Com a história na mão

Data de publicação: 19/04/2014

Irene Paz

Agora, os povos indígenas contam a história com suas palavras e têm um modo próprio de vivenciar a fé cristã. É apenas um outro rosto da Igreja

Consta na certidão de nascimento do Brasil, a carta datada de 1º de maio de 1500 redigida pelo escrivão Pero Vaz de Caminha, tripulante da esquadra de Pedro Álvares Cabral, e remetida ao rei de Portugal, dom Manuel 1º: “Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos à pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço”. Caminha se refere à missa celebrada pelo franciscano Henrique Soares de Coimbra, a primeira nessas terras, em 26 de abril daquele ano, um 2º Domingo da Páscoa, na Praia da Coroa Vermelha, em Porto Seguro, litoral sul da Bahia, e à presença de indígenas – cerca de 200 –, provavelmente tupiniquins da família linguística tupi-guarani. Uma versão pictórica, e piedosa, da cena está em A Primeira Missa no Brasil, tela de 1860 do catarinense Victor Meireles.

A história entre a população indígena do País e a Igreja de Roma surgiu assim, à beira-mar, e ainda tem muito a ser aprofundada. Como prova a canonização recente do jesuíta José de Anchieta, que, no século 16, catequizava indígenas e aprendia deles lições da fauna, flora e o idioma – ele foi o primeiro a sistematizar a gramática tupi-guarani. Anchieta defendeu os indígenas dos abusos dos europeus e foi seguido pelo padre e orador Antônio Vieira, que chegou a ser expulso do País devido à veemência de suas acusações de maus-tratos dispensados aos índios. A relação entre Igreja e a gente da terra ainda é grifada pela miscigenação que, em alguns casos, resultou em famílias caboclas – de europeus e indígenas – influentes. Em 1905, o primeiro cardeal da América do Sul, e não só do Brasil, foi Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, descendente do administrador colonial Jerônimo de Albuquerque e da indígena Tabira ou M’Uirá Ubi. Filha do cacique Uirá Ubi (arco verde, em português), ela mais tarde foi batizada como Maria do Espírito Santo Arcoverde.

Outra versão – A diferença entre essa história passada e a contemporânea é que, de tempos para cá, os acontecimentos podem ser contados através de outro olhar que não apenas o de quem impôs sua cultura e seu estilo de vida. Pois, à medida que não só os colonizadores aprenderam as línguas dos povos indígenas brasileiros e, principalmente, esses últimos tiveram a oportunidade de ser alfabetizados na língua dos colonizadores e de aprofundar os estudos nas ciências inventadas por esses, eles também puderam contar ao mundo dito civilizado as suas histórias com as próprias palavras, de modo que, principalmente, a sociedade não formada por indígenas tomasse conhecimento, sem tradução nem dublagem, de suas mitologias, tradições e sabedorias. Enfim, de outras versões. É o que ocorre hoje quando vemos – não tanto como seria o ideal, é verdade – indígenas assumindo papéis de protagonista na sociedade. Na Igreja mesmo, os índios não se contentam mais em entrar nos quadros como figurantes.

Há um pouco de frei Soares de Coimbra no jovem Reginaldo Cordeiro, de 32 anos, professor de Missiologia do Instituto de Teologia Pastoral e Ensino Superior da Amazônia, em Manaus. Mas há também muito dos Arapaso, etnia pertencente à família linguística dos Tucano. Há quatro anos, Reginaldo, cujo nome segundo a tradição ritual do benzimento de seu povo é Pirõkuhtiró, tornou-se sacerdote salesiano. “Fiz a opção nos anos 1990, quando ouvi falarem do Centro de Formação Indígena de Iauareté, povoado localizado na Terra Indígena Alto Rio Negro, no município de São Gabriel da Cachoeira, noroeste do Amazonas. Foi quando tivemos as primeiras ordenações indígenas na região, o que me motivou a fazer uma experiência vocacional”, recorda. Mas como acontece em muitas famílias, indígenas ou não, nem sempre a opção religiosa dos filhos é aceita pelos pais em um primeiro momento. “Eu os convenci ao afirmar que uma vocação ajudaria nas celebrações locais que seriam feitas em nossa língua. Como, de fato, é hoje”, diz o sacerdote.

