A fiel perplexidade da fé

Data de publicação: 15/04/2014

Nayá Fernandes e Sergio Ricciuto


Teólogo, marido e pai, Vito Mancuso, autor do livro Eu e Deus aponta um caminho de busca honesta para crer e viver a fé com autenticidade

“Bene, adesso mi vado a sedere.” Exatamente assim, dizendo que iria se sentar, Vito Mancuso pelo telefone começou a entrevista. Ele representa uma das vozes mais significativas e críticas da teologia contemporânea católica. “Karl Barth, teólogo cristão-protestante, dizia que o teólogo deve ter em uma mão a Bíblia e, na outra, o jornal”, emendou Mancuso, filho espiritual do cardeal Carlo Maria Martini, Jesuíta que, por três vezes quase chegou ao papado. Teve como mestres o cardeal Gianfranco Ravasi, o escritor Pierângelo Sequeri e o arcebispo de Chieti-Vasto, Bruno Forte, entre outros. É colunista no jornal La Repubblica, leciona na Universidade de Pádua e tem diversos livros publicados, o mais recente Eu e Deus, publicado pela Paulinas Editora. Para Mancuso, a teologia deve ser a contínua tradução, no sentido de transportar o patrimônio doutrinal aos dias de hoje, à contemporaneidade. “Passo o meu dia estudando e vivendo o que o Concílio Vaticano II chama de alegrias, dores, esperanças e expectativas da humanidade.”

FC – Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre Deus?
Vito Mancuso – Queria prestar contas da fé que tenho desde criança, pois sempre acreditei em Deus. Assim a desenvolvi até fundamentá-la com este livro para verificar se ter fé é uma atitude sensata, vital e responsável. Para fazer isso, além de raciocinar sobre mim mesmo, refleti sobre o mundo, sobre a fé dos demais e a maneira com a qual eles a fundamentam. A linguagem é uma das manifestações da natureza na qual estamos inseridos. O fato de que seja possível falar da matéria e, por meio desta fala, se possa compreendê-la, leva a colocar perguntas que ajudam a entender o mistério da realidade deste mundo e, por isso, o mistério de Deus.

FC – O subtítulo de Eu e Deus é Um Guia para os Perplexos. Aonde ele nos leva, há beleza ou perigo a descobrir?
Vito Mancuso – O subtítulo descreve a condição da mente contemporânea, que está perplexa: não quer negar, mas também não consegue afirmar a verdade sobre Deus, da mesma maneira que se fazia no passado. E, por isso, cai num estado de perplexidade.Sobre os perigos e belezas, todas as viagens, na medida em que são aventuras, possuem as duas realidades. Não se pode descobrir nada de novo sem correr o risco do perigo. Quem pensa que pode evitar o perigo acaba andando nos caminhos já percorridos por outros. Sou consciente de que certas posições do livro são perigosas para alguns e inaceitáveis para outros. Mas é a condição essencial para descobrir o novo, que é a única cura para a perplexidade contemporânea.

FC – É possível provar que tipo de fé se vive?
Vito Mancuso – Para Jesus, uma árvore se reconhece pelos frutos, e a mim parece que esta perspectiva seja a mais plausível. Trata-se de fazer aquilo que se chama exame de consciência. Verificar se as próprias convicções teóricas são acompanhadas de atitudes concretas. A profissão de fé é uma atitude teórica. Dizer “Eu creio em Deus” é algo teórico e funciona, mas obviamente depois é necessário buscar um respaldo concreto que mostre a qualidade da vida. Se a vida floresce, se é mais serena, se aumenta a busca de verdade, de justiça... E, ousaria dizer, se as pessoas ao nosso redor são felizes de estar conosco. Se conseguimos ser causa de alegria e luz para os outros.

FC – Considerado um dos fundadores da Teologia da Libertação (TL), o sacerdote peruano Gustavo Gutierrez foi convidado, recentemente, para falar sobre a TL no Vaticano. Como o senhor considerou isso?
Vito Mancuso – Parece-me que a Teologia da Libertação entrou na oficialidade da Igreja. Isso aconteceu um pouco tarde, infelizmente. Mas ainda bem que agora se tornou imprescindível. Se quisermos avaliar o quanto ela é atual, basta olharmos o mundo. Será que os motivos que fizeram surgir a Teologia da Libertação com a publicação de Gutierrez, em 1971, desapareceram? As circunstâncias pelas quais a Teologia da Libertação pôs as denúncias foram resolvidas? Parece-me que não: exploração, má distribuição das riquezas, fome e pobreza estão presentes. São problemas ainda não resolvidos. Por isso é tarefa dos cristãos produzir práxis ou ações concretas, caminhos e ideias de libertação. A situação do planeta está embaixo do olhar de todos, e o magistério do papa Francisco confirma isso.

FC – Que balanço o senhor faz do primeiro ano de pontificado de Francisco?
Vito Mancuso – Melhor seria difícil. Se fosse um exame universitário, ele conseguiria o máximo da nota, com louvor. Ao pensarmos em como estava a Igreja no ano passado, sob desconfiança, frieza, hostilidades e carreirismo, e se pensarmos o que a Igreja é hoje... Não que esses problemas estejam completamente resolvidos, mas se respira um ar novo de confiança, renovação e possibilidade de falar livremente. Tudo isso é mérito do papa Francisco. E não somente entre os católicos, mas no mundo inteiro, é um fenômeno evidente.

