amarelo do Brasil. Dois dias após a batalha (11.9.1836), o coronel Antonio Netto, que havia liderado a vitória, declara a separação do Rio Grande do Sul, era o início da Revolução Farroupilha, pois agora o movimento de protesto ganhava caráter separatista: “Devemos ser os primeiros a proclamar a independência dessa província, a qual fica desligada das demais do Império e forma um estado livre e independente, com o título de República Rio-Grandense”. Estava formado um novo país, republicano, ao sul da América, e que sobreviveu por quase uma década. Era também o início de uma guerra de nove anos, que totalizou 70 batalhas, sendo a revolta de maior duração de todo o período imperial brasileiro. Como presidente foi escolhido o general Bento Gonçalves, seguindo a hierarquia militar.

O lance mais espetacular da Revolução Farroupilha ocorreu em 1839. O Império havia confinado os farroupilhas ao campo (pampa), ocupando todos os portos da província. Sem uma saída para o mar, a República Rio-Grandense não conseguia realizar nem o comércio do charque, nem a diplomacia necessária para o reconhecimento internacional da sua independência. Os farroupilhas, que já haviam tentado retomar por três vezes a cidade de Porto Alegre, recuperada pelo Império em 15 de junho de 1836, buscaram uma estratégia mais ousada e inédita em termos de revoltas provinciais: tomar o porto de Laguna, em Santa Catarina, estendendo a revolta para outra província. A tomada de Laguna pegou o Império de surpresa. O mais espetacular, no entanto, foi a construção de dois barcos “movidos a boi”. Isso mesmo, dois barcos-carreta construídos na Estância de Ana Gonçalves, irmã de Bento. Confinados ao pampa, só restou aos farroupilhas a criação de barcos “anfíbios”, que andavam na água e na terra. Postos em enormes rodas de madeira e puxados por bois, os barcos andaram por terra mais de 100 quilômetros, da cidade de Camaquã ao Rio Tramandaí, de onde partiram para Laguna.

De volta ao Brasil – O principal responsável pela façanha foi o italiano Giuseppe Garibaldi, mítico herói italiano, misto de idealista e mercenário, que havia fugido da Itália após uma tentativa fracassada de unificação. Garibaldi lutou na Revolução Farroupilha a convite de Bento Gonçalves, e uma carta escrita pelo capitão, 30 anos depois, é até hoje usada pelos tradicionalistas gaúchos como uma “prova” da bravura e da honestidade farroupilha: “Este passado da minha vida no Rio Grande se imprime em minha memória como algo de sobrenatural, de mágico, de verdadeiramente romântico. Eu vi corpos de tropa mais numerosos, batalhas mais disputadas, mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, nem cavaleiros mais brilhantes do que os da bela cavalaria rio-grandense, em cujas filas principiei a desprezar o perigo e a combater dignamente pela causa das gentes”.

Com a Tomada de Laguna, a República Rio-Grandense viveu o seu apogeu: tinha uma saída para o mar, uma capital estabelecida, a cidade de Caçapava, um governo com seis ministérios, um jornal, uma Constituição e um serviço de correio, entrega de cartas. Porém, a reação imperial ocorreu ainda no mesmo ano. O Império retomou Laguna em 15 de novembro de 1839. A perda da cidade  catarinense marcou o início do declínio da República Rio-Grandense. As estâncias estavam despovoadas, o governo republicano sem dinheiro, a capital mudava constantemente de lugar fugindo das tropas imperiais, a última capital acabou sendo a cidade de Alegrete, na fronteira, já quase fora do estado. Intrigas e divergências entre os chefes farroupilhas acentuam a decadência do movimento, Bento Gonçalves chegou a matar Onofre Pires, comandante farroupilha, em um duelo. O arsenal e a tipografia republicana foram destruídos em um ataque legalista. Restava somente a guerra defensiva, que foi arrastada até 1845. Em 1840, o Brasil voltou a ter imperador, Dom Pedro II, empossado com apenas 14 anos de idade, no chamado Golpe da Maioridade. A volta da figura do monarca legitimou o poder central e acalmou as rebeliões provinciais, que foram acabando uma a uma. Restou apenas a Revolução Farroupilha. O governo do Império resolve então concentrar forças no combate aos farroupilhas, enviando ao Rio Grande do Sul, em 1842, Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, maior estrategista militar da nossa história. Junto com Caxias vieram mais 12 mil soldados, totalizando 20 mil combatentes do Império no estado. O Exército farroupilha contava com menos de 4 mil soldados. Em poucos meses, Caxias organizou e disciplinou as tropas imperiais. O território da República Rio-Grandense passou a ser lentamente ocupado pelos legalistas. Paralelo aos combates, Caxias negociava um tratado de paz com Bento Gonçalves, acenava com anistia aos revoltosos e ajuda econômica ao estado. Mas o acordo emperrou na questão dos negros: o Império não aceitava libertar os negros que lutaram na Revolução Farroupilha. A liberdade aos negros da cavalaria era uma promessa feita pelos rebeldes no início da revolução. Bento retira-se das negociações e do próprio movimento, ao se desentender com Caxias e com os próprios líderes farroupilhas, que queriam de qualquer maneira o acordo. David Canabarro, outro comandante militar farroupilha, assume o lugar de Bento e assina o tratado de Paz de Ponche Verde com Caxias, era o fim da Revolução Farroupilha e da República Rio-Grandense: o Rio Grande do Sul voltava a pertencer ao Brasil.

* Alexandre Ayub Stephanou é jornalista e historiador. Doutor em História do Brasil pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).




Fonte: Família Cristã 909 - Set/2011
Postado por: Família Cristã




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