A família é uma Igreja

Data de publicação: 11/02/2014

Filipe Domingues, de Roma
Fotos: L'Osservatore Romano

Em seu pontificado, Bento XVI voltou o olhar para a promoção da dignidade da família e seus desafios atuais

Uma das marcas do pontificado de Bento XVI foram as fortes mensagens em defesa da família e do matrimônio. Três encontros mundiais das famílias ocorreram durante seus quase oito anos de  papado, principais ocasiões em que o papa procurou aplicar à vida concreta, de diversas formas, o conceito de família defendido pela Igreja.

“Não é só a Igreja que é chamada a ser imagem do Deus Uno em Três Pessoas, mas também a família fundada no matrimônio entre o homem e a mulher”, resumiu Bento XVI durante o VII Encontro  Mundial das Famílias, realizado em junho de 2012, em Milão, na Itália. “Deus criou o ser humano, homem e mulher, com igual dignidade, mas também com características próprias e complementares, para que os dois fossem dom um para o outro, se valorizassem reciprocamente e realizassem uma comunidade de amor e de vida.” De acordo com o papa, por meio do casamento, os esposos doam suas vidas inteiras e com a mesma generosidade devem receber os filhos.

Enquanto aos pais cabe educá-los com “cuidado e sabedoria”, aos filhos cabe o respeito aos genitores. “Sabei manter sempre uma relação de profundo afeto e solícito cuidado com os vossos pais, e as relações entre irmãos e irmãs sejam também oportunidade para crescer no amor”, disse o pontífice.

Trabalho e família – Nesse contexto, segundo Bento XVI, é preciso harmonizar os momentos de trabalho e de festa, não deixando a família de lado. Em um mundo que funciona em ritmo acelerado e no qual o trabalho consome a jornada dos chefes de família, o papa pediu que o descanso seja valorizado – especialmente aos domingos. “O projeto de Deus e a própria experiência mostram que não é a lógica unilateral do próprio bem e do máximo lucro aquela capaz de nos conduzir a um desenvolvimento harmonioso, ao bem da família e a edificar uma sociedade mais justa.”

Igreja e família – Um outro aspecto destacado por Bento XVI ao longo de seu pontificado foram as relações entre Igreja e família. O Santo Padre reconstruiu a ideia de que a Igreja é uma família; e a família uma Igreja. A comunidade eclesial deve se reunir como uma família em torno da mesma mesa, isto é, no Sacramento da Eucaristia. Sendo assim, a Igreja e seus membros seriam uma grande “família de Deus”. “Está-nos confiada a tarefa de construir comunidades eclesiais que sejam cada vez mais família, capazes de refletir a beleza da Trindade e evangelizar não só com a Palavra, mas – diria eu – por ‘irradiação’, com a força do amor vivido”, declarou.

Da mesma forma, a família deve ser conduzida como uma “Igreja doméstica”, de acordo com Bento XVI. Em missa celebrada no Vaticano com os organizadores do VI Encontro Mundial das Famílias, que ocorreu na Cidade do México, no México, Bento XVI afirmou: “As famílias cristãs com a sua vida doméstica, simples e alegre, partilhando no dia a dia as alegrias, esperanças e preocupações, vividas à luz da fé, são escolas de obediência e âmbito de verdadeira liberdade”. Recordou ser essencial uma “comunhão íntima com Deus” no contexto familiar.

Transmissão da fé – A família deve ser também o primeiro ambiente para a formação de cada cristão na fé, de acordo com o papa Bento XVI. “Sem dúvida os pais cristãos são chamados a dar um testemunho crível da sua fé e esperança cristã”, exortou em Valência, na Espanha, durante o V Encontro Mundial das Famílias. “Devem preocupar-se para que o chamado de Deus e a Boa Nova de Cristo chegue aos seus filhos com a maior clareza e autenticidade.”

O sucessor do apóstolo Pedro reiterou conceitos apresentados já por João Paulo II na exortação apostólica Familiaris Consortio (1981). Entre eles, o estímulo aos pais para que ensinem os filhos a rezar e ler a Bíblia, apresentando os filhos aos sacramentos e acompanhando-os dentro da comunidade cristã, para que os filhos possam reconhecer “o sentido profundo da própria existência e se sintam alegres e gratos por isso”. “Assim como os pais acompanham os primeiros passos dos filhos neste mundo, são convidados a conduzi-los na iniciação cristã”, diz Bento XVI.

Divorciados – O papa Bento XVI foi o pontífice que mais se mostrou preocupado com a inclusão das pessoas divorciadas na Igreja. “Esta é uma das maiores causas de sofrimento para a Igreja hoje, e não temos soluções simples”, respondeu a uma família brasileira que o questionou sobre o fato de os divorciados não poderem participar dos sacramentos, em junho de 2012. “Precisamos dizer que a Igreja os ama, mas eles precisam ver e sentir esse amor.”

Várias vezes o papa Bento XVI assegurou que a Igreja não deu as costas para quem vive experiências de separação. “Sabeis que o papa e a Igreja vos apoiam no vosso cansaço”, exclamou, de forma inovadora, em Milão.“Encorajo-vos a permanecerdes unidos às vossas comunidades, e espero que as dioceses realizem iniciativas adequadas de acolhida e aproximação.”

O pontífice pediu que as estruturas da Igreja particular, isto é, principalmente das dioceses, se mobilizem para proporcionar às pessoas divorciadas o conforto e a participação merecidos. “As paróquias e outras comunidades da Igreja precisam fazer todo o possível para que essas pessoas se sintam amadas e aceitas”, explicou. “Mesmo sem a recepção ‘corporal’ do Sacramento (da Eucaristia), temos de estar espiritualmente unidos a Cristo.” Para ele, os casais divorciados devem ter a chance de viver a fé e, se eles estão sofrendo, também a Igreja está.

Papel do Estado – Ao longo de seus quase oito anos de papa, Bento XVI também bateu na tecla do dever que o Estado tem de defender as famílias. “Um autêntico progresso da sociedade não poderá prescindir de políticas de tutela e promoção do matrimônio e da comunidade que dele deriva, políticas que cabem não só aos Estados, mas às próprias comunidades internacionais”, afirmou em um congresso com 120 políticos cristãos, em 2012. “O respeito à vida em todas as suas fases, da concepção até seu fi m natural, é um compromisso que se entrelaça com aquele do matrimônio, como união indissolúvel entre um homem e uma mulher e como fundamento, por sua vez, da comunidade familiar.”




Fonte: Família Cristã 927 - Mar/2013
Postado por: Família Cristã




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