É pau, é pedra...

Data de publicação: 23/07/2014

Por Antonio Edson

 

Mais do que nunca urge defender uma cultura de paz

 

Personagem popular do cenário carioca entre os anos 1960 e meados dos anos 1990, quando faleceu, José Datrino era mais conhecido como Profeta Gentileza pelas ruas da zona portuária do Rio de Janeiro (RJ). Andarilho em um tempo que moradores de rua não eram tão perseguidos pela polícia ou vistos como párias por uma sociedade higienista, Gentileza era presença constante em praças, trens e ônibus levando mensagens de amor e respeito ao próximo. Sua fama fixou-se mais fortemente a partir de uma tragédia ocorrida em Niterói (RJ): o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, que, em 1961, matou cerca de 500 pessoas, sendo 350 crianças. Ele se apresentou voluntariamente aos escombros, na Praça Expedicionário, para confortar familiares das vítimas já que, segundo consta, não havia nenhum parente seu entre os mortos e feridos. “Não perdi filhos, mas muitos irmãos”, relatou aos jornais da época, que o tratavam como uma espécie de “maluco-beleza”.

Talvez fosse um tempo em que, a despeito dos imensos desequilíbrios sociais que parecem atávicos no País, o Rio de Janeiro ainda merecesse o epíteto de “cidade maravilhosa” e o brasileiro, de modo geral, gostasse de se ver como um “povo cordial” e se alardeasse como o arquiteto de uma “democracia racial”. Discutíveis ou não tais conceitos, o fato é que o golpe cívico-militar de 1964 desmontou todos eles, um por um. Falar e se portar com gentileza, cordialidade e democracia tendo pela frente – e às vezes também pelas costas e lados – um interlocutor com um porrete à mão era o mesmo que acreditar no verso das “flores vencendo os canhões”, da canção Para não dizer que não falei das flores, do cantor e compositor Geraldo Vandré, durante anos censurado pela ditadura e banido do País.

 

Linchamentos – Esgotado o golpe, em 1985, o entulho herdado foi um estado sem uma rede mínima de proteção social – principalmente aos empobrecidos – e onde a meritocracia, ou a supremacia do mais forte ou mais rico, prevalecia no mercado de trabalho, ambiente escolar e outros setores. Universidade pública? Só para quem cursava Ensino Fundamental e Médio em escolas particulares. Bons empregos? Idem. Atendimento de saúde com qualidade? Só pagando. Ser gentil ou ajudar quem necessitasse, em particular menos favorecidos, decididamente não era uma política de estado, mas atitude isolada de cidadãos abnegados ou de entidades assistenciais, muitas das quais associadas a Igrejas. A situação só começou a mudar com a Constituição de 1988, que instituiu um Estado Democrático de Direito, ampliou os direitos sociais e as atribuições do poder público e implementou um sistema universal de saúde. Nem tudo, claro, já funciona como o previsto, mas há avanços visíveis. Estão aí, como provas, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e as cotas nas universidades federal e estaduais para negros, indígenas e estudantes da rede pública de ensino.

Mas tratado com desprezo e sem acesso à educação por seguidos governos por mais de 500 anos, esperar que o brasileiro desenvolva, do dia para a noite, a cultura da cordialidade é inocência demais. Um povo maltratado reage no mesmo tom. E isso é uma simples lei de causa e efeito, não justificativa. Segundo o sociólogo José de Souza Martins, da Universidade de São Paulo (USP), que há 30 anos documenta casos de linchamentos no Brasil, aqui é onde há mais registros desse crime. Nesse período, ele anotou pelo menos dois mil casos. “Temos uma média de um linchamento por dia no País”, aponta. Outra constatação dolorosa: mais de 500 mil brasileiros, incluindo crianças, já participaram de algum justiçamento nos últimos 50 anos e quase ninguém foi punido. Mais do que uma questão de pura maldade parece ser a população agindo, equivocadamente, onde falta a presença do estado ou há o chamado estado mínimo, como pregam e prezam os neoliberais.

