Educando para o amor

Data de publicação: 25/03/2014

Cleusa Thewes*



Em um mundo de rápidas transformações, a família, como espaço de acolhimento e educação dos filhos, precisa estar fundada no amor oferecido e transmitido pelos pais

Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse o amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente” (1Cor 13,1). A afetividade nos faz direcionar o olhar à potencialidade do aconchegante espaço familiar. As palavras sagradas nutrem e normatizam relacionamentos: “O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor” (1Cor 13,4-5). Os filhos costumam perceber tais virtudes nos pais?

Jesus Cristo elegeu uma família para nascer, adolescer e crescer, deixando-nos um mandamento: “Amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros” (Jo 13,34). Sim, amemo-nos! E o amor nos pergunta: “Onde eu habito?”. No cenário social, o amor chora em crianças abortadas, assassinadas, abusadas. O amor chora na solidão inquieta, na fuga insone de jovens dependentes do crack. O amor chora em pais desempregados, na família sem pão. O amor chora nos irmãos enrolados em cobertores de papelão, dormindo em calçadas frias no sujo chão. O amor procura um lar. Políticas públicas caminham sem pressa nem tempo para curar a dor da exclusão social. O amor pede passagem, a humanidade resiste, apega-se ao desapego da ternura, da compaixão. A Igreja sugere: “Carinho especial haverão de receber as famílias marcadas pela violência e outros males em suas mais diversas formas, como o alcoolismo, o machismo, o desemprego e principalmente as drogas” (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010, 139).

Família e sociedade hoje – A família como instituição absorve mudanças políticas, religiosas e culturais. O contexto é desafiador. É preciso educar, alfabetizar o coração dos filhos no amor. Pais, identifiquem ideologias e sentimentos dominantes não saudáveis que influenciam os seus filhos, colocando em risco futuras gerações! Pais fortaleçam a família ante a realidade que contagia o pensamento, o coração e a vontade dos jovens!

A sociedade passa por uma “crise de identidade, sendo levada a um enfraquecimento de referências, valores, sentidos e significados” – segundo a psicóloga Christiane E. Blank. A sociedade é consumista e materialista, está mergulhada no utilitarismo passageiro e precipita-se no vazio. Como conter os filhos da “síndrome do cartão de crédito” frente aos sites de vendas inúteis?

Individualista, a sociedade pós-moderna mostra-se desarticulada da totalidade social, familiar, religiosa e cultural. Só aceita compromissos leves, desvinculados das instituições educacionais e religiosas, empobrecendo, assim, os relacionamentos. Revela-se ansiosa pelo prazer. Jovens deprimem-se com a frustração. Fragilizados, eles desistem do amanhã que não chegou ontem e nem chegará hoje. O psicólogo e antropólogo Roberto Crema alerta: “Criamos filhos como se o paraíso fosse aqui”.

Deparamo-nos ainda com uma sociedade na qual prevalece o senso comum, o vazio de princípios e de valores. Considera-se normal o divórcio, o aborto, a apropriação indevida. A família, em meio à turbulência, vem se mantendo. “Estudiosos verificam que tal instituição, mesmo afetada por mudanças socioculturais, éticas e religiosas, reage aos condicionamentos e adapta-se a eles, encontrando novas formas de organização que, de algum modo, a reconstituem” – afirma dom João Carlos Petrini, bispo da Diocese de Salvador (BA).

Flexibilidade amorosa – A vida familiar apresenta seis ciclos: casal sem filhos; com filhos pequenos; filhos em idade escolar; filhos adolescentes; filhos jovens-adultos; e o ninho vazio. Cada ciclo exigirá ajustes conjugais e parentais, regras diferenciadas e novos contratos. Destacarei o ciclo da família com adolescentes, pois é rico de desafios e dificuldades.

Os filhos adolescem e os pais desestabilizam-se, negando a adolescência deles. Há pais adolescendo num lar sem adultos. Com isso, a guerra adolescente instaura-se: raiva, grito, ameaça, confronto, porta batendo, celular voando, rebeldia. Pais adolescentes, inseguros, acionam radares da desconfiança, invadem a privacidade dos filhos. Em famílias controladoras, criam-se filhos inseguros e rebeldes. O desrespeito mora ali. Pais oscilam entre autoritarismo e autoridade. Pais gritões exclamam: “Filhos, parem de gritar!”. Onde está a coerência?

E as diferenças? Os pais exercitarão o acolhimento a filhos que buscam a própria identidade? Filhos adolescentes requerem mais assessoramento e menos supervisão. Pais querem filhos confiáveis; filhos querem pais confiantes. Pais, transformem seu radicalismo em flexibilidade amorosa! Lembrem: Adolescentes são pessoas, não problemas. Sejam parceiros da alegria e das conquistas dos filhos.

Retomo a linguagem do afeto familiar, perguntando: “Seu filho sente-se feliz em casa?”. A tecnologia acelera máquinas. A maturidade se processa num lento pulsar. O amor se cansa? Se pai e mãe desistirem, quem cuidará dos filhos? Pais, “o amor jamais passará” (1Cor 13,8). Que o coração do Pai e o coração da Mãe Aparecida façam morada no coração das famílias. Amém!

*Cleusa Thewes é terapeuta familiar, especialista em orientação familiar.




Fonte: Família Cristã 905 - Mai/2011
Postado por: Família Cristã




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