Uma Igreja próxima

Data de publicação: 09/09/2014

Por Filipe Domingues, especial da Cidade do Vaticano

Em entrevista exclusiva à Revista Família Cristã, o cardeal Lorenzo Baldisseri  explica qual é o papel do Sínodo dos Bispos e diz que as famílias precisam de uma Igreja próxima


Cada família é singular, e a Igreja precisa de uma perspectiva pastoral nova, personalizada e acolhedora. É essa a grande refl exão do momento, segundo o secretário-geral do Sínodo dos Bispos, cardeal Lorenzo Baldisseri. Em entrevista exclusiva à Revista Família Cristã, ele recordou que o tema da família “toca a vida das pessoas em todos os dias”, e não pode ser tratado só “no escritório”. Dom Lorenzo conversou com a reportagem na sede do Sínodo dos Bispos, no Vaticano, sobre a problemática das famílias. Para o cardeal, que foi núncio apostólico no Brasil (embaixador do Vaticano) por quase dez anos, as rápidas mudanças sociais nas últimas décadas dificultaram a aplicação da doutrina da Igreja à realidade das famílias. Do questionário enviado pelo Sínodo às dioceses do mundo todo para conhecer as realidades locais, percebe-se que as pessoas querem uma Igreja mais próxima. “Querem respostas sobre como viver as dificuldades da família”, comenta. Agora, é preciso repensar a abordagem pastoral, adaptando-a às novas necessidades. Dom Lorenzo foi escolhido pelo papa Francisco para organizar esse debate por meio das duas próximas grandes assembleias de bispos do mundo inteiro: uma preparatória, a ser realizada entre 5 e 19 de outubro; e outra mais decisiva, no ano que vem. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

FC − Como o senhor explicaria a missão do Sínodo dos Bispos?

Cardeal Baldisseri − O Sínodo dos Bispos é, depois do Concílio Ecumênico, a expressão mais elevada da colegialidade na Igreja. O papa, que é o chefe do corpo colegial, governa a Igreja por seu carisma petrino com a colaboração de todos os bispos do mundo. A colegialidade efetivamente lhe dá um sustento muito grande. É uma colaboração, uma participação sempre cum Petro et sub Petro (“com Pedro e sob Pedro”). O Sínodo dos Bispos foi instituído durante o Concílio Vaticano II e isso teve uma consolidação no tempo até hoje, mas precisa de um aggiornamento (atualização). A situação atual é completamente diferente, do ponto de vista social, político, eclesial; passaram-se 50 anos. Então, o papa Francisco quer renovar e fortalecer esse organismo a serviço da Igreja.

FC − A escolha do tema da família tem a ver com isso?

Cardeal Baldisseri − É outro elemento indicando que o Santo Padre quer dar importância ao Sínodo. Este tema é crucial, muito importante. Hoje, o Santo Padre acredita que a sociedade e o mundo vivem um momento especial. Passa-se por uma crise geral e há uma necessidade de interpelar a realidade da família para poder progredir. O tema do Sínodo é Desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização. Foi elaborado um documento preparatório por parte da secretaria geral, com a ajuda dos seus 15 membros. Ao final, foi colocado um questionário, pedindo a todas as conferências episcopais que difundissem o documento às dioceses; e as dioceses às paróquias, outras instituições etc. Pedimos para obter as respostas até o mês de janeiro deste ano.

FC − O número de respostas foi expressivo?

Cardeal Baldisseri − Chegaram com um resultado brilhante. No total, tivemos 86% de respostas das conferências episcopais e 70% das outras instituições de direito ao Sínodo. Temos já uma primeira síntese, que foi apresentada em 24 de fevereiro passado aqui na secretaria, na presença do Santo Padre. Em maio, nós teremos o documento final do Instrumentum Laboris (Instrumento de Trabalho), que será enviado aos membros do Sínodo Extraordinário de 2014.

FC − Como surgiu a ideia de enviar o questionário para todo o mundo?

Cardeal Baldisseri − Nós precisamos efetivamente ter o pulso da realidade, saber o que o povo vive. É este o tema da família. Não é um tema a tratar no escritório. Toca a vida das pessoas em todos os dias. Precisávamos conhecer a experiência do povo. Durante a preparação para o Sínodo, pensamos que seria oportuno colocar as questões. No passado existiam as lineamenta, um documento preparatório com questões, de capítulo por capítulo. Dessa vez, nós fizemos um questionário único com oito pontos, que é a terceira parte do documento. A primeira parte é a introdução, a segunda é doutrinal, sobre o matrimônio e a família, e a terceira é o questionário. Portanto, é um método novo, que tem uma base, mas que foi renovada. É mais breve.

FC − O que tem chamado mais atenção nas respostas?

Cardeal Baldisseri − O que se sobressai é o fato de o Povo de Deus, as pessoas que foram atingidas ou que se expressaram, dizerem que o tema da família é vivido, mas não é tão compreendido enquanto doutrina da Igreja. Esse é o ponto. Vive-se a experiência do matrimônio e da família segundo a tradição, o ambiente. Mas, diante dos desafi os de hoje, as pessoas não sabem efetivamente como responder às problemáticas. Elas se desenvolveram muito rapidamente nas últimas décadas, e as pessoas que têm escasso conhecimento do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família ficaram sem explicações sufi cientes para responder aos desafios, para falar aos fi lhos, a pessoas de diferentes
credos e ideologias. Imaginem o gap (lacuna) que existe entre os pais, os avós e os filhos de hoje!

