Um jovem pregador

Data de publicação: 11/09/2014

Fernando Geronazzo

Como começou a história do religioso que há cinco décadas revolucionou a evangelização da Igreja no Brasil, José Fernandes de Oliveira, o padre Zezinho, scj

"Um certo dia... Apareceu um jovem... Seu jeito simples de conversar... Tocava o coração de quem o escutava...” Os versos dessa canção lançada em 1975 contam a história de um “Certo Galileu”, Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Mas, seguindo os passos desse mestre, seu autor também pode ser considerado “o fenômeno do jovem pregador”, que, com seu violão e muito entusiasmo, há 50 anos tem ensinado a “amar como Jesus amou”.


A história de sucesso de José Fernandes de Oliveira, o padre Zezinho, sacerdote do Sagrado Coração de Jesus, scj, é bastante conhecida por seus mais de 300 livros, 1.500 canções, cerca de 120 CDs e também agora com uma presença ativa nas mídias digitais. Mas como tudo começou?

Para entender melhor o início dessa história de evangelização do mineiro da cidade de Machado, nascido em 1941, e criado em Taubaté (SP), a Revista Família Cristã ouviu o testemunho de um menino e o de uma jovem, que tiveram suas vidas marcadas pela presença do padre Zezinho, scj.

O menino – Murilo conheceu Zezinho, adolescente, em 1956. “Cheguei a Corupá (SC), a fim de estudar para ser padre, na Congregação dos padres do Sagrado Coração de Jesus. Matriculei-me na 5a série. Ele estava na 8a”, conta o hoje arcebispo de São Salvador da Bahia, primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, scj.

Nessa época, Zezinho já escrevia seus primeiros poemas vocacionais e pedia que Murilo os declamasse nas festas do seminário. “Só que eu não sabia que tais poemas haviam sido escritos por ele, pois ele inventava o nome dos autores. Só mais tarde é que descobri ser ele, o seminarista José Fernandes, o verdadeiro autor”, revela dom Murilo, scj.

Já estudante de Teologia em Taubaté, Murilo teve a oportunidade de conhecer a mãe de Zezinho, a costureira Valdevina, esposa do transportador de gado e violeiro Fernando. Nessa época, Zezinho estudava Teologia nos Estados Unidos. “Dona Valdevina havia conhecido a minha mãe, e ambas tinham ficado amigas. Ela sabia que seu filho e eu éramos amigos e passou a me tratar com muito carinho. De meu lado, cabia-me escrever as cartas que ela queria enviar ao filho que estava longe”, conta.

Depois de terminar os estudos no exterior e ser ordenado sacerdote, em 1966, aos 25 anos, padre Zezinho, scj, voltou ao Brasil, foi nomeado para coordenar o trabalho vocacional na congregação e designado para o Santuário São Judas Tadeu, em São Paulo (SP). Pouco depois, ele começou a tomar parte num trabalho com jovens na capital paulista.

A jovem – Roseli Donato tinha por volta dos seus 18 anos e vivia os problemas típicos de uma jovem do início da década de 1970. “Eu estava passando uma fase difícil. Problemas em casa, meus pais estavam se separando, eu namorava um rapaz, mas não sabia mais se era namoro ou amizade.”

Nessa época, a jovem foi a uma missa no Santuário São Judas. “Nossa! Tinha gente até no lado de fora da igreja. E eu adorei a homilia dele. Muito atual”, conta Roseli, que a partir daí começou a participar do grupo de jovens.

A participação da jovem no grupo gerava conflitos com o então namorado. “Esse rapaz era contrário à minha participação na Igreja a ponto de uma vez dizer que se eu fosse a um retiro, que eu queria ir, ele terminaria o namoro comigo. Eu fui e fiz a melhor opção.” Anos depois, Roseli conheceu no trabalho seu futuro marido, Walter Bruno Donato, com quem se casou e teve duas filhas, Mariane Cristina Donato, 34 anos, e Elaine Cristina Donato, 32.

Um fato marcante envolvendo padre Zezinho, scj, e o casal foi na bênção do noivado. “O padre prometeu que iria em casa nos abençoar, mas ele acabou não pegando o nosso endereço e nem tinha o nosso telefone, assim, não conseguiu chegar. Até hoje recordamos isso quando nos encontramos”, lembra Roseli, atualmente com 58 anos, coordenadora do Movimento Eucarístico Jovem (MEJ) na Diocese de São Miguel Paulista (SP), e secretária do conselho nacional do mesmo movimento.

O que atraía? – Para Roseli, o que fazia desses grupos atraentes era a profunda experiência de amizade entre os jovens. Era um ambiente aconchegante, tínhamos liberdade para partilhar nossos sentimentos. “O padre sempre nos dizia que nós tínhamos que transmitir a presença de Jesus, sermos coerentes. Éramos jovens comuns, claro, mas tínhamos que ser diferentes no meio do mundo.”

Eram tantos jovens que foi preciso criar muitos grupos que ocupavam as várias salas do santuário. “Cada grupo tinha em média dez jovens, para permitir uma experiência real de partilha e convivência íntima”, afirma Roseli.

E o padre Zezinho, scj, não cativava só os jovens, mas também seus pais, que iam ao santuário para conhecer quem era aquele que cativava seus filhos. “Minha mãe queria saber por que nós queríamos tanto ir à igreja. Quando ela foi, adorou”, destaca Roseli.


