A internet que mata

Data de publicação: 02/07/2014

Lauren Colvara*

 

 

O que é íntimo e o que é social se confundiram muito com a internet e seu império do compartilhamento de imagens compulsivas, sem qualquer remorso de suas consequências

 

 As bordas entre o que é íntimo e o que é social se confundiram muito com a internet e seu império do compartilhamento de imagens compulsivas, sem qualquer remorso de suas consequências. As garotas Amanda, Fran, Giana e Júlia, com idade entre 15 e 21 anos, levavam uma vida nem de longe depravada, ao que se tornou o centro dos ataques (bullyings).

É a materialidade traição por quem se tinha confiança e o apedrejamento virtual descontrolado levou essas jovens a medidas drásticas. Traídas, envergonhadas e magoadas tentam apagar com a vida, pois não conseguem se apagar da internet.

O problema reside em como a tecnologia tem potencializado ações irresponsáveis e maldosas que antes não ultrapassavam o boca a boca e o esquecimento das pessoas.

No ano de 2012, a canadense Amanda Todd, 15 anos, tirou sua própria vida para pôr fim a uma perseguição virtual. Aos 12 anos de idade, ela mostrou partes de seu corpo em uma conversa on-line a um desconhecido interlocutor que copiou a cena e publicou. Sua imagem foi divulgada para as escolas em que ela estudou e em um perfil no Facebook criado por seu perseguidor. Não havia mais como ela se livrar, contou apenas com o apoio dos pais. Agredida por um grupo de colegas na entrada da escola, Amanda desenvolveu transtorno de ansiedade e a casa dela era alvo constante de ataques. Para qualquer lugar que fosse a foto a seguia, suicidou-se.

 

Falta de lei − Engana-se quem pensa que esses casos são consequência da relação com desconhecidos, protegidos pelo anonimato. No mundo da internet não há nenhuma maldade ou perversidade nova, apenas uma nova modalidade. O agravante da internet é a memória que não morre e reverbera eternamente, uma vez divulgado, dificilmente se remove. A falta de uma lei contra os crimes da internet aumenta a sensação de impunidade. Isso faz crescer o desespero das vítimas e o incentivo a vinganças arrasadoras.

Foi o que aconteceu com três jovens brasileiras, em 2013, Fran do estado de Goiás, Júlia, do Piauí e Giana do Rio Grande do Sul. Duas tiraram a própria vida, a outra se diz morta em vida. As três adolescentes acreditaram em seus companheiros, se sentiram seguras, mas foram traídas, tiveram suas intimidades expostas a estranhos pelo mesmo motivo: o término da relação. Júlia e Giana resolveram se apagar da vida. Deixaram bilhetes para os pais pedindo desculpas.

A insensibilidade vai além do vídeo publicado pelo ex-namorado e pela amiga, há sites dedicados a julgar o comportamento da jovem, ilustrando com fotos retiradas de seu Facebook e link para o vídeo. A opinião é única: ela foi merecedora do castigo por ser exibicionista. Da mesma forma que os perfis de Giana Laura Fabi, 16 anos, ainda estão ativos. Neles constam comentários maldosos e cruéis, assim como na página de homenagem à Amanda Todd e à Júlia Rebeca. É um memorial chocante do que passaram e como a sociedade as tratou.

A sobrevivente de todos esses casos é a goiana Fran, aos 19 anos parou de estudar, saiu do emprego, mudou o visual. Parou de sair de casa, na rua era alvo de constrangimentos. “Queria ter minha vida de volta. ‘Eu morri em vida’”, diz a jovem. Os pais a apoiam e estão levando adiante um processo contra o ex-namorado, mesmo que sem expectativa de punição.

 

* Lauren Colvara é psicóloga formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestra em Comunicação (Unesp) e doutora em Psicologia Social (Universidade de São Paulo), com a tese: Tecnototemismo - A subjetividade em tempos tecnológicos. Dedica-se ao tema Comunicação e subjetividade, há mais de dez anos.