FC − E muitas vezes os avós cuidam dos netos porque os pais precisam trabalhar...

Cardeal Baldisseri − Sim, e são gerações tão distantes! O documento mais importante sobre a família, que abraça todo o tema, é Familiaris Consortio (A família nos tempos de hoje), de João Paulo II: tem mais de 30 anos, e muitas coisas mudaram, antropologicamente, socialmente... Por tudo isso, temos de ter em conta a nova realidade e aplicar a doutrina da Igreja para o matrimônio e a família a essa nova realidade.

FC − Seria, então, o caso de atualizar a doutrina?


Cardeal Baldisseri − Não, é o contrário. A doutrina, nós já conhecemos, já existe. E é importante que a partir da realidade possamos compreender e ver como aplicar a doutrina. Aí entra o assunto pastoral.

FC − O questionário cria uma grande expectativa de mudanças. Como devemos interpretá-lo?

Cardeal Baldisseri − Atinge a vida da gente. Porém, o questionário não serve só para ser respondido, mas para sabermos, para conhecermos. O questionário nasceu assim. Para conhecer a realidade, que não vem de um estudo teórico, mas da experiência da vida. Teremos que dar respostas, mas a Igreja quer tratar o tema da família a partir de uma perspectiva pastoral nova. Com toda a sinceridade, será apresentado o que a Igreja tem como patrimônio, como depósito da fé sobre o matrimônio e a família.

FC − Nesse sentido, é possível chegar a consensos dentro do Sínodo dos Bispos?

Cardeal Baldisseri − Isso é importante. Efetivamente, o Sínodo é uma assembleia dos bispos e, como tal, pode ter debate. Cada um pode se expressar, sempre tendo em conta que o Sínodo não é um parlamento. Tem outra natureza: é um instrumento de colegialidade. Todo mundo está de acordo sobre a fé. Não há maioria ou  minoria. Como tal, temos de saber qual é o caminho para ir adiante. Vamos tomá-lo juntos, em comunhão. Vamos por consenso, e não por maioria, e a decisão final é sempre do Santo Padre.

FC − Uma Igreja que é Mãe, para usar palavras do papa Francisco.

Cardeal Baldisseri − Sim, uma Igreja que abraça, e não que fique distante. Dessa forma, podemos ter uma maneira melhor de evangelizar. É o approccio (abordagem). Cada caso é um caso. Cada família é uma família. Não podemos dizer que é tudo igual. E aí entra a missão do sacerdote, de contato com o povo. Imagino a relevância da atuação do Santo Padre hoje, que mexe com as pessoas. Espero que seja contagiosa, no sentido de que também os pastores, párocos, bispos, sejam mais próximos do povo. Isso o papa tem mostrado.

FC − O senhor afirmou em outras ocasiões que a “pastoral não é um esquema”. É essa a ideia?

Cardeal Baldisseri − Exatamente, a pastoral não é um esquema geral. Precisamos ter um programa. Mas tem de ser aplicado e atualizado concretamente, conforme a realidade. Por exemplo, na mesma paróquia se pode ter a pastoral entre vários grupos. Imagine em uma diocese. É claro que o bispo e também o pároco têm de dar orientações. Mas é importante que o agente de pastoral compreenda isso, que sua atuação é sempre pessoal. É preciso personalizar a atuação. Assim, vamos ter resultados positivos. Um abraço, um carinho, uma ternura, um sorriso, uma visita à casa ou ao hospital, uma palavra, uma ajuda concreta também. Tudo isso. É um trabalho fascinante, de pastoral.

FC − Há muitas realidades culturais que vivem a família de modo diverso. A Igreja pode falar a todas as culturas?

Cardeal Baldisseri − O fator cultural tem de levar em conta a revelação. Trata-se da fé católica. Professamos a mesma fé. Partindo daí, temos de comparar as várias culturas e assimilar quais são os bons elementos de cada uma. Assim, eles podem se integrar com a revelação. Esse é o ponto. Isso também é um desafio, mas temos de trabalhar sempre com abertura.

FC − Por outro lado, a Igreja sempre viveu em meio a várias culturas...

Cardeal Baldisseri − Sempre. A propósito do tema da cultura, o Santo Padre escreveu na exortação Evangelii Gaudium partindo de São Tomás de Aquino quando diz “Gratia supponit naturam” (A graça supõe a natureza). Ele colocou “cultura” no lugar de “natureza”. Essa cultura é parte da natureza e pode se expressar, ter elementos sufi cientes para poder transmitir a fé, a mensagem. O papa diz na Evangelii Gaudium que não existe uma cultura absoluta. Mesmo se é valiosa historicamente, solene, nunca é absoluta e única. A cultura é como uma veste para a mensagem. Cristo nasceu em um povo, em um território, com um idioma. Ele se encarnou concretamente numa cultura. Porém, sua mensagem é universal.




Fonte: Família Cristã 941 - Mai/2014
Postado por: Família Cristã




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