A música – No fim da década de 1960, as Irmãs Paulinas tomaram conhecimento do trabalho evangelizador do padre cantor, compositor e escritor. Desde aquela época, como diretora da gravadora Paulinas-Comep, irmã Maria Nogueira, fsp, costuma dizer, que padre Zezinho, scj, sempre foi “um místico da canção, um profeta”. E, assim, ele gravou o seu primeiro disco compacto, Shalom, em 1969.

Dom Murilo Krieger, scj, recorda-se de quando o padre Zezinho, scj, apareceu em Taubaté com uma caixa de discos. “Pensei, com meus botões: ‘Só faltava essa!’. Pois não é que deu certo?”, diz o arcebispo, testemunhando o apoio sempre dado pela congregação aos projetos do padre.

Considerado o primeiro sacerdote a permitir o uso de bateria e guitarra em uma missa, padre Zezinho, scj, foi ousado, mas sempre primou por uma qualidade musical que permitisse que as pessoas vivessem uma experiência de fé e encontro com Deus. “Suas missas nunca foram shows. O padre sempre se preocupa com a liturgia bem celebrada e nos diz que o povo deve cantar mais do que simplesmente ouvir a música”, ressalta Roseli.


Um profeta – Os jovens acompanhados pelo padre Zezinho, scj, não ficavam só dentro das salas. Eles eram chamados a sair da Igreja e tomarem contato com as realidades que os cercavam. Roseli conta que o padre chegou uma vez a chamar os jovens para conversar com as mulheres que se prostituíam em uma avenida próxima do santuário. “Padre Zezinho nos preparou, orientou, e nos ajudou a compreender melhor aquela situação. Fomos em pequenos grupos para tentar conversar. Eu me lembro de uma moça que nos contou sua história e até conseguimos levá-la de volta para a sua casa, no interior.”

Nessa época, o País passava pela fase mais violenta da ditadura militar, e a mensagem do padre Zezinho, scj, incomodava o regime, pois defendia a liberdade de expressão e se indignava com a violência e a desigualdade. Suas músicas, foram sistematicamente censuradas.

“Padre Zezinho nunca teve medo de falar. Ele nos ajudava a perceber o que estava acontecendo, abria os nossos olhos para a realidade, sobretudo para com os que mais sofriam”, afirma Roseli. “Ele é um profeta no sentido da palavra, pois denuncia aquilo que ele acha errado e confronta a realidade com o Evangelho”, acrescenta.

Os jovens tinham medo de o padre ir embora ou ser transferido por causa de seus posicionamentos. E ele chegou a se exilar por seis meses na Espanha e na Itália, mas logo voltou e continuou a sua missão.

Desprendimento – As produções do padre Zezinho, scj, ao longo desses 50 anos sempre tiveram uma destinação: a evangelização. Quem testemunha isso é o próprio dom Murilo, scj, que chegou a ser superior provincial da congregação na década de 1980.

“Padre Zezinho muito arrecadou com seus discos, livros e shows. Contudo, ele não tem a menor ideia de quanto ganhou ou ganha, pois o que lhe cabe sempre foi depositado diretamente na conta da Congregação. Muitos seminaristas, hoje padres, foram formados graças aos seus trabalhos. Ele vê isso com muita naturalidade”, afirma o arcebispo.

Amizade – Não somente nos tempos dos grupos de jovens que Roseli contou muito com a presença amiga do padre Zezinho, scj. Depois de anos distantes por suas missões, eles se reencontraram em um momento muito difícil para Roseli, com a doença e a morte de seu marido, Walter, em julho de 2013.

Menos de um ano depois de sofrer um AVC, padre Zezinho, scj, fez uma visita-surpresa a Walter no hospital. “Quando o Walter viu o padre Zezinho, ele começou a chorar, pois foi uma grande alegria”, conta Roseli, que também se emocionou com o carinho do amigo.

Walter gostava muito do padre Zezinho, scj. “O desejo do meu marido era que tocássemos a música Paz interior, do padre Zezinho, quando ele morresse”, relata Roseli.

Dom Murilo, scj, e Roseli hoje assumem uma missão na Igreja, a exemplo de muitos jovens, crianças e idosos tocados pelas missas, canções, livros, artigos, aulas, programas de rádio e televisão do padre Zezinho, scj. E com suas próprias histórias contam os 50 anos de evangelização do sacerdote, que, movido por uma “paz inquieta”, tem levado a mensagem do “Jovem Galileu” aos confins do Brasil e além-fronteiras.




Fonte: Família Cristã 944 - Ago/2014
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Entradas e acompanhamentos
Quer um novo cardápio? O pepino, apesar de levar a fama de ser indigesto, podem ser uma boa opção.
Bolos de liquidificador
Não há quem não se renda ao cheirinho de um bolo caseiro sendo assado.
Caldos, sopas e consumês
Neste inverno, além dos cuidados com a pele, é importante se preocupar com a alimentação.
Conservas caseiras
Resgate o antigo hábito de fazer conservas caseiras. Além da economia, aproveitando os legumes.
Páscoa
Na Páscoa, é muito comum as famílias se reunirem para uma confraternização.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados