O legado político de um papa

Data de publicação: 17/07/2014

Francisco Borba

É natural concluir pela existência de problemas político-administrativos na Cúria Romana. Tais problemas, no entanto, seriam considerados menores em qualquer governo do mundo

 

Podemos falar em legado político de um papa? A pergunta é delicada, pois a Igreja não pode ser pensada como uma força política entre tantas que existem no mundo – ainda que não deixe de ter muita força política. Na Igreja, as repercussões políticas são consequência do compromisso com o bem comum, este compromisso é consequência do amor a cada pessoa concreta, e o amor à pessoa é o aspecto mais importante da “imitação de Cristo”, à qual todo cristão é chamado a viver. Fora deste encadeamento lógico, qualquer interesse político associado à ação da Igreja corre o risco de ser espúrio.

Que legado político um papa que renuncia deixa para a Igreja de Cristo? No contexto da renúncia de Bento XVI, o legado é o anúncio de um desapego, uma liberdade e uma esperança impensável para a maioria dos poderosos do mundo – sejam católicos ou não católicos. Vem de um acadêmico egípcio e muçulmano, Wael Farouq, a observação de que o papa mostrava para um mundo islâmico dividido por lutas de poder que um homem de Deus abria mão de seu poder para melhor servir a seu Senhor. Gilles Lapouge, jornalista e escritor francês, analisando a renúncia de Bento XVI, afirma que ela lembra Cristo, que muitas vezes se sente fatigado, ameaçado e até abandonado pelo Pai, mas no fim sempre triunfa. O italiano Rocco Buttiglione, filósofo e político católico, dizia que sentia a pequenez de todos nós diante do mistério da história e da providência de Deus.

Não somos determinados por nossos limites ou pelas forças que parecem reger o mundo. Podemos e devemos ser fiéis a nós mesmos, acreditar num Deus de amor que levará a bom termo a aventura de nossa vida e nossas responsabilidades diante do mundo e daqueles que amamos. Este é o grande legado que Bento XVI, com sua renúncia, deixa ao mundo.

 

Excepcionalidade moral – E as mudanças institucionais? E a modernização da Cúria Romana? E a eliminação dos “frutos podres” que ameaçam todos os “frutos bons” da Igreja? Sem dúvida, a renúncia cria uma “janela de oportunidades” para mudanças e modernizações. Bento XVI, ao renunciar, colocou em evidência os problemas internos da Cúria Romana. Ele renunciou porque a idade e a saúde não lhe permitiam cumprir certas funções. Mas quais? A vida de oração não tem idade, a capacidade intelectual continua invejável. Sobravam as viagens – e realmente ele teria um compromisso transoceânico com a Jornada Mundial da Juventude – e a administração da vida da Igreja.

É natural que se conclua que existem sérios problemas político-administrativos na Cúria. Aqui é bom fazer uma advertência: estes problemas provavelmente seriam considerados escândalos menores e casos particulares em qualquer governo do mundo. Mas a Cúria Romana não é qualquer governo. É a excepcionalidade moral, a retidão de intenções, o modelo de justiça esperado da Igreja Católica (tanto da parte dos seus fiéis quanto dos que lhe são hostis) que fazem com que estes casos sejam tão alardeados e tão dolorosos para a comunidade eclesial.

A renúncia abre espaço para muitas mudanças, mas é a conversão de cada um, o abandonar-se a Cristo, que permitirá que este espaço seja adequadamente ocupado. Mudanças estruturais não atendem aos seus ideais originais se não existem homens e mulheres que dão vida às estruturas mudadas – esta é uma velha lição da Igreja, confirmada em qualquer transformação política: é do coração da pessoa que brota a novidade que muda estruturas. O legado político de Bento XVI é o seu coração inundado de paixão por Cristo. Dizer isto não é ingenuidade, mas compreensão dos caminhos por onde passa a renovação na Igreja.

 

* Francisco Borba é sociólogo e coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo (SP).

 

 

 

 





Fonte: FC edição 928
Postado por: Família Cristã




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