Jogar a favor da vida

Data de publicação: 07/07/2014

Jucelene Rocha

O Mundial volta ao Brasil trazendo à tona antigos e novos desafios que vão muito além dos 90 minutos dos jogos ou das linhas que demarcam os campos de futebol

Desde 1930, o mundo coloca chuteira nos pés e se veste com todas as cores para a grande celebração esportiva que reúne craques no campo e milhares de torcedores dentro e fora dos estádios de futebol. É a Copa do Mundo, um dos maiores espetáculos esportivos da terra, no qual as diferenças étnicas, econômicas ou religiosas dão espaço para a paixão pelo esporte.
Depois de 64 anos a bola do Mundial volta a rolar nos estádios brasileiros, e para cá se dirigem milhares de torcedores do mundo inteiro que querem e podem ver de perto esta grande confraternização entre povos e nações. Mas há também o lado desafiador, para não dizer arriscado, na realização deste grandioso evento. Antes de a bola começar a rolar em campo, o Mundial já começou há muito tempo fora das arenas estrategicamente construídas ou reformadas, neste caso, a disputa acontece em territórios pouco conhecidos ou até mesmo ocultos para a maior parte da população.
Apesar de não contar com a transparência e apoio de entidades como a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa), uma das realidades crescentes em grandes eventos internacionais como a Copa do Mundo é o tráfico humano para a exploração sexual ou do trabalho. Atentos a essa realidade, a Rede um Grito pela Vida, grupo articulado pela Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e associado à Rede Internacional da Vida Consagrada contra o Tráfico de Pessoas, Talitha Kum, passou a articular em todo o país a Campanha Jogue a Favor da Vida.

Sonho e necessidade −
Organizada desde 2006, a Rede um Grito pela Vida está articulada em todas as regiões do País, com mais de 20 núcleos, especialmente nas cidades-sede dos jogos da Copa do Mundo. A coordenadora nacional da entidade, irmã Eurides Alves de Oliveira, destaca que “é conhecida no Brasil, infelizmente, essa cultura quase naturalizada e aceita, da exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes, como algo que já começa a fazer parte da história do País”. A religiosa assinala ainda que, apesar do trabalho constante e de longos anos de muitas organizações da sociedade civil, o gráfico da exploração sexual e do aliciamento de pessoas para o tráfico humano está em escala ascendente. Dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, referentes a janeiro e fevereiro de 2012, demonstram que as mulheres são as principais vítimas da maior parte de violações dos direitos humanos praticados e denunciados no Brasil. Elas somam 80% das vítimas da exploração sexual. Quando o foco é o tráfico humano, os números indicam que 67% das traficadas também são meninas. Quanto ao abuso sexual, as meninas também são as principais vítimas e somam 77% dos casos, outras 69% são vítimas da pornografia infantil.
De acordo com irmã Eurides, os números e o perfil das vítimas são constatados também pela atuação da Rede um Grito pela Vida: “Ao circularmos e ouvirmos as pessoas nas várias atividades de prevenção e assistência às vítimas, confirmamos que geralmente se trata de pessoas em situação de vulnerabilidade social, mulheres desempregadas, mães solteiras, com baixa escolaridade ou que já sofreram violência, quanto a faixa etária são jovens de 14 a 30 anos, com maior incidência entre as que têm entre 18 e 20 anos de idade”, constata. Para a coordenadora da Rede, entre os aliciadores e as vítimas há um binômio constante: o sonho e a necessidade. “O que não deixa dúvidas de que o cenário da exploração sexual está diretamente relacionado a uma situação de pobreza associado ao sonho de sair dessa condição”, afirma a religiosa.

Construir consciência − A campanha brasileira de prevenção e denúncia ao tráfico humano para exploração sexual ou aliciamento para trabalhos forçados tem como fundamento os números registrados por organizações não governamentais internacionais durante as Copas da Alemanha (2006) e da África do Sul (2010). Muito embora os órgãos oficiais insistam em negar, nestes países foi constatado o aumento de casos de aliciamento de pessoas para exploração sexual. Durante os Mundiais verificou-se, respectivamente, um aumento de 30% e 40% no número de casos denunciados.
“Tendo à frente estes números e considerando a formação da imagem construída no exterior como parte da identidade do nosso País, que caracteriza o Brasil como um país de povo alegre e hospitaleiro, mas também vendido como um paraíso turístico e prazeroso, no qual a imagem da mulher é colocada como um pacote à venda, decidimos entrar em campo antes, durante e após a Copa do Mundo com mobilizações e iniciativas em todo o País”, afirma irmã Eurides.
Os riscos de tráfico de pessoas, sobretudo para exploração sexual e do trabalho, puderam ser constatados no Brasil, por exemplo, no episódio dos operários que estavam trabalhando ilegalmente na obra de ampliação do Aeroporto Internacional de São Paulo (Guarulhos-SP), em sua maioria, migrantes nordestinos. O grupo foi identificado por uma operação de fiscalização do Ministério Público do Trabalho em condições análogas às de escravos.  Outro exemplo está na retirada através de indenizações injustas de milhares de famílias de suas residências, em áreas de invasão ou não, em função das construções da infraestrutura para a Copa.

