7 Pecados Capitais

Data de publicação: 19/02/2014


Por André Bernardo
Fotos Danilo Maia

Você sabe dizer o que Abel, Otelo e Júlio César tinham em comum? Aparentemente nada, não é mesmo? Afinal, o primeiro deles era um pastor de ovelhas, o segundo era um príncipe mouro e o terceiro, um imperador romano. Mesmo assim, eles tinham muito em comum. Os três foram vítimas da inveja. Abel foi morto por seu irmão, Caim. O homicídio, considerado o primeiro da história da humanidade, é narrado no livro do Gênesis (cf. 4,3-8). Já Otelo, o personagem-título de uma famosa tragédia de William Shakespeare, é enganado por Iago, seu oficial de confiança. Para vingar-se do mouro, que teria promovido Cássio em seu lugar, Iago convence Otelo de que Desdêmona, sua mulher, o havia traído. Foi a inveja também que levou Brutus a apunhalar o próprio pai adotivo, Júlio César. Diante da frieza de seu inesperado algoz, um atônito Júlio César murmurou a célebre frase: “Até tu, Brutus?”.

Ninguém está livre de sentir inveja ou de ser invejado. Em tempos de redes sociais, um recente estudo alemão, coordenado pela pesquisadora Hanna Krasnova, do Instituto de Sistemas da Informação na Universidade Humboldt de Berlim, revela que um terço dos usuários do Facebook, a maior rede social do mundo, se sente mal após acessar a rede. O motivo é simples. Testemunhar a vida amorosa, o sucesso profissional e, pior de tudo, as viagens de férias dos amigos internautas pode despertar um nocivo sentimento de inveja. Segundo o estudo Inveja no Facebook: Uma Ameaça Oculta à Satisfação da Vida dos Usuários?, realizado com 600 voluntários, uma em cada três pessoas declarou sentir-se triste, frustrada e sozinha após “visitar” o perfil dos amigos na rede social.

Autora de Os sete pecados revisitados, em parceria com Christiane Michelin, a psicóloga Sônia da S. Santos compara o sentimento de inveja a uma “cobra traiçoeira”. Segundo ela, desde cedo, aprendemos a competir. E cita o exemplo da escola, quando um “nove e meio não é uma nota suficientemente boa quando o seu amigo consegue um dez”. “É-nos incutido um medo de que, se o outro for melhor do que nós, ninguém mais nos dará valor, não haverá lugar para os dois. A partir disso, passamos a não mais acreditar no amor, a não mais confiar que as coisas possam dar certo para nós. Tornamo-nos muito mais interessados em acompanhar o que acontece aos nossos ‘concorrentes’ do que em aprimorar nossos próprios talentos”, analisa Sônia Santos. O tema é tão intrigante que mereceu do jornalista e escritor Zuenir Ventura um livro totalmente dedicado a ele.

Mal secreto − Para escrever Inveja – mal secreto, que deu início à coleção Plenos pecados, da Editora Objetiva, Zuenir Ventura pesquisou por dois anos “um dos mais antigos pecados da humanidade, certamente o mais inconfessável deles”. Neste período, entrevistou sacerdotes, psicólogos e umbandistas. Sim, uma pesquisa feita em 1993, pela agência Toledo & Associados, revelou que, no Brasil, a cultura popular associa inveja a mau-olhado. Essa associação pode ser explicada pela origem etimológica da palavra inveja. Em latim, invidere quer dizer “olhar enviesado, de soslaio”. Em outras palavras: o mau-olhado é aquele olhar de inveja que o invejoso lança sobre o invejado. Logo no prefácio do livro, Zuenir Ventura se apressa em distinguir ciúme, cobiça e inveja. “Ciúme é querer manter o que se tem, cobiça é querer o que não se tem e inveja é não querer que o outro tenha”, diferencia o autor.

Ainda segundo a pesquisa da agência Toledo & Associados, a inveja é o pecado capital mais conhecido dos brasileiros. Enquanto 45% dos entrevistados alegaram não se lembrar quais eram os pecados capitais, 94% deles afirmaram que a inveja era o mais conhecido dos sete. Foi perguntado aos 407 entrevistados que pecados eles admitiam ter cometido “sempre”, “às vezes” ou “nunca”. Enquanto 18% admitiram cometer “às vezes” e 79% disseram que “nunca” o tinham cometido, apenas 3% confessaram cometer “sempre” o pecado da inveja. Por outro lado, segundo a mesma pesquisa, os pecados que as pessoas mais confessaram praticar foram a ira, a preguiça e a gula. “A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas”, metaforiza Zuenir Ventura. “É um sentimento que não mostra a cara e não diz o nome.”

Antídoto infalível −Ao longo dos séculos, a inveja tornou-se objeto de estudo para pensadores e filósofos. Autor de A crítica da razão pura, Immanuel Kant (1724-1804) chama a atenção para o fato de que a inveja é prejudicial à pessoa que a cultiva, porque a impede de “ver suas qualidades, ofuscadas pelas qualidades dos outros”. Arthur Schopenhauer (1788-1860), por sua vez, assegura que “não há ódio mais implacável que o da inveja”. Para o autor de Metafísica do belo, “a inveja dos homens revela como se sentem infelizes, e a sua constante ocupação com o que fazem ou não fazem os outros, todo o tédio que lhes corrói a alma”. Já Bertrand Russell (1872-1970) afirma que “de todas as características da natureza humana, a inveja é a mais desafortunada. O invejoso não só deseja a desgraça, como também é rendido à infelicidade”. O mais curioso é que, por um instante, até parece que Kant, Schopenhauer e Russell tiveram acesso ao recente estudo alemão sobre Inveja no Facebook.

Segundo padre Jesus Hortal, doutor em Direito Canônico, a Bíblia é rica em histórias que revelam o poder destruidor da inveja. Uma delas é a de José, vendido como escravo pelos próprios irmãos (cf. Gn 37,28), e a outra, a de Davi e Betsabéia (1Rs 1, 21-30). Quando o profeta Natã repreende esse pecado, narra a parábola do rico possuidor de fartos rebanhos e do pobre dono de uma única ovelha. “A inveja faz com que o rico destrua o único bem do pobre”, observa o ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Na parábola dos trabalhadores da última hora, a inveja é chamada de “olho mau” (cf. Mt 20,15), em contraste com a bondade do dono do campo. Contra o poder devastador da inveja, padre Hortal recomenda um único remédio: a graça reparadora da caridade. “O melhor antídoto contra a inveja ainda é amarmos ao próximo como a nós mesmos”, aconselha o teólogo.




Fonte: Família Cristã 930 - Jun/2013
Postado por: Família Cristã




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