7 Pecados Capitais

Data de publicação: 12/03/2014

Avareza

O apego exacerbado às riquezas pode causar risadas, mas também desperta reflexão

Por André Bernardo

Pão-duro, mão de vaca, unha de fome. Esses são apenas alguns dos muitos adjetivos frequentemente atribuídos a quem comete o pecado da avareza. “De todos os sete pecados capitais, é o que mais se presta a gracejos e anedotas. Na literatura universal, o avarento é sempre ridicularizado”, constata o escritor brasileiro João Baptista Herkenhoff, autor de Os novos pecados capitais. João Herkenhoff tem razão. A literatura universal está repleta de personagens sovinas. Os mais famosos, sem dúvida, são Shylock, de O mercador de Veneza, de William Shakespeare; Ebenezer Scrooge, de Um conto de Natal, de Charles Dickens; e Harpagon, de O avarento, de Molière.

A divertida comédia de Molière foi encenada pela primeira vez em 1668. Nela, o protagonista – um viúvo ricaço e ganancioso, pai de dois filhos – Cléante e Élise –, tem tanta aversão ao verbo dar, mas tanta aversão, que ele jamais dá bom-dia aos outros. Na melhor das hipóteses, “empresta” bom-dia. E mais: sofre convulsões ao ver um pedinte nas ruas. Em casa, ao ver duas velas acesas, sempre apaga uma. Manda que a criada não lustre muito os móveis para não gastá-los. Por ocasião do jantar, em honra de sua pretendente, Marianne, sendo dez os convidados, Harpagon ordenou ao cozinheiro que preparasse refeição apenas pa-ra oito. “Onde comem oito, comem dez”, justificou.

Os tipos mesquinhos, porém, não se restringiram aos livros. Em 1947, o cartunista americano Carl Barks, dos Estúdios Disney, foi buscar inspiração no insuportável Scrooge, de Charles Dickens, para criar o Tio Patinhas. Apesar de ser um incorrigível muquirana, Tio Patinhas estava sujeito a repentinos atos de generosidade. O mesmo não se pode dizer do Seu Nonô, personagem interpretado por Ary Fontoura na novela Amor com amor se paga, exibida pela TV Globo em 1984. Na trama de Ivani Ribeiro, Seu Nonô era capaz de passar o cadeado na geladeira só para ter certeza de que os filhos, Tomaz e Elisa, não comeriam mais do que ele julgava necessário.

Muito além da ficção – Personagens como Harpagon, Patinhas e Nonô seriam cômicos, se não fossem trágicos. Na opinião do educador financeiro Álvaro Modernell, “pessoas sovinas sofrem tanto quanto as perdulárias”. Autor de livros infantis como O pé de meia mágico, O tesouro do vovô e O poço dos desejos, Modernell fala da importância de os pais imporem limites (inclusive financeiro!) aos filhos. “Em termos de educação, seja na área que for, estabelecer limites é fundamental. É preciso que as crianças aprendam até onde podem ir e, principalmente, quais as consequências de ultra¬passar certos limites. Em termos de finanças, se não aprenderem em casa, apanharão da vida”, previne Modernell.

A pesquisa Pais, Filhos & Uma Visão Geral Sobre o Dinheiro, encomendada pela empresa americana T. Rowe Price (especializada em finanças), revelou que conversar sobre dinheiro em casa pode ser tão embaraçoso para os pais quanto sobre sexo. Segundo o estudo, 33% dos 1.008 entrevistados disseram evitar tocar no assunto com os filhos. E mais: 15% deles admitiram que, pelo menos uma vez por semana, chegam a mentir para os filhos sobre dinheiro. Segundo Modernell, um dos mais eficazes instrumentos de educação financeira é a mesada, que deve ser dada a partir dos 11 anos. “Crianças que recebem educação financeira tendem a aceitar melhor os ‘nãos’ dos pais”, enfatiza.

O perfil do avarento – A psicóloga Marisa Gabbardo afirma que não é difícil traçar o perfil de quem sofre de avareza. “Geralmente, tiveram pais bastante rígidos, controladores e pouco flexíveis. Além disso, sofreram privação ou escassez de recursos materiais na infância. Já adulto, é como se o avarento se defendesse de um mundo que considera hostil, através da retenção de dinheiro ou de qualquer outro bem que representa segurança”, analisa. Para Marisa, educar financeiramente um poupador contumaz pode ser tão difícil quanto um gastador compulsivo. “É como se vivessem entrincheirados, munidos de mecanismos de defesa contra perigos reais ou imaginários”, descreve a psicóloga.

A financista americana Hetty Green (1834-1916) ganhou do Guinness Book of Records o título de A Mulher mais Avarenta do Mundo. Aos 30 anos, ela herdou uma fortuna avaliada em 1 milhão de dólares. Quando morreu, aos 82 anos, seu patrimônio chegava à casa dos 100 milhões de dólares. Mesmo assim, ela levava uma vida miserável. Quase não trocava de roupa e, para economizar sabão, lavava apenas a parte de baixo do vestido. Quando seu filho Edward machucou o joelho, Hetty percorreu hospitais públicos de Nova Iorque à procura de atendimento gratuito. Apesar de ser rica, recusava-se a pagar médico. Com a demora no tratamento, o joelho do garoto teve que ser amputado.


“Desejar com avidez” – Doutor em Teologia, Nilo Agostini explica que o vocábulo avareza vem do latim avare, que quer dizer “desejar com avidez”. Para ele, o avarento é quem se apega imoderadamente às riquezas e aos bens. “Para a Bíblia, o problema não está nos bens em si, pois, enquanto criados por Deus, são bons”, pondera o professor do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, citando o versículo “Toda criatura de Deus é boa” (1Tm 4,4). “O problema é o apego ao dinheiro pelo dinheiro. Nesse caso, não há equilíbrio no uso dos bens. Descamba-se, então, com ligeira facilidade, para outros pecados, como o furto, a fraude e a mentira”, alerta o religioso.

No Novo Testamento, são muitas as passagens que alertam para o perigo do apego às riquezas. No Evangelho, Jesus mostra que é tolice acumular bens para garantir a própria vida (cf. Lc 12,3-21), revela que a ilusão da riqueza é capaz de sufocar a Palavra (cf. Mt 13,22) e adverte que não é possível servir a dois senhores (cf. Mt 6,24). Segundo Agostini, o ser humano pode, sim, usar os bens terrenos com tranquilidade. Só não pode é acreditar que tem direito absoluto sobre eles. “Os bens temporais sinalizam para dons superiores, solicitude de Deus para com os seres humanos. Não cabe, portanto, ao ser humano se prostrar diante deles como se lhe fossem superiores”, conclui.




Fonte: Família Cristã 931 - Jul/2014
Postado por: Família Cristã




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