Família menor

Data de publicação: 04/06/2014

Esmeralda Bonito

O pai, chefe da família, a mãe, do lar, e muitos filhos correndo pela casa, esse era o retrato da família há algumas décadas. Hoje, o formato é outro, as famílias estão menores e mais diversificadas.

"Uma mulher que eu não conhecia” − assim se define Silviana Lopes de Moraes, de 43 anos, que é chefe de família. Não foi uma opção, mas uma imposição da vida. Há 16 anos, ela e o marido, Florival de Moraes, montaram o Flo, um gracioso trailer de salgados e lanches, bem localizado no centro de Marília, cidade do interior paulista. O marido cuidava de tudo, desde as compras da casa, ao abastecimento e vendas no trailer. Ela ficava o dia todo, em casa, fazendo os salgados e cuidando dos filhos. Não lidava com o dinheiro, não fazia compras, não dirigia, não conhecia nenhum cliente do comércio. Mas, há cinco anos, perdeu o marido, repentinamente, para uma doença grave. “O mundo havia acabado e eu não via saída” − lembra. Vieram as contas do carro financiado, do trailer, do sustento dos filhos e o medo da depressão. “Não tive escolha. Na outra semana, tinha de trabalhar no trailer. Não podia abandonar tudo” – conta. E de uma situação muito sofrida, surgiu uma outra mulher, que venceu o medo e a insegurança.

Silviana, com dificuldade, continuou a tocar a vida sozinha. Fazia os salgados à noite e, de dia, ia para o trailer. Aprendeu a fazer compras, a lidar com as contas, a ir ao banco, a atender e dar o troco certo para os clientes, a negociar com fornecedores. Conseguiu pagar o carro e aprendeu a dirigir. Criou Iara, hoje com 16 anos, e Ian, com 18, filhos responsáveis que já ajudam a mãe. “Acho que a força que eu tive e tenho vem, primeiramente de Deus, e depois de mim mesma. Eu não me conhecia nem sabia que dentro de mim havia a heroína que sou” − afirma, sorridente, uma nova Silviana. “Consegui sair do aperto financeiro e a situação está equilibrada. Agora, penso na educação dos meus filhos, ter a minha casa e o meu carro. E muita saúde para trabalhar.”

Famílias diferentes – O pai, chefe da família, a mãe, do lar, e muitos filhos correndo pela casa. Esse era o retrato comum da família há algumas décadas. Hoje, o formato é outro. O Censo de 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 57 milhões de domicílios, divulgado em novembro, revela uma população de 190 milhões de brasileiros, distribuídos em famílias menores e mais diversificadas.

No Censo de 2000, por exemplo, a média de filhos por mulher era 2,38 e, em 2010, caiu para 1,86, queda registrada em todas as regiões do Brasil. “A redução da taxa de fecundidade é uma tendência observada desde a década de 60 e influenciada por vários fatores, como a disseminação de métodos contraceptivos e a entrada da mulher no mercado de trabalho” − explica Bárbara Cobo, técnica do IBGE. Segundo ela, trata-se de um fenômeno que ocorre à medida que o País se desenvolve e as mulheres ficam mais escolarizadas. Ela lembra que as mulheres não querem mais fazer a escolha entre estar no mercado de trabalho ou criar os filhos. “Elas acreditam que dá para conciliar as duas coisas” − avalia a técnica do IBGE. Porém, tais modificações, exigidas pelo modo de viver de uma sociedade globalizada, não passam sem deixar fortes marcas.

Ser família − Dom João Carlos Petrini, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), lembra que o mundo do trabalho deverá absorver cada vez mais homens e mulheres que passarão a ter menos tempo para conviver com seus filhos. “A realização profissional e o maior acesso ao consumo representam conquistas que, no entanto, condicionam as pessoas a privilegiar o trabalho e a reduzir aspectos importantes de sua existência, como a alegria de partilhar a vida em família e a felicidade de gerar e de acompanhar, dia a dia, o desenvolvimento dos filhos” − lamenta. O teólogo padre Rinaldo Roberto de Rezende, especializado em família e matrimônio, ressalta que a Igreja não nega o fato de que vivemos uma mudança de época que exige posturas diferentes. “Ao mesmo tempo, defendemos a vida e precisamos animar os casais a não se fecharem para os filhos e a pensarem na paternidade e na maternidade responsáveis” − assinala. “Não podemos perder de vista a abertura para a vida, que deve ser gerada de uma forma responsável” − conclui, lembrando de uma frase do papa João Paulo II: “O futuro da humanidade passa pela família e o futuro da família passa pelo casal”.

Entre diversos dados que mostram as transformações das famílias, o Censo de 2010 indicou que, a maioria dos lares (61,3%), o chefe ainda é o homem. Mas, demonstra que, em dez anos, vem crescendo o número de mulheres que assumem este papel: hoje, 38,7% das asas são lideradas por mulheres, diferente do que acontecia há dez anos, quando esse percentual era de 27%. São viúvas, separadas, divorciadas e inclusive mães solteiras, mulheres que trabalham muito para criar os filhos sozinhas.

Para Dom João Petrini, no entanto, as mulheres conquistaram seu espaço e mostraram que são capazes de prover a sua família, a um preço muito alto. “É uma carga muito pesada sobre a mulher, de modo especial, sobre as mulheres que são chefes de família e devem cuidar do trabalho, dos filhos e da casa, numa jornada de trabalho quase sempre dupla e muitas vezes chegando a ser tripla” − comenta ele. “É necessário encontrar outras formas de cooperação entre o homem e a mulher que garantam a igualdade entre os sexos, mas que proporcionem acolhimento, amor gratuito, dedicação recíproca, sincera e fiel.”

Padre Rinaldo lembra que as mulheres que fazem o papel de pai e mãe merecem o respeito de toda a Igreja. “Vemos aí a força e a beleza da mulher e ela transmite à sociedade que é o esteio da família, mas, ao mesmo tempo, fica uma lacuna na vida dos filhos: a figura masculina dos pais.” Ele ressalta que esta situação é um desafio para a Igreja. “Precisamos trabalhar com essas famílias, procurando de alguma maneira suprir suas carências” − explica. E acrescenta: “É preciso animar os casais na vocação matrimonial”. Sobre as mães que não se casaram, padre Rinaldo faz outra avaliação: “Como todos, devem ser acolhidas pela Igreja. São mulheres que não se casaram, mas preferiram dar a vida aos seus filhos a abortar, vivenciando o Evangelho. E por isso o respeito a elas deve ser enorme e suas crianças devem ser acolhidas nos sacramentos, com muito carinho” − sublinha. São mulheres que cumpriram em essência o que a Igreja pede: a defesa da vida.




Fonte: Família Cristã 913 - Jan/2012
Postado por: Família Cristã




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