Voltar de novo – Sacerdote sem renunciar à sua cultura, Reginaldo tem a companhia de outros que trilham a mesma caminhada ou a seguiram antes dele, inclusive passando por percalços em razão disso. Com 53 anos, o padre Justino Sarmento Rezende, nascido na aldeia de Nossa Senhora da Assunção, no distrito de Pari-Cachoeira, em São Gabriel da Cachoeira, e originário do povo Tuyuca, admite que uma das dificuldades sentidas ao ingressar no Seminário, ainda adolescente, foi não ter encontrado tanto a companhia de gente de sua natureza. “Apesar de educado como cristão, ao chegar a Manaus tive dificuldades nos estudos e no relacionamento com jovens não indígenas, afinal mal falava a língua portuguesa. A verdade é que saí de uma aldeia para viver em um colégio cheio de disciplinas que não tinha em família. Mas fui superando tudo com apoio dos colegas. A orientação vocacional também ajudou, assim como os formadores que me acompanharam nos primeiros anos. Eles foram amigos e me encorajavam”, recorda.

Hoje, diretor de uma comunidade salesiana em um povoado Yanomami, no Rio Marauiá, município de Santa Isabel do Rio Negro (AM), padre Justino lembra que precisou dobrar a família para assumir sua vocação. Seus avós eram mestres de danças, cerimônias e rituais dos Tuyuka, e ele havia sido preparado para seguir essa tradição. “Meu avô me disse que ser padre era próprio do homem branco e que a mim ele tinha benzido para ser como ele, mestre de danças e ritos, um benzedor. Minha mãe também não entendia, mas meu pai, catequista, disse que, se era isso mesmo que eu queria, teria que viver como os padres. E que, se não desse certo, eu poderia voltar”, afirma. Mas deu, e se Justino voltou – muitas vezes – foi como sacerdote. É claro que ele não se arrepende da opção nem de muita coisa que veio depois, como ter feito mestrado em Educação Indígena e trabalhar, atualmente, com alunos dos Ensinos Fundamental e Médio. “Minha vida de sacerdote talvez tenha motivado o surgimento de mais vocações indígenas entre os jovens”, acredita.

Respeito é bom – “Os jovens indígenas de hoje se aproveitam bem da nossa experiência de adaptação à cultura do homem branco, coisa que não tínhamos como fazer em nossa juventude por falta de referências. Agora eles chegam à cidade para estudar em grupo e não sozinhos, como nós tivemos que fazer, e isso os torna mais fortes e facilita o entrosamento deles com o meio, assim como o contato com um outro estilo de vida”, confirma o sacerdote Aquilino Tseré, 52 anos, vigário da Paróquia Itinerante de São Domingos Sávio, em Nova Xavantina (MT), a 650 quilômetros de Campo Grande. Primeiro sacerdote da etnia Xavante de Mato Grosso, padre Aquilino atende a mais de 150 aldeias da região e, pelo menos uma vez por mês, preside missa, em sua língua xavante, na aldeia de Mãraiwatsédé, localizada entre os municípios de São Félix do Araguaia e Alto da Boa Vista, onde sua família vive, e que só recentemente, por força da lei, teve seu território de 165 mil hectares devolvido aos primeiros e legítimos donos da terra.