FC – No 1º Domingo da Quaresma, o papa falou de Satanás. Como o senhor interpretou?
Vito Mancuso – Ele sempre teve uma atenção às questões mais populares do patrimônio doutrinal. Não é inoportuno. Não quero um papa à minha imagem, que confirma minhas expectativas ou dos teólogos às quais me agradam. Seria um erro. Um papa tem que ser de todos, a síntese em que as diferentes expressões se encontrem. É justo que ele tenha também tons mais tradicionais porque na Igreja deve haver espaço para todos. Uma coisa que reprovava no pontificado de João Paulo II e no de Bento XVI era a dureza com as pessoas ligadas à Teologia da Libertação. De ter contrastado bispos e padres como dom Oscar Romero e dom Helder Câmara, que merecem ser canonizados. Por isso, temo que podemos correr o risco de cair no mesmo erro se ficarmos intransigentes com as formas populares e mais tradicionais da religião. O papa deve ter os braços e o coração abertos para acolher a todos, na medida em que se trate de expressões autênticas. É necessário dureza com escândalos e fanatismos, claro, mas, no que se refere às diferenças em questões como oração, sensibilidade, espiritualidade, pensamento teológico, tem que haver espaço para todos.

FC – O papa crê que a família seja a principal e primeira construtora da sociedade. E o senhor?
Vito Mancuso – É verdade. Desde que se conhece a civilização ela é a primeira e principal, mas hoje é necessário dizer que não é a única. Existem muitos modelos de vida em comum perante os quais a Igreja precisa dar espaço e mostrar acolhida, flexibilidade mental e capacidade de renovação. É preciso sopesar a importância do modelo tradicional, que, aliás, é o que eu desejaria para todo ser humano. Nascer e crescer num núcleo onde pai e mãe se respeitam na fidelidade e na completude, querendo-se bem! Mas a Igreja precisa considerar que existem outros modelos, sem excomungar ninguém ou pretender que todos tenham o pensamento igual ao dela.

FC – No próximo Sínodo dos Bispos, o senhor espera mudanças em questões como o aspecto de pais separados ou solteiros, famílias expandidas, casamentos sem filhos, união entre pessoas do mesmo sexo etc?
Vito Mancuso – Não penso que entrar nessas especificidades seja a tarefa do Sínodo. Eu espero três coisas que me parecem necessárias: a primeira é a práxis sacramental dos divorciados em segunda união. Quem se casou mais de uma vez, depois de um casamento falido, e começou uma nova vida, uma nova família, e quer manter uma vida de fé e ter acesso aos sacramentos, o possa fazê-lo. Que possa ser acolhido mesmo tendo um casamento falido! Eu não falo de pecado, porque divórcio não é pecado. O adultério é pecado, mas o divórcio é uma falência. A segunda é a inconsistência da Humanae Vitae, ou seja, o conteúdo da encíclica de Paulo VI sobre o controle de natalidade não se sustenta. Hoje é baixíssima a percentagem de casais que observam a moral da Humanae Vitae praticando o método natural para evitar gravidez. É necessário parar com essa hipocrisia: essa é a moral e depois na confissão tudo é perdoado. Ou a moral entra na vida concreta das pessoas ou não é moral! Moral vem de mos-moris, modo de viver, costume. Trata-se de convencer que aquelas ideias não funcionam, de legitimar os contraceptivos.

FC – Esses serão temas obrigatórios?
Vito Mancuso – Se o Sínodo não tocar nessas questões será uma derrota, com maior razão nesta época de aberturas, no clima de Francisco. Se esses entusiasmos acerca do papa e das mudanças de perspectivas não levarem a nada, poderíamos correr o risco que resultem em um boomerang, algo que volte atrás, causando uma grande ruptura. Precisa ir em frente e construir o novo sobre essas questões familiares e também no que se refere à realidade dos homossexuais! Não é necessário falar de matrimônio, pois não seria politicamente oportuno, criaria fortes divisões no interno da Igreja. Trata-se de analisar a realidade e começar a dizer que, quando uma pessoa nasce com esta predisposição, isso não significa dizer que é doente, pois a homossexualidade não é uma doença.

FC – Como o senhor vive a sua fé no dia a dia de teólogo, marido e pai?
Vito Mancuso – Há algum tempo comecei uma prática de meditação cristã-budista que me foi ensinada por um frei capuchinho suíço. E, quanto mais passa o tempo, sinto a exigência de uma vida contemplativa mais intensa. Assim, saboreio os momentos de oração no começo e no fim do dia em que as palavras e as fórmulas são substituídas pelo silêncio e a participação de todo o ser! Trata-se não de dizer orações, mas de ser oração, de ficar como um pequeno pedaço de ser orante. Isso em um nível pessoal. Depois, participo da missa aos domingos. Às vezes, consigo ir com meus filhos, outras vezes não, sofrendo o drama de muitos pais que tentam educar na fé os filhos, com  espírito de liberdade e não de imposição.




Fonte: Família Cristã 940 - Abr/2014
Postado por: Família Cristã




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