O valor da hospitalidade (I)

Data de publicação: 12/08/2014

Léo Pessini
      
Os valores originam-se sempre no nível pessoal e acabam objetivando-se numa sociedade                                                  

                                                                                               

A indiferença em relação ao outro, simplesmente mata! Ela é uma marca terrível de nossa sociedade urbana em vias de globalização excludente. Para nos contrapor a esta cultura de morte, temos que descobrir o valor da acolhida e da hospitalidade.

Somos seres capazes de valorar, de emitir juízos sobre o valor de algo.  Frente a uma novidade, dificilmente deixamos de valorar, positiva ou negativamente.  Os valores são uma linguagem muito própria da sociedade contemporânea, secular e plural. Os educadores falam hoje do grande desafio de “formação em valores”. Existem muitos valores, e, sobre os mais importantes, todos concordamos. Ninguém pensa que a injustiça seria um valor positivo e a justiça um valor negativo!  E o que dizemos da justiça vale para a paz, a solidariedade, a espiritualidade, a verdade, o amor, a saúde, a vida, o bem estar, entre tantos outros valores, são claramente universais.

A hospitalidade mais que uma obra de misericórdia ou como um ato de caridade é algo valioso “em si”, significando que tem um “valor intrínseco”.  Ocorre o mesmo com a justiça, a paz e a solidariedade. Não podemos conceber uma sociedade em que não haja paz, ou justiça ou solidariedade, em que os seres humanos não se ajudem uns aos outros em suas necessidades.  Sem estes valores estamos diante de uma sociedade inumana.

 

Os valores − Segundo Diego Gracia, bioeticista espanhol, temos dois tipos de valores, os “valores intrínsecos”, como vimos acima, e os “valores instrumentais”. Estes últimos têm valor, somente em referência aos primeiros.  O remédio, por exemplo, é valioso enquanto está a serviço de outro valor, o da saúde, de combater a dor ou sofrimento.  Se não nos ajuda para termos uma saúde melhor, dizemos que “não vale para nada”.   Os valores instrumentais estão a serviço dos valores intrínsecos. Estes nos apontam para os fins e sentido maior da vida humana.          

É a partir do mundo dos valores que adquire sentido outro mundo, o dos “deveres”, ou seja, o âmbito próprio da ética.  Nossa obrigação moral consiste sempre em promover a realização dos valores positivos e evitar aqueles negativos.  Por que não temos paz plena entre nós, nosso dever consiste em procurar torná-la possível, concreta.  O mesmo se pode dizer da hospitalidade, não é somente um valor, mas também um dever, portanto um compromisso moral.  Os valores originam-se sempre no nível pessoal e acabam objetivando-se numa sociedade. O depósito de valores intrínsecos de uma sociedade é o que chamamos de “cultura”; e o conjunto de valores instrumentais, “civilização”.  Os valores possuem um apelo utópico e pertence à utopia nos transportar a horizontes cada vez mais altos e abertos. Sua função é nos desinstalar e fazer andar. Eles se assemelham às estrelas: nunca serão alcançadas por nós, mas orientam os navegadores e iluminam e encantam nossas noites!

Vivemos numa civilização com vários instrumentos técnicos que facilitaram muito nossas vidas (celular, internet, carro, avião etc.), porém esta não é a sociedade mais “culta da história”.  Nossa sociedade ocidental a partir do século 18 optou pelos valores instrumentais técnicos, com o consequente endeusamento da técnica caindo na “tecnolatria”, em detrimento dos valores intrínsecos.

 

Destaque:

Os valores originam-se sempre no nível pessoal e acabam objetivando-se numa sociedade





Fonte: FC edição 931
Postado por: Família Cristã




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