Um passo de cada vez

Data de publicação: 26/09/2014

Por Osnilda Lima, fsp, Fotos Sonia Mele



Os Passos de Anchieta é o trajeto da trilha que padre José de Anchieta percorria nos seus deslocamentos da Vila de Rerigtiba à Vila de Nossa Senhora da Vitória


Os primeiros raios de sol ainda tímidos e suaves, na manhã de quinta-feira, 19 de junho de 2014, festa de Corpus Christi, anunciavam o início da 17ª Caminhada Oficial de Anchieta.

Em frente à Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Vitória, em Vitória (ES), os andarilhos aos poucos se achegam para dar início ao caminho. Participam da missa, em seguida do aquecimento físico e, assim, se colocam para percorrer 100 quilômetros a pé em quatro dias.

Segundo a Associação Brasileira dos Amigos dos Passos de Anchieta (Abapa), entidade que implementa, mantém e realiza a trilha Os Passos de Anchieta, esse é o primeiro roteiro cristão das Américas, e visa resgatar o caminho percorrido pelo Apóstolo do Brasil nos seus últimos anos de vida. Padre José de Anchieta deslocava-se a cada 15 dias, saindo da Vila Rerigtiba, hoje Anchieta, até a principal vila da província do Espírito Santo, Vila de Nossa Senhora da Vitória, para cuidar do Colégio São Tiago, atualmente sede do governo estadual, denominado Palácio Anchieta, na capital capixaba.

No século 16, o Espírito Santo era uma terra coberta por uma densa floresta emoldurada pelas belíssimas praias no litoral do Oceano Atlântico e habitada pelos povos indígenas do tronco tupi: os Temiminó e Tupiniquim, Gê ou Tapuia. Nesse cenário, José de Anchieta, nascido em La Laguna de Tenerife, Ilhas Canárias (Espanha), em 19 de março de 1534, e que, aos 14 anos foi mandado pelo pai para estudar em Coimbra (Portugal), na Companhia de Jesus, os Jesuítas, e enviado ao Brasil em 1593, caminhou diversas vezes na companhia dos indígenas até os últimos dias de sua vida, em 9 de julho de 1597.

Anchieta, o andarilho do Brasil, percorria o trajeto habitualmente a pé, visto que o seu problema na coluna, devido à tuberculose óssea, o impedia de montar. O diretor-presidente e fundador da Abapa, Carlos Magno Queiroz, Lilico, conta que, segundo cronistas da época, Anchieta, nas suas andanças, se adiantava nos passos mesmo aos mais vigorosos guerreiros índios e que, por isso, o chamavam de abará-bebe, que significa “padre voador”, e caraibebe, “homem de asas”. Ele percorria o trajeto em três dias.

Hoje, ao percorrer a trilha que desvela deslumbrantes cenários, e mantém sua beleza mesmo não ostentando o aspecto original no tempo de Anchieta, avistam-se aspectos ecológicos, históricos, culturais e religiosos, ao longo de toda a orla que se estende de Vitória a Anchieta.

A caminhada – A equipe de reportagem da Revista Família Cristã decidiu se colocar a caminho com os andarilhos. Pensamos: “Vamos tentar, caso não consigamos, pediremos ajuda”, pois, havíamos aprendido no início que, no caminho, a solidariedade é uma lei e é necessário ter a humildade de pedir ajuda. No primeiro dia, como Vitória é uma ilha, para chegar a Vila Velha e iniciar Os Passos de Anchieta faz-se o trajeto em ônibus fretado até o Convento da Penha, marco da colonização do estado e de onde os peregrinos principiam com a meta de chegar ao Santuário Nacional de Anchieta, em Anchieta.

Sempre pelo litoral a rota segue pelas praias urbanas de Vila Velha: Praia da Costa, Itapoã e Itaparica, com inúmeros quiosques que contrastam com os modernos edifícios da orla até chegar ao destino final do dia, à Barra do Jucu, chamada de o paraíso do surf, em Vila Velha. Foram 25 quilômetros de caminhada. Ao chegarem, os andarilhos são recepcionados com festa, músicas, apresentações teatrais, muita fruta, água abundante, massagens corporais para o restabelecimento. Para passar a noite fica a critério de cada andarilho, que reserva com antecedência as pousadas ou leva barracas. Há uma praça onde podem ser armadas.

