Em luta contra o crack

Data de publicação: 27/03/2014

Fúlvio Giannella Júnior



Basta passar pela Cracolândia, em São Paulo, para ver o poder destrutivo do crack, o que torna ainda mais necessário o trabalho promovido pelas Igrejas na região

Na região central da capital paulista, existe um território que se assemelha a uma terra de ninguém. Delimitado por uma área de menos de 4 quilômetros quadrados, o local é conhecido como Cracolândia, nome que revela a principal atividade ali desenvolvida. Expostos pela luz do dia ou camuflados pela penumbra noturna, dezenas de seres humanos – que mais parecem mortos-vivos – transitam pelo passeio público na busca compulsiva por um cristal feito a partir de pasta de cocaína e bicarbonato de sódio que, para eles, se transformou na fonte de prazer mais preciosa: uma pedra de crack.

Numa negociação rápida, que pode envolver dinheiro ou qualquer bem que se tenha à mão – até mesmo a roupa do corpo –, os consumidores não esperam muito para inalar a droga. Segundos depois de terem a pedra na mão, já estão aspirando a fumaça desprendida do cristal aquecido em cachimbos improvisados. Fazem tudo às claras, encostados nos muros ou sentados no meio-fio. Boa parte deles é formada por jovens que perderam no vício o vigor e viço juvenil. Esquálidos, maltrapilhos e sujos, sobrevivem apenas da necessidade imediata de obter um modo de comprar outra pedra. “Muitos chegam seminus, pedindo uma peça de roupa, e, quando damos a eles alguma coisa, trocam imediatamente por crack” – afirma Dulce Nardoni Neves, coordenadora do Centro de Integração Social Coração de Jesus, obra salesiana pertencente ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus, que fica encravado no centro da Cracolândia.

Aliás, referir-se a esse pedaço do outrora sofisticado bairro de Campos Elíseos como Cracolândia acaba estigmatizando milhares de famílias que ali moram e que são formadas por gente trabalhadora, que sobrevive, principalmente, como camelô ou diarista em casas de família. Muitos chegaram a São Paulo em busca de melhores condições de vida. “Como aqui ficava ao lado da antiga Rodoviária Júlio Prestes, esses migrantes foram ocupando os antigos casarões do bairro transformados em pensões e cortiços” – explica o padre salesiano Antônio Ramos do Prado, mais conhecido como padre Toninho. Pelo levantamento do Centro de Integração Social, havia ali, no começo de 2010, 44 cortiços nos quais se espremiam 827 famílias.

Derrotas e vitórias – “Procuramos fazer um trabalho preventivo com crianças, adolescentes e jovens, mas não é fácil” – garante Dulce Neves, mesmo porque, no caso das crianças, não há creches suficientes para abrigá-las. “Já muitos adolescentes e jovens estão desempregados e apresentam pouco nível educacional. Nossa luta é abrir mais vagas nas creches e oferecer cursos de supletivo e qualificação profissional para dar a eles alguma possibilidade de se manterem distantes das drogas e da prostituição, que atrai muitas adolescentes em busca de dinheiro” – afirma.

Numa tentativa de unir esforços para enfrentar essa realidade, os salesianos, a Igreja Batista e entidades como a Toca de Assis e a Aliança da Misericórdia, além do poder público, passaram a desenvolver, no início de 2010, uma ação conjunta de abordagem, convencimento do mal causado pelas drogas e encaminhamento dos dependentes para clínicas de tratamento. “Nesse período, conseguimos encaminhar 95 pessoas. Não sabemos, porém, o resultado desse trabalho” – afirma padre Toninho.

O religioso sabe, contudo, que nessa luta as derrotas são mais frequentes que as vitórias. “Há desde moradores de rua até executivos que perderam tudo para o crack. Nossa missão é convencê-los de que existe volta” – pondera padre Toninho.

Basta passar algumas horas na Cracolândia para sentir a dificuldade do trabalho. “Me ajuda porque eu quero sair das drogas e rever meus filhos” – implora Gabriela Fernanda de Paula, de 28 anos. Até ser despejada do cortiço onde morava com os quatro filhos, ela tinha emprego e se mantinha com a ajuda da Igreja. As crianças estavam protegidas na creche, mas este mundo ruiu quando Gabriela se envolveu com o crack. Já morando pelas ruas e sem vínculo familiar, perdeu a guarda das crianças, que foram encaminhadas para a adoção. Na rua, engravidou novamente, mas saiu do hospital sem o bebê, pois não tinha residência fixa nem documentos. “Moço, você não sabe a dor de ter perdido meus filhos” – afirma entre lágrimas. “Sei que não posso cuidar deles, mas tudo o que eu queria é ver eles, mesmo de longe, e saber que estão bem. Moro na rua e só tenho um teto quando faço programa. Aí, posso tomar banho e dormir no hotel” – afirma. Pelo “programa”, Gabriela cobra R$ 10,00.

A esperança de quem atua com esses dependentes só renasce quando se encontram pessoas como Célio Barbosa Batista, de 30 anos. Há pouco mais de um ano, ele também tinha sua vida e seu futuro consumidos pela droga. Hoje, porém, conseguiu sair das ruas, conquistou um emprego e trabalha como voluntário na Cristolândia, projeto desenvolvido pela Igreja Batista entre os consumidores de crack da região. “Cheguei a morar 15 dias na rua por conta do meu vício, mas um dia, vendo a que ponto degradante eu tinha chegado e olhando o que ocorria à minha volta, resolvi buscar ajuda. Agora quero ajudar outros a abandonar esse inferno” – garante.




Fonte: Família Cristã 902 - Fev/2011
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Um gigante no sertão
Estátua dedicada a padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE), completa meio
Um olhar que viu
Tatiana Belinky, nome importante no mundo da literatura no Brasil, celebra centenário de nascimento.
Marco Frisina no Brasil
O Brasil recebeu a visita do Monsenhor Marco Frisina, compositor e Maestro de música Sacra
Os doze profetas que encantam
As esculturas de Aleijadinho, em Congonhas do Campo (MG), fazem parte do maior museu a céu aberto
Arte e natureza
Visitantes têm experiências múltiplas em um dos maiores centros de arte contemporânea a céu aberto do mundo
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados