Envelhescência

Data de publicação: 08/09/2014

Silvia Torreglossa




Na caminhada da vida, a pessoa atravessa várias fases, algumas mais instigantes que outras, a envelhescência traz a possibilidade de rever os passos e projetar outros

O jornalista e escritor mineiro Mario Prata inicia uma de suas crônicas mais conhecidas com a pergunta “você é um envelhescente?”, a partir daí fundamenta sua ideia do que seria essa fase intermediária entre a vida adulta e a velhice, dos 40 e muitos aos 60 e poucos anos. “Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes (...) esqueceram-se de nos dizer que entre a maturidade e a velhice (ou seja, entre os 45 e os 65 anos) existe a envelhescência.” E convida: “Coloque os óculos e veja como este nosso estágio é maravilhoso”. A partir daí começa a fazer um paralelo com a adolescência, que também é uma fase intermediária e cheia de desafios e incertezas.

Escolhas e envelhecimento – “Envelhece bem quem construiu no decorrer da vida sabedoria para administrar a inexorável chegada da velhice”, explica Fernando Bignardi, médico gerontólogo, coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e diretor fundador do Centro de Ecologia Médica Florescer na Mata.

Para ele, o grande segredo é saber aproveitar a vida. “O bom envelhecimento está indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento pessoal. Tem pessoas com 75 anos com maturidade emocional de 15, e outras com seus 30 anos que já estão alinhadas com as fases que virão”, explica. “Partimos do princípio que todos nós temos um propósito de vida que pode levar ao sucesso no processo de envelhecimento com a manutenção da capacidade funcional, com autonomia e independência cognitiva e física.”

Segundo o gerontólogo, a perda funcional e as doenças crônicas nascem do estilo de vida, a genética chega somente a 30% da causalidade. “Tudo depende das escolhas que a pessoa faz no seu dia a dia, como, por exemplo, alimentação, hábitos de sono, ritmo de vida, crenças, postura e atividade física.” A meditação também é importante nessa interfase, pois possibilita a reconexão supramental, que “favorece o resgate da missão essencial da vida e possibilita o ressurgimento da motivação pela vida acompanhada da cura de doenças crônicas, assim como o resgate do bem-estar e qualidade de vida na medida em que são retomados, e realizados, antigos projetos de vida”, conclui.

Aos 56 anos... – A psicóloga paulistana Neusa Alves, de 56 anos, se “achou” no texto do cronista e diz que, assim como Mario Prata sugere que o envelhescente vive a falar do passado, enquanto os adolescentes sonham com o futuro, gosta de se lembrar dos tempos de universidade, quando morava em uma república, dos amigos daquela época e das suas gravidezes. Neusa tem três filhos e hoje estão com mais de 25 anos. Mesmo admitindo se sentir mais nostálgica neste momento de vida, afirma estar vivendo momentos mágicos em que se sente realizada profissionalmente profissionalmente e, com muita satisfação, vê os filhos formados e felizes. “Já tive momentos difíceis com minha separação (aos 45 anos), foi difícil entender tudo, mas hoje me sinto recuperada, o amor que ofereço e recebo de meus filhos me faz feliz”, diz Neusa.

Embora não se sinta exatamente na idade que tem, Neusa diz que se prepara, sim, para a velhice. “Tenho investido na minha espiritualidade, que me dá muito prazer e alegria diariamente. Gosto de caminhar e ter bons amigos. Ler me faz muito bem. Tenho conversado com algumas pessoas sobre trabalhar em minha área, depois dos 60, em casa de repouso ou comunidade de vida”, hoje atua nas Obras Sociais Agostinianas, como gestora de recursos humanos.
A envelhescência também trouxe mais serenidade para Neusa. “Eu era um poço de ansiedade, muito perfeccionista, hoje aprendi a ser mais leve e tranquila, entrego minhas incompetências ao Senhor

Deus e espero o momento certo para agir.” E é assim que ela enfrenta os desafios, como fazer MBA (sigla em inglês para Mestre em Administração de Negócios) em Gestão de Pessoas e superar o “analfabetismo” digital. “Trabalho com os jovens conectados que pensam e respiram informática, mas estou sempre investindo.” Para o futuro, deseja ser avó e poder sempre viajar para estar perto de seus filhos. “Gosto muito de colocar meus anseios e desejos nas mãos de Deus, faço terapia e acho muito saudável, tenho encontrado equilíbrio e serenidade no  conhecimento pessoal e a entrega na vontade de Deus.”

Aos 48 anos..
. – Recém-envelhescente, Denise Pederçole, gerente administrativa rio-pretense, percebeu que estava nessa interfase quando sentiu vontade de recuperar o tempo de outrora. “Sinto faltado tempo em que enfrentava os desafios com prazer e aproveitava o sabor do novo, hoje a responsabilidade é outra, o novo deve ser olhado com cuidado, você não pode errar, quer que dê tudo certo, é outro olhar”, reflete. Mas garante que a maturidade traz sabedoria, equilíbrio e ajuda a perceber o que é essencial para a vida. “Eu me sinto jovem, quero viver, viajar, aprender, dançar, dou de dez a zero nas minhas filhas a respeito dessas vontades”, diz Denise, que tem três filhas maiores de 18 anos.

Denise pensa a respeito da velhice, está passando por um checkup para averiguar como anda a saúde, mas acredita que não se prepara sistematicamente para a próxima etapa da vida. “As fases estão acontecendo e vou recebendo cada uma delas, sou mais ansiosa agora do que antes porque o tempo parece que passa mais rápido.” Recordo-me de que quando entrei nos 30 pensava se teria sucesso profissional e familiar, me vejo realizada nesses aspectos,então o  desafio é estar sempre empregada para poder concluir os estudos de minhas filhas.”

O futuro, para Denise, pode trazer boas surpresas. “Daqui a quatro nos tenho planos de ir morar em Santa Catarina, voltar a dar aulas e prestar serviços, e também espero ter alguém novamente ao meu lado, quero ser feliz, amar de novo, pois me separei há muitos anos devido às mudanças que acontecem normalmente na vida de cada um.”






Fonte: Família Cristã 942 - Jun/2014
Postado por: Família Cristã




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