No segundo dia, a equipe acordou animada e disposta a prosseguir a pé acompanhando os 3.500 andarilhos. Chovia muito, mas nada que uma capa de chuva não resolvesse. Se no primeiro dia o percurso é urbano, no segundo as praias são mais desertas.

Saindo da Barra do Jucu, passa-se pela Praia de Ponta da Fruta, para logo depois entrar na área de restinga, protegida pelo Parque Estadual Paulo César Vinha. As praias seguintes convidam à reflexão interior e contemplação da natureza. Chovia muito. Entre lama e areia, os passos ficavam mais lentos, não dava para levantar o olhar, pois a chuva vinha de encontro com o rosto e impedia a visibilidade. O caminho percorrido levou a um profundo mergulho em si mesmo, num grande silêncio dialogante, como descreveu o andarilho Laurinho Vitorassi. Nesse dia, o som das ondas do mar impulsionava o caminhar e a chuva fria, que envolvia por todos os lados e chamava a um andar consigo. Nesse dia, os peregrinos eram silêncio.

Apesar de a motivação de que o trecho é considerado um dos mais bonitos, ele é também o mais cansativo, pois praticamente todo o percurso se dá na areia movediça e, nesse dia, sob a contínua chuva. Chegou um momento em que a equipe cansou, e as energias pareciam sucumbir. Aí veio a pergunta: “Faltam quantos quilômetros?”. Uma andarilha, já experiente, respondeu: “Faltam em torno de 9 quilômetros”. A equipe se entreolhou: “Falta pouco, não é? Somente 9!”. Uma energia brotou e, à medida que se aproximava, a equipe sentia o físico ser injetado por sensações indescritíveis de energia, e os 28 quilômetros foram vencidos com folga até a Praia Setiba, em Guarapari. Mas o dia seguinte, o terceiro, era uma incógnita.

O dia amanheceu e, para a surpresa, a equipe estava superdisposta. Apesar dos percalços do dia anterior, os andarilhos foram recompensados: o sol colaborou. E a natureza? Essa revelou as enseadas delineadas caprichosamente com detalhes em pedras e ondas pacatas que pareciam preguiçosas num manso vaivém.

Guarapari é uma cidade fundada por São José de Anchieta. A caminhada nesse dia fluiu, 24 quilômetros percorridos sem perceber. E Meaípe, uma charmosa enseada, foi o ponto de parada do roteiro do terceiro dia. As pernas já doíam um pouco. No pensamento: “Amanhã, o último dia, tudo indica que não aguentaremos”. A ordem foi se recolher logo cedo e guardar forças para encarar a última etapa da caminhada.

Quarto dia, última etapa. A apenas 23 quilômetros estava o tão almejado destino, mas a pé lá em torno de sete horas de caminhada para essa inexperiente equipe. Mas a animação e a disposição dos mais de 3.500 andarilhos arrastavam. Esse, de fato, foi resumo dos dias anteriores, pois se alternam trechos de praias desertas, rodovias e estradas de terra. A essa altura do caminho a chuva voltou a ser companheira.

Chegamos a Ubu, uma pequena vila à beira de uma extensa praia de águas já agitadas devido a chuva. O lugar recebeu este nome quando Anchieta ali passou pela última vez. Narra a história que, carregado por uma multidão de cerca de 3 mil índios que o levavam para realizar seu velório em Vitória, seu esquife tombou, e os índios exclamaram Aba Ubu, “o padre caiu”.

No local, há uma cruz, onde os andarilhos, ao passarem, se viram de costas e atiram conchas, cada uma simbolizando um pedido que gostaria que fosse atendido pelo santo. Sem dúvida alguma o grande prêmio é avistar a escadaria que
leva ao Santuário de Anchieta. Esse, uma construção jesuítica de 1597, erguida pelo próprio São José de Anchieta no último ano de vida, com a colaboração dos índios. Nessa hora, no rosto dos andarilhos, lágrimas incontidas resvalam dos olhos e há o compartilhamento de toda uma história de quatro dias de muita solidariedade, superação de obstáculos físicos e geográficos, companheirismo, partilha, amizades e satisfação. “Chegamos! Conseguimos!”. O caminho de um gigante da fé, São José de Anchieta, possibilitou percorrer outro caminho, o da totalidade do ser de cada andarilho: da mente, da vontade e do coração.

