Unidos pela santidade

Data de publicação: 03/09/2014

André Bernardo



Servos de Deus, Zélia e Jerônimo podem se transformar no primeiro casal de bem-aventurados do Brasil


Quando se casaram, no dia 27 de julho de 1876, na Chácara da Cachoeira, no Rio de Janeiro, Zélia e Jerônimo, então com 19 e 25 anos, não imaginavam que estavam prestes a escrever uma bela história de amor. Em 33 anos de casados, os dois tiveram 13 filhos. Quatro deles morreram ainda pequenos e nove, três homens e seis mulheres, seguiram a vocação religiosa. Entre os homens, um tornou-se Lazarista, outro Franciscano e o terceiro Jesuíta. Das seis mulheres, quatro ingressaram na Congregação das Irmãs de Santa Doroteia e duas na Congregação do Bom Pastor. Mas a bela história de amor a que me referi no começo da matéria ainda não chegou ao fim.

Com a morte de Jerônimo em 1909, aos 58 anos, Zélia resolveu vender tudo o que tinha, dar aos pobres e ingressar no Convento das Servas do Santíssimo Sacramento. Foi quando passou a ser chamada de Irmã Maria do Santíssimo Sacramento. “Mesmo tendo excelentes condições financeiras, os valores evangélicos sempre prevaleceram na casa de Zélia e Jerônimo. Os dois conseguiram transmitir aos filhos uma espiritualidade muito rica”, destaca dom Roberto Lopes, delegado para a Causa dos Santos da Arquidiocese do Rio de Janeiro. “A morte não conseguiu separá-los. Mesmo depois de mortos, Zélia e Jerônimo continuam unidos pelas virtudes heroicas”, enfatiza.

Um dado curioso da biografia de Zélia é que, aos 15 anos, ela conheceu Nhá Chica em Baependi, Minas Gerais. Apesar de jovem, a menina já manifestava o desejo de ingressar na vida religiosa. Foi quando seu pai, João Pedreira do Couto Ferraz, a levou para conversar com Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica. Embora fosse um católico ardoroso, o pai de Zélia não gostaria que a filha ingressasse tão cedo numa ordem religiosa. Depois de conversar com a menina e pedir a intercessão de Nossa Senhora da Conceição, de quem era devota, Nhá Chica disse a Zélia que ela seria freira, sim, mas não agora. Antes, se casaria com um homem santo e seria mãe de uma grande prole.

Modelos de vida cristã – Jerônimo de Castro Abreu Magalhães nasceu em Magé, na Baixada Fluminense, no dia 26 de julho de 1851. Depois de estudar Ciências Humanas na Alemanha, formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1873. Sua futura esposa, Zélia Pedreira Abreu Magalhães, nasceu em Niterói, em 5 de abril de 1857. Poliglota, aprendeu a falar e a escrever fluentemente em quatro idiomas: inglês, francês, espanhol e italiano. Depois de passar a lua de mel em Petrópolis, região serrana do Rio, o casal fixou residência na Fazenda Santa Fé, no município do Carmo, que pertencia à aristocrática família Abreu Magalhães.

Uma das primeiras medidas que Jerônimo tomou ao assumir a propriedade foi desativar a senzala. No lugar dela, ergueu moradia para os 500 empregados da fazenda. Doze anos antes da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, que
aboliu a escravatura no Brasil, em 13 de maio de 1888, Jerônimo concedeu alforria para os escravos da Santa Fé. Também pagava salário e oferecia atendimento médico a eles. Zélia não ficou atrás. Construiu uma capela e, todos os dias, mandava celebrar missa. Ela própria se encarregou da formação catequética dos empregados e de seus familiares. Exortava a todos em Santa Fé que recebessem os sacramentos do Batismo e do Matrimônio.

Santo casal – Zélia tornou-se freira em 22 de janeiro de 1918 e morreu em 8 de setembro de 1919. Seu jazigo no Cemitério São João Batista, em Botafogo, logo virou lugar de romaria e devoção. A primeira tentativa de beatificá-la aconteceu no ano de 1937. Na ocasião, a ideia era reverenciar apenas a matriarca da família. Os restos mortais de Zélia – ou Irmã Maria do Santíssimo Sacramento, como ficou mais conhecida – chegaram a ser trasladados para a Paróquia Nossa Senhora de Copacabana, mas o caso foi arquivado sem motivo aparente. Décadas depois, os postuladores da Congregação das Causas dos Santos do Vaticano recomendaram à Arquidiocese do Rio de Janeiro que o processo contemplasse também Jerônimo. “Zélia não foi santa sozinha. O marido dela também é”, argumentaram.

“A vida exemplar de Zélia e Jerônimo é um testemunho contundente e irrefutável de que é possível, sim, ser santo nos dias de hoje. Não apenas e tão somente na vida consagrada, como padre, freira ou religioso, mas também e, principalmente, na vida cotidiana, como pai amoroso e mãe dedicada. Os dois souberam viver a santidade em plenitude”, salienta padre João Geraldo Bellocchio, presidente da Associação Cultural Zélia e Jerônimo e pároco da Igreja Nossa Senhora da Conceição, na Gávea. É lá que estão expostos os restos mortais do casal para veneração pública até a conclusão do processo de beatificação.

Em defesa da família – Por sua inegável dedicação à caridade, Zélia e Jerônimo podem se tornar o primeiro casal brasileiro a ser beatificado. No mundo inteiro, são apenas dois os casais de beatos: os italianos Luigi Beltrame e Maria Corsini Quatrocchi e os franceses Luís Martin e Zélia Guérin, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus. O primeiro casal foi beatificado pelo papa João Paulo II, em 2001, e o segundo por Bento XVI, sete anos depois. Na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, o número de famílias que pedem a intercessão de Zélia e Jerônimo tem crescido nos últimos meses. Os pedidos são os mais variados possíveis e vão desde casar e ter filhos até arranjar emprego e largar o vício.

Um dos relatos que mais tocou padre João Bellocchio é o de uma moradora da Rocinha, que se inscreveu no Curso de Crisma da paróquia. Por mais que ela tentasse convencer o companheiro a se casar na Igreja e regularizar a situação, o rapaz permanecia irredutível. “Era do tipo que não podia sequer ouvir falar de padre”, brinca o pároco. Quando soube da história de Zélia e Jerônimo, resolveu fazer a novena. Um dia, ao chegar em casa, o marido se virou para ela e, do nada, perguntou: “E aí, já marcou a data do casório?”. Por um momento, ela pensou que o sujeito estivesse de brincadeira. Não estava. Para felicidade de padre João Bellocchio, os dois se casaram ali mesmo, na paróquia.

Das devotas de Zélia e Jerônimo, a aposentada Cecília Duprat de Britto Pereira, 86, é a mais fervorosa. Sobrinha-neta do casal, ela conta que, na adolescência, pegou crupe, infecção bacteriana que podia levar à morte. Seu irmão já havia morrido da doença, um ano antes. Mesmo assim, sua mãe não esmorecia e, todas as noites, pedia a intercessão de Tia Zélia. “Naquela noite, mamãe dormiu rezando o terço. No dia seguinte, eu estava totalmente curada”, relata Cecília. No caso de Zélia e Jerônimo, santo de casa faz milagre, sim.





Fonte: Família Cristã 943 - Jul/2014
Postado por: Família Cristã




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