A Igreja doméstica

Data de publicação: 01/04/2014

Samuel Wilder Jr.
Fotos: Jesus Carlos / Imagem Latina



As razões do mundo podem impor a regra do filho único, mas é possível ir contra, desde que exista desapego e o abrir mão de certos confortos

Em 1940, a taxa de fecundidade no Brasil era de 6,2 filhos por mulher. Subiu para 6,3 em 1960 e a partir daí, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), começou a cair: 5,8 em 1970; 4,4 em 1980; 2,9 em 1991; e 2,3 em 2000. Em 2009, já estava abaixo do mínimo necessário - 2,1 filhos - para repor os brasileiros que morriam: 1,8 filho. A prosseguir a queda, a população parará de crescer em 2030. Ou antes, pois as projeções podem ser revistas. Em 1970, por exemplo, era certo que o Brasil chegaria aos anos 2000 com 200 milhões de pessoas, mas acabou chegando lá com 170 milhões. Hoje, calcula-se, o País terá esse contingente em 2020. Antes, porém, já sentirá os efeitos do seu envelhecimento populacional, pois precisará de pesados investimentos na saúde e na previdência.

Só a China teve redução tão veloz e em igual intensidade, mas nela há um controle oficial da natalidade. Na falta desse rigor sobram aqui razões indiretas para reduzir as proles: ingresso da mulher no mercado de trabalho, garantia de rendimento previdenciário (as pessoas deixam de ter filhos para garantir seu sustento), a urbanização (não se gera mais filhos para aumentar a força de trabalho no campo) e, claro, a popularização dos contraceptivos. Estima-se que pelo menos 80% das mulheres em idade fértil façam uso deles. Outra razão é o País ser campeão mundial na realização de partos cesarianos. A cirurgia facilita a laqueadura, esterilização feminina caracterizada pelo corte das tubas uterinas.

Condições - O que, sem dúvida, mais influencia o reduzido número de filhos é o fator econômico. Em um mundo regido pelo capitalismo financeiro, há estudos sobre quanto custa um filho até chegar à universidade. Uma família de classe média desembolsaria de 300 mil a 1 milhão de reais. Um casal em início de vida pode pensar que, em comparação com um filho, o mercado financeiro oferece investimentos com mais rentabilidade, segurança e liquidez. De fato, com essa soma, ao longo de 20 ou 30 anos, pode-se amealhar uma pequena fortuna ou, como se diz hoje, "chegar ao primeiro milhão". Acontece, porém, que quando se fala de gente, medidas e valores seguem - ou deveriam seguir - outro raciocínio. Filho não é um produto a ser avaliado entre lucros ou prejuízos.
 
"A lógica do mercado não pode ser a mesma dos seres humanos. As pessoas costumam pensar: meus avôs tiveram cinco, seis, sete filhos e hoje isso é impossível, pois as condições não permitem. Para nós, no entanto, está mais fácil, pois as condições tecnológicas são melhores hoje do que antigamente. O problema é que as pessoas não querem abrir mão de seu conforto" - argumenta o jornalista e radialista Alex Müller, 36 anos, pai de João Guilherme, 11 anos; Maria Eduarda, 10; Marcos Evair, 7; Maria Clara, 5; João Paulo, 4; e Marcos Bento, 2. "Sempre disse ao Alex que queria ter muitos filhos. Ele concordou e estamos obedecendo ao modelo familiar que planejamos. Não porque somos irresponsáveis, vaidosos ou alienados, mas porque os filhos, para nós, são uma dádiva" - afirma Maria Jocelina de Azevedo Pires, 34 anos, que exerceu a profissão de enfermeira até o nascimento de Marcos Bento.
 
Recompensas - A prova que o casal está consciente de seus atos é que nenhum dos dois nega: a opção que tomaram não é fácil de ser seguida. "Não maquiamos a realidade. É difícil formar e criar, dentro de valores éticos e cristãos, uma grande família" - afirma Alex. De fato, com crianças pequenas e ainda dependentes dos cuidados da mãe, que não trabalha fora, o superpai precisa ir à lida. Além do salário de repórter esportivo na Rádio Bandeirantes, ele tem alguns extras com o seu blog, apresentando programas de rádio e fazendo a locução de eventos organizados por uma entidade que promove corridas de rua. Em razão de tudo isso, trabalha até uma da madrugada e está de pé antes das 6 da manhã. Ajuda o fato de que alguns trabalhos podem ser feitos em casa e, com isso, ele não é um pai ausente. Ao contrário, participa muito da formação dos filhos. É ele, por exemplo, quem põe as crianças para dormir, porque a mãe, às vezes, "desmaia" antes.

A contrapartida desse trabalho, segundo Maria Jocelina e Alex, tem recompensas que cobrem, com folga, eventuais noites maldormidas. "A alegria de viver em família é apenas uma delas, e os próprios filhos já valorizam isso. A Maria Eduarda mesmo estuda em uma classe onde as meninas, na maioria, são filhas únicas e muitas têm os pais separados. Ela já percebeu que muitas dessas colegas não sabem dividir e muito menos entendem o que é o amor de uma família. Da minha parte, não sei o que eu seria e onde estaria se não fosse a família que tenho" - reconhece Alex. "Não imagino, do fundo do meu coração, a existência de uma felicidade maior. As alegrias, dentro de nossa casa, são sutis, profundas e intensas" - completa Maria Jocelina.
 
Reconforto - Esses valores advêm fundamentalmente de Maria Jocelina, vinda de uma família com 11 filhos e pais extremamente católicos. "No começo, Alex ia às missas comigo para me agradar. Com o tempo, porém, ele acabou tocado pela experiência de conhecer Jesus" - recorda Maria Jocelina. E como! Em companhia de outro casal (Benedicto Gattolini e Maria Leonor de Azevedo Pires, irmã de Maria Jocelina), Alex e sua esposa fundaram a comunidade Famílias Novas, cujo carisma é formar Igrejas domésticas, conforme pregava o papa João Paulo II, na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, que fala do papel da família na sociedade moderna. O movimento reúne mais de 50 famílias e 200 seguidores.
 
A prova do engajamento de Maria Jocelina e Alex está no site do movimento. Ao clicar na opção Liturgia do Dia, o internauta poderá ouvir as leituras litúrgicas do dia (primeira leitura, salmo e Evangelho) na locução de Alex Müller, que é receptivo, assim como sua esposa, à ideia de terem mais filhos. "Já poderiam ser sete, se eu não tivesse, infelizmente, perdido uma gravidez" - lamenta Maria Jocelina. No caso dela e de seu marido, porém, a fé também serve para reconfortar. "Temos alguém lá em cima orando pela gente" - aponta Alex.





Fonte: Família Cristã 910 - Out/2011
Postado por: Família Cristã




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