A organização
– A Abapa concebeu a Caminhada Oficial de Anchieta para efeito de promoção da iniciativa. Segundo os organizadores, a cada ano o número de participantes é crescente. No entanto se tem o cuidado de não ultrapassar a 4 mil, para que se ofereça com qualidade a estrutura necessária em todo o trajeto. A caminhada é  realizada sempre no dia do feriado de Corpus Christi, pois favorece a disponibilidade de pessoas de todo o Brasil, visto que o percurso total demanda quatro dias. Porém, nada impede que as pessoas se disponham a fazê-lo em outra época do ano e num ritmo de caminhada que estiver mais disposto, pois o trajeto é bem sinalizado e muito organizado.

A produção da caminhada exige certa complexidade, pois demanda um aparato que mobiliza voluntários. Nessa última edição, cerca de 200 voluntários estiveram envolvidos para oferecer uma estrutura de qualidade. Também há agentes e colaboradores do setor público, como a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, um eficaz suporte de atendimento médico. E ainda o auxílio de algumas prefeituras. E o mais entusiasmante é uma logística de atendimento que alguns moradores e comunidades católicas oferecem abrindo suas casas e capelas para acolher os andarilhos, com lanche, água e frutas.

Oásis aparecem – A Abapa monta pontos de apoio, chamados Oásis, em intervalos frequentes para fornecer água, frutas e medicação para as câimbras, bolhas e torções que inevitavelmente acabam surgindo nos andarilhos menos preparados. Na ocorrência de algum caso mais grave, há ambulâncias prontas para oferecer suporte.

E, para aqueles que acabam não dando conta do caminho, também podem pegar uma carona nos carros de apoio da organização. Luis Alberto de Faria é voluntário há seis anos no projeto. Ele afirma que, muito além de ajudar os andarilhos, é um grande aprendizado devido à interação com as pessoas.

Os voluntários Deise Barcelar Nunes e José Claudio Matinuzzo são os rapa trilha. Eles fazem o percurso depois que todos os andarilhos há horas se colocaram a caminho. Isso para dar segurança e ter a certeza de que ninguém ficou perdido no percurso. “Cada ano é um novo encontro conosco mesmo, novos conhecimentos e que trazem vários tipos de lembranças, você faz uma limpeza interior. A gente vem, calmamente, prestando atenção em tudo, com paz interior. Eu descobri, com a caminhada, uma forma de interagir de dentro para fora”, revela Deise.

“Eu fico muito fortificado, consigo renovar meu ano até a próxima caminhada. A gente volta para casa mais forte, com energia para todo o ano. Na primeira vez que fiz a caminhada, quando cheguei, subi a escada e fui ao santuário e me emocionei muito, foi um momento supremo. Caminhando a gente vê os lugares. Contempla. De ônibus ou de carro você somente passa. Ao fazer Os Passos de Anchieta, você começa a ver a beleza de outra forma em sua volta. Nasce e fortalece uma força espiritual para encarar várias coisas no cotidiano da vida. Os Passos de Anchieta ensina a gente a pensar e, depois, a tentar solucionar as situações da vida com mais sabedoria. É algo que se adquire, guarda e nunca mais perde”, partilha José Claudio.

O percurso, marcado fortemente por aspectos ecológicos, históricos, religiosos, culturais e muita gratuidade por parte dos voluntários, por certo é a receita que consegue atrair tantas pessoas dos mais diversos lugares do Brasil. E há aqueles que por vários anos fazem a caminhada.



 

Um caminho místico

Por Abapa

O que se sobressai, acima da gratificação cultural, ou do fervor religioso, ou ainda da fruição de cenários atraentes, é uma singular experiência de introspecção que na prática constitui a alma de todos os caminhos místicos, a reflexão inevitável que uma longa caminhada proporciona, insights marcantes.

Não por acaso a caminhada é uma adequada metáfora do viver. O recolhimento do andarilho em seus pensamentos alterna-se com a convivência com outros que ali se irmanam no propósito, no mínimo, de chegar a um mesmo destino. É o que basta para criar tácitas redes de solidariedade. Aí os cenários internos, o da emoção de revisitar sentimentos e lembranças, se alternam com os cenários  externos, as percepções do ambiente, o recorte formoso de uma pequena enseada, a trilha por entre uma vegetação remanescente da outrora exuberante Mata Atlântica. Além do perfil diversificado do andarilho, há pessoas que gostam de desfrutar a natureza ou que cultivam práticas físicas ou então aqueles que se deixam levar pelo apelo da religiosidade. A cada ano Os Passos de Anchieta atrai os que buscam o caminho também por orientação de terapeutas que prescrevem uma boa caminhada como