Filhos da briga

Data de publicação: 18/08/2014

Cleusa Thewes *


Tensões e frustrações são naturais no convívio familiar mas devem ser reduzidas. Afinal, relações hostis abrigam desafetos, mágoas e doenças físicas.

Na avenida, o semáforo amarela. Carros freiam e param. Buzinas de apressados disparam. Sete horas, o dia amanhece. Após o sono ou a insônia, o motorista grita com o motoqueiro. Este revida ofensivamente. Transeuntes... Vozes alteradas. Sol matinal despercebido. Xingação e desafeto tonalizam o dia. No caixa do mercado, reclamações esquentam orelhas, a fila tranca. No ônibus, o motorista irritado acelera, ignorando o lento passageiro idoso, que carrega em si a soma do tempo. Esqueceu-se da bondade ensinada pelo Pai.

Briga. O que é? Uma discussão carregada de ofensas injuriosas, produzindo o combate verbal, psicológico, moral, podendo chegar ou não à disputa corporal. Brigas cotidianas descolorem relacionamentos, enfraquecem vínculos, machucam amores. Por vezes, tornam-se absurdamente normais no dia a dia, diluem princípios de respeito mútuo e fortificam a insustentabilidade das relações.

Briga de pais − No túnel do tempo, escutemos o casal de namorados, que na emoção do encanto se propõem a construir uma família. Eles visualizam filhos felizes crescendo num lar de aconchego. Idealizam irmãos se amando, pais se ajudando. Mas esquecem não apenas de digitar e armazenar as combinações no arquivo da mente, como até parecem deletar da memória, do coração, da razão e da vontade o próprio e insubstituível arquivo mental do bem viver familiar.

A vida conjugal contamina-se, passa a reproduzir o individualismo, o consumismo e o hedonismo, a busca do prazer. As pessoas, às vezes, utilizam-se mutuamente de relações fúteis e até mercantilistas. Trocam-se e giram no ciclo dos descartáveis. E se esquecem de que são seres de amor, transmissores de sabedoria, espiritualidade, tradições e culturas, bem como fontes de descoberta, proteção e cura. Contemplar como gente o próximo poderá modificar completamente os relacionamentos. Entretanto, brigas tornam-se normais para quem desconhece a paz.

Filhos das brigas − Débora, 12 anos, revela-se triste e assustada. O sorriso ausente, e o olhar opaco e distante revelam as janelas de uma alma sem brilho, uma estrela sem luz. Pergunto o que ela está sentindo. “Medo!” – responde. “Mas medo do quê, de quem?” – insisto. “Dos gritos, da sirene, da faca, das brigas, do sangue jorrando, da polícia. Medo da própria vida” – esclarece.

Débora narra brigas presenciadas entre pais, irmãos e vizinhos. Assistiu a brigas com faca, morte e sangue. Ouviu sirenes velozes chegando e socorrendo os feridos. Viu familiares algemados, levados à prisão. Essas imagens não cessam de girar na sua mente. Provocam aperto no coração, angústia, medo de dormir e de se afastar da mãe. Quando e como Débora será feliz? Débora desejará construir uma família? A menina busca ajuda, apoio familiar, felicidade e uma cura.

Sara, 6 anos, vai à escola, pratica ginástica olímpica. Na doçura infantil, manifesta seus temores e suas inseguranças. Certa vez, a mãe lhe disse que iria se separar do pai. “Por quê?” – perguntou a menina. “Brigamos muito” – respondeu a mãe. “Mas eu não vejo vocês brigando” – argumentou Sara. Bem, a separação não ocorreu. Desde aquele diálogo, Sara, ao ver os pais conversando em tom elevado, diz: “Parem de brigar, falem mais baixo”! Sara não tolera vozes altas. Na madrugada, sai de sua cama, dirige-se ao quarto dos pais. Quer dormir no meio deles. Vigia-os, intranquila. Rói as unhas para aliviar a ansiedade do medo que tem das brigas e de uma possível separação dos pais.

Tensões familiares − No caso de Débora e Sara, as brigas e as ameaças estimulam inseguranças e temores, fazendo-se necessário um cuidado especial de carinho, proteção e segurança. O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) regulamenta e estabelece esses direitos junto à família e à sociedade. “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária” (ECA, art. 4o).

Tensões e frustrações são naturais dentro de um convívio humano, mas devem ser reduzidas. Afinal, relações hostis abrigam desafetos, mágoas e doenças físicas. As discussões devem ser sempre regradas pelo respeito mútuo. Casais que assumem as diferenças se sentem mais livres para crescer individualmente, como parceiros e pais. Tornam-se criativos e produtivos. A vida sexual e a comunicação podem melhorar. Provavelmente serão bem-sucedidos na educação dos filhos. A orientação, portanto, é para que os pais tornem o aqui-agora de seus filhos mais agradável de ser vivido, evitando transformá-los em juízes das brigas conjugais. Crianças não dão conta desta tarefa. Se os pais puxarem pelas suas memórias, hão de se lembrar que, quando crianças e adolescentes, também eles não gostavam de brigas em casa.

*Cleusa Thewes é terapeuta familiar, especialista em orientação familiar.




Fonte: Família Cristã 909 - Set/2011
Postado por: Família Cristã




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