Amor maduro

Data de publicação: 17/06/2014

Rosângela Barboza



Mesmo ainda visto com certo preconceito, o casamento depois dos 60 anos é cada vez mais comum e, para muitos casais, representa uma renovação em suas vidas.

Elsa é uma senhora muito alegre e comunicativa que chegou aos 80 anos. Já Alfredo, também na faixa dos 80, é um senhor encantador, mas hipocondríaco, que prefere viver isolado, imerso nas lembranças de sua falecida esposa. Tudo começa a se modificar quando Alfredo – que todos conhecem por Fred – se torna vizinho de Elsa. Esta finalmente consegue tirá-lo de sua melancolia e os dois passam a compartilhar uma felicidade que para muitos pode parecer impossível nessa altura da vida. Esse é o enredo do filme argentino Elsa & Fred: Um amor de paixão, de 2005 e disponível em DVD. Dirigida por Marcos Carnevale, a película retrata a velhice e seus muitos dilemas. É ficção, mas bem próxima da realidade. Afinal, não são poucos aqueles que chegam à chamada terceira idade sem ter um companheiro ou companheira ao lado. No entanto, vem crescendo também o número de pessoas viúvas, divorciadas ou mesmo solteiras que seguem os passos de Elsa e Fred, mostrando que nunca é tarde para amar.

Um levantamento recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revela que, desde 2003, o número de casamentos oficializados em cartórios entre pessoas da terceira idade cresceu 44%, enquanto entre a população em geral esse aumento foi de 28%. Uma das causas para tantos casamentos nessa faixa etária é o salto da expectativa de vida dos brasileiros: atualmente de 70 anos para os homens e de 77 para as mulheres. Não só se vive mais, como também se vive melhor, graças aos avanços da medicina e às constantes orientações sobre a necessidade de exercícios físicos e boa alimentação para conquistar um estilo de vida mais saudável.

Afetividade e saúde – Outro dado interessante é que são os homens sozinhos aqueles que mais procuram o casamento depois dos 60 anos. “Os homens idosos, quando perdem suas esposas, acabam ficando fragilizados e dependentes e isso os faz se casarem com mais frequência do que as mulheres, inclusive com companheiras mais jovens” – lembra o geriatra Maurício de Miranda Ventura, membro da Seção São Paulo da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Se até algumas décadas atrás a viuvez “encerrava” a vida a dois, hoje homens e mulheres sexagenários mostram que ainda querem ter seus companheiros, mudando antigos conceitos sobre a terceira idade.

Para o psicólogo Thiago de Almeida, especialista em relacionamentos amorosos, a sociedade continua acreditando que o amor seja privilégio somente dos jovens e das pessoas que gozam de boa saúde física. “Há famílias que não apoiam o namoro ou o casamento de seus parentes idosos, pois ainda acreditam naquela figura ultrapassada do ‘velho fogoso’ ou da ‘viúva alegre’” – ressalta. Por isso, segundo o psicólogo, muitos idosos se sentem impedidos de falar com os familiares sobre seus relacionamentos amorosos. Não é só o companheirismo que traz mais cor à vida desses idosos. Na verdade, tais relações costumam ser mais tranquilas do que as paixões vividas na adolescência.

No entanto, há questões que não devem ser ignoradas. “A afetividade deve existir, mas existem outros interesses” – ressalta dr. Maurício Ventura. Se o casamento em qualquer época da vida faz bem à saúde, como mostram diversos estudos, uma união na terceira idade pode ser ainda mais benéfica. “A questão da solidão é muito séria nessa idade e há muitos pacientes que apresentam até quadros depressivos. Por isso, um companheiro ou companheira preenche um espaço vazio e colabora para a melhoria da qualidade de vida” – afirma o geriatra.

Companheiros em tudo


Anita Rosa de Oliveira, de 58 anos, até então solteira, e Benedito Batista de Oliveira, de 68 anos, viúvo, subiram ao altar em outubro de 2009. “Não pensei que fosse tão bom viver a dois. Há muito companheirismo e a gente não sente solidão” – conta Anita. A história desse casamento começou seis anos antes, quando os dois se conheceram. Muito dedicados à Igreja, eles foram construindo uma sólida amizade, e o interesse mútuo não tardou a aparecer. Mas Benedito, o “seu Dito”, viúvo há 11 anos, sempre deixou claro que queria mesmo era cuidar dos filhos e dos netos. “Já me achava muito velho para casar de novo” – conta. Quando a depressão o ameaçou, no início da viuvez, ele passou a dividir a sua vida entre a família e a se dedicar às ações voluntárias em sua paróquia.

Acontece que a relação de amizade deu motivo para comentários maldosos. Seu Dito procurou, então, o padre para se aconselhar. “Por que você não se casa com ela?” – questionou o sacerdote. Foi o empurrãozinho que faltava. Seguindo a tradição, seu Dito pediu a mão de Anita ao pai da noiva, um senhor de 91 anos, que abençoou a união. O combinado era de que o casamento seria simples e econômico. Mas o rumo foi outro. Seu Dito recebeu um dinheiro inesperado que deu para comprar as alianças e fazer uma festa. E os dois fazem questão de afirmar “que a base de todo casamento é Deus”. Hoje, olhando para trás, o ex-viúvo tem certeza de que tomou a decisão correta. “O casamento renovou a minha vida. Somos companheiros em tudo” – comemora.




Fonte: Família Cristã 904 - Abr/2011
Postado por: Família Cristã




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