 

Individualismo – De acordo com Martins, a pessoa linchada é, em geral, pobre e não branca. “Se um branco e um negro, separadamente, cometem o mesmo crime, a probabilidade de o negro ser linchado é maior”, garante. Nos casos em que a vítima de um crime é criança, os justiçamentos são mais cruéis. Foi o caso da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, mãe de dois filhos, massacrada a pauladas em maio por cerca de 100 moradores do bairro Morrinhos, em Guarujá (SP). Seu crime: ser confundida com uma “bruxa que raptava crianças para rituais de magia negra” e ter seus traços físicos irresponsavelmente divulgados por um jornalista, em um informativo veiculado pelo Facebook. Detalhe: no momento do linchamento, Maria de Jesus tinha uma Bíblia em suas mãos. Sensacionalismo da imprensa como esses vêm fazendo escola entre formadores de opinião ligados à direita. Exemplo pior já havia sido dado – e defendido em uma revista semanal de circulação nacional de tendências questionáveis, a Veja – por uma apresentadora de telejornal, Rachel Sheherazade, que em fevereiro se solidarizou com justiceiros que acorrentaram um rapaz negro a um poste. Em geral, tais opiniões, obviamente com segundas intenções fascistas, tiram proveito do senso comum de uma população desinformada e desprovida de segurança pública e Justiça.

Mas rege o bom-senso que pessoas de boa vontade, particularmente – mas não exclusivamente – cristãos autênticos, não se rendam às barbáries e achem argumentos para resgatar o ser humano de suas misérias e más influências. Afinal, se não é mentira que violência gera violência, também é verdade que gentileza gera gentileza. “Não serão nossos gritos a fazer a diferença, e sim a força contida em nossas mais delicadas e íntegras ações”, diz o teólogo e escritor Leonardo Boff. Ou seja, não se pode menosprezar o poder da gentileza e da cordialidade por mais violentos que sejam os tempos ou por mais valorizada que esteja a cultura do individualismo, que, no capitalismo, é inculcada no ser humano desde seus primeiros anos. “É no espaço escolar que, muitas vezes, a criança é treinada a competir e até a humilhar o colega, como vemos em casos de bullying. Por isso, uma cultura de paz deve começar na escola e, mais anteriormente, na família”, analisa a pedagoga Elaine Azevedo, gerente técnica de educação da Plan International, organização não governamental humanitária presente em 66 países e que trabalha para melhorar a qualidade de vida das crianças menos favorecidas.

 

Pilares – Educadores lúcidos têm consciência de que as forças contrárias à de uma cultura de paz, como a de uma mídia que prega a competição, a meritocracia e a supremacia de classes, são poderosas, mas nem por isso podem entregar os pontos. “Cabem às boas escolas e aos educadores esclarecidos fazer as crianças compreenderem as diferenças e dificuldades de cada ser humano. Como? Elaborando, por exemplo, jogos construtivos sem valorizar a competição desenfreada. Essas gentilezas mostram que um conflito, de acordo como o resolvemos, pode até ser amplamente positivo. Educar para a vida vai além de preparar uma criança ou jovem para o sucesso profissional, mas fazê-la aprender a conhecer, fazer, conviver e ser. Sem esses pilares, formaremos competidores e não seres humanos”, constata Elaine, para quem a necessidade da gentileza leva o ser humano a refletir sobre ética e justiça. “É bom você se colocar sempre no lugar do outro e se perguntar se gostaria que fizessem com você o que você está fazendo com ele. Isso responde definitivamente a qualquer questão sobre como devemos agir em relação ao próximo”, sentencia. Ou como dizia outra figura pública que, ao menos nestas páginas, dispensa apresentação: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”.

 





Fonte: Familia Crista ed. 942
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Viva o México!
O México possui uma gastronomia muito variada, com diferentes pratos típicos, doces e bebidas
Com um toque oriental
A culinária japonesa, cada vez mais presente no dia a dia do povo brasileiro, é rica de significados
Acerte na massa
Sugerimos 8 dicas certeiras para o preparo, pois o segredo está em todo o processo
Fórmulas de energia
Pratos à base de amendoim fazem parte da cultura do Brasil e de seus países vizinhos
À moda de João Batista
Alimento natural, o mel é um dos primeiros alimentos utilizados pelo homem
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados