Os frutos das ruas

Data de publicação: 21/08/2014

 

Rubens Diniz*

 

Ações de violência são, em sua essência, contra os anseios de organização. Servem somente para desvirtuar o sentido de uma manifestação

 

Quando as ruas de São Paulo foram tomadas pela palavra de ordem “não é só pelos 20 centavos” (custo do aumento das passagens) não se tinha consciência de que este seria o detonador de um dos mais importantes momentos da vida política nacional desde a redemocratização.  A onda de protestos se propagou ainda mais após a polícia paulistana abusar do uso da força. Como fogo em palha seca, uma onda de protestos desencadeou-se por centenas de cidades brasileiras. Logo, a demanda específica (redução dos 20 centavos), tornou-se geral e nacional.

Nos últimos anos, muita coisa mudou no Brasil. A base da nossa pirâmide social conquistou importantes direitos e melhoras em sua qualidade de vida. Centenas de milhares de pessoas saíram da linha da pobreza, conquistaram um emprego, realizaram o sonho da casa própria e viram seus filhos entrar na universidade.

Então, por que as pessoas saíram às ruas? Se as pessoas obtêm conquistas, novas demandas surgem, além do que, nosso país é profundamente desigual. Não existia um objetivo único, um alvo claro e definido. Tratava de bandeiras difusas que, no fundo, buscam reformas estruturais na sociedade brasileira. Demandavam dos governantes mais e melhores serviços públicos. Defendiam a necessidade de recuperar a dignidade de fazer política, demandando mudanças nas instituições e maior espaço para a participação. Em essência, o amplo conjunto de reivindicações buscava ações que mudem, de fato, as profundas desigualdades existentes na sociedade brasileira. As manifestações ajudaram a romper com a apatia e a acomodação reinante.

No entanto, nem tudo foi um mar de rosas. Um dos elementos de maior tensão nas manifestações tem sido a presença constante da violência. Seja ela policial ou a de certos grupos de manifestantes. Tratemos aqui desta última.  Facilmente identificados por sua indumentária – roupas pretas e rostos cobertos –, os chamados “Black Blocs” (Blocos de Preto) têm utilizado da violência como expressão política. Surgiram na Alemanha nos anos 1980 e tiveram grande presença nas manifestações contra a Organização Mundial do Comércio (OMC) em Seattle, Estados Unidos (1999), Quebec, Canadá (2000) e Gênova, Itália (2001). Seu objetivo sempre foi o de criar confronto direto com as forças policiais e vandalizar símbolos, considerados por eles como expressões de poder.

 

Recado ao Brasil – No último período, a grife desse grupo tem sido propagandeada no Brasil. O resultado de sua participação deturpou o sentido das manifestações. Com ações violentas, esses grupelhos, literalmente, roubavam a cena dos milhares que estavam protestando pacificamente. Trata-se de um tipo de ação antidemocrática, que não faz parte da cultura política e do imaginário social brasileiro. As vitórias e conquistas do povo brasileiro deram-se com a voz das multidões nas ruas. A violência sempre foi utilizada pelos que se opunham às mudanças e conquistas. Ações de violência são, em sua essência, contra os anseios de organização. Servem somente para desvirtuar o sentido de uma manifestação.

Os frutos das jornadas de junho ainda não estão maduros por completo. O mês de junho deixou o recado de que o Brasil necessita mudar ainda mais. Necessitamos de reformas estruturais, que ampliem o papel do Estado na garantia de mais bem-estar para a população, na melhoria dos índices econômicos e de desenvolvimento social. Que ocorra uma reforma política que dê mais espaço e participação para a população de um modo em geral. Que os jovens se aproximem ainda mais da política, dando um novo significado a ela. Como o papa Francisco conclamou, “que saiam às ruas”, “que sigam superando as apatias”, usando de suas vozes, e não da violência.

 

*Diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).

 

 

 





Fonte: FC edição 933
Postado por: Família Cristã




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