E depois? − A Campanha Jogue a Favor da Vida também busca levar conscientização sobre os riscos que continuarão presentes no País depois da Copa, na mobilidade das pessoas que saem das cidades que sediaram os jogos, neste contexto pode haver casos de revitimização. Por exemplo, meninas exploradas sexualmente durante a Copa podem ser aliciadas para o tráfico internacional. Por isso, a campanha ganhou também proporção internacional com adesão de instituições da América Latina e da Europa.
Nas 12 capitais que irão sediar os jogos, a campanha recebeu muitas adesões de outras organizações da sociedade civil e também de instituições ligadas aos governos municipais e estaduais. Cidades litorâneas como Fortaleza (CE), Recife (PE), Natal (RN) e Salvador (BA) investem em mobilizações e panfletagens nas praias e praças públicas. Irmã Fátima Cunha, uma das lideranças das mobilizações no Rio Grande do Norte e Pernambuco, destacou que o Nordeste está mobilizado: “Um dos momentos mais marcantes de nossa ação antes da Copa foi o lançamento da campanha no Parque da Tamarineira, em Recife. Lá pudemos sentir o apoio da população e expressar nosso compromisso com a vida, especialmente diante deste quadro de possibilidade de crescimento do risco do tráfico humano e da exploração sexual”.

Cidades-sede − Nas cidades-sede do Mundial, os dias dos jogos serão marcados com ações de panfletagem, gincanas e plantão em postos de atendimento, sem perder o foco no objetivo de levar conscientização, como destaca o frei Luiz Carlos Batista, uma das lideranças da mobilização em Curitiba (PR). “O objetivo das mobilizações é dar visibilidade a esta prática criminosa do tráfico de pessoas, procurando alertar e prevenir sobre os perigos nas suas diversas modalidades e, ao mesmo tempo, incentivar as pessoas que conhecem algum caso a fazer a denúncia, que é anônima, pelo Disque 100 ou 180. A panfletagem em lugares de grande fluxo de pessoas, como aeroporto, rodoviária e praças, visa atingir tanto os brasileiros como os estrangeiros que estarão em Curitiba para os quatro jogos da Copa.”
Os religiosos e religiosas do Brasil não estão sozinhos neste trabalho de prevenção e conscientização durante a Copa do Mundo. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também lançou a Campanha Copa do Mundo: Dignidade e Paz. O bispo de Maringá (PR) e referencial para a Pastoral do Turismo, dom Anuar Battisti, destacou que “a Igreja não pode ficar à parte de um evento tão importante como a Copa. A campanha que iniciamos está preocupada com a exploração escrava do trabalho, a exploração sexual e o tráfico de pessoas e de entorpecentes, enfim, aponta os lados positivos e negativos da Copa”, comentou.
Dom Anuar disse ainda que com esta campanha “a CNBB expressa preocupação com a exclusão de milhões de cidadãos ao direito à informação e à participação nos processos decisórios sobre as obras que foram realizadas para o evento e com o desrespeito à legislação e ao direito ambiental, trabalhista e do consumidor”.  De maneira bem-humorada, a iniciativa da CNBB leva conscientização usando símbolos que fazem parte das regras do futebol, nesse sentido, dom Anuar explica que a Conferência “dá cartão vermelho para a exploração sexual, o trabalho escravo, o tráfico de pessoas e de drogas”. Destaca ainda que, no fundo, o desejo “é que este acontecimento seja um fato positivo de dignidade, justiça, paz e não violência. O gol da vitória será o gol da vida, por isso, como dizem os bispos, estamos jogando pela vida e todos nós estamos no campo da vida e o jogo já começou”, disse.
    

 





Fonte: Fc edição 942
Postado por: Família Cristã




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