Tendo como referência vocações bem-sucedidas, os jovens indígenas se animam mesmo a dizer sim. O segredo, na verdade já mais do que conhecido, está em não se fechar às evidências e entender a Igreja como “um povo com muitos rostos”, como diz o papa Francisco e gosta de repetir dom Edson Damian, bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, onde 90% da população é formada por indígenas. “Pela inculturação, a Igreja introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade, porque cada cultura oferece formas e valores positivos que podem enriquecer o modo como o Evangelho é pregado, compreendido e vivido. À luz desses princípios, aprendemos a respeitar e promover os valores dos povos tradicionais”, afirma o bispo, em cuja diocese, falando-se sempre de indígenas, há seis padres salesianos, dois diocesanos, um capuchinho, dez irmãs Filhas de Maria Auxiliadora e uma catequista franciscana. Ali, tanto moças e rapazes recebem atenção de uma pastoral conjunta entre padres e irmãs. Apenas entre os rapazes há seis seminaristas indígenas que estudam Filosofia e Teologia no Seminário de Manaus.

Diversidade – Nem por isso há quem se iluda com os grandes desafios e dificuldades locais. Aproximadamente 95% da população da Igreja da região do Alto Rio Negro, onde se localiza São Gabriel da Cachoeira, é constituída por povos indígenas pertencentes a 23 etnias. Ali ainda são faladas nada menos do que 18 línguas diferentes. O município, aliás, é o único do País que possui, oficialmente, três línguas oficiais além do português: o baniwa, o tukano e o nheengatu, também chamada de língua geral. Na prática, entretanto, a realidade é que, como essas línguas não são ensinadas nas escolas, elas vão sendo esquecidas pela população, e as novas gerações relegam o interesse na aprendizagem da língua materna dando preferência ao português. “É um patrimônio cultural que, infelizmente, vamos perdendo aos poucos. A globalização massificante impossibilita a diversidade linguística, enquanto dificilmente se encontrará no Brasil outro cenário linguístico-cultural mais surpreendente e fascinante”, comenta dom Edson.

O que complica um pouco mais a história é o fato de essas línguas normalmente serem ágrafas ou desprovidas de escrita. No que, entretanto, depender dos sacerdotes indígenas que presidem missas e ouvem confissões junto aos seus povos nas línguas tradicionais, a diversidade linguística tende a ser mantida. “Com os Xavante, chegamos a ponto de incentivarmos a produção de uma análise sistemática da língua que acabou sendo produzida por eles mesmos, beneficiando não só a cultura como, principalmente, a preservação da língua. Da mesma forma, isso facilitou, para eles, o desafio de aprender outras línguas, como o português do Brasil”, afirma o padre Georg Lachnitt, delegado da Missão Salesiana em Mato Grosso e que desde 1987 desenvolve na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), de Campo Grande, uma pesquisa para produção de dicionários e gramática xavantes e, ainda, a publicação de material didático em língua nativa para escolas indígenas.

Mestres e aprendizes – Alguns objetivos de iniciativas como essa é fazer o indígena ter orgulho da própria língua, de sua origem, e fortalecer suas tradições para resistirem às investidas a uma cultura de massa que a tudo revisa e achata. Os sacerdotes indígenas já entenderam. “Quando volto à minha aldeia, não deixo de ser sacerdote, mas também não deixo de participar das festas tradicionais. Creio que seja um exemplo para os jovens”, diz o padre Aquilino. “Quando estou com meus familiares, renovo minha pertença ao grupo, recebo os benzimentos de proteção das doenças, participo de rituais e cerimônias, ouço as sabedorias dos velhos, participo das danças. É momento de revitalização da minha identidade Utãpinopona Tuyuka. São esses saberes que sustentam minhas jornadas”, completa o salesiano Justino. “Sempre mantive contato com o meu povo, pois as religiões ocidentais devem respeitar as diferenças culturais. Uma religião que se coloca dentro do parâmetro da ‘evangelização dos povos indígenas’ deve ser aberta para conhecer, acolher e amar. Não só levar, mas descobrir. Não só dar, mas receber. Não conquistar, mas partilhar. Não ser só mestre, mas aprendiz. Só assim criaremos novos laços com as culturas, um novo jeito de olhar a vida, um novo jeito de ser Igreja”, arremata o jovem Reginaldo.


 





Fonte: Família Cristã 940 - Abr/2014
Postado por: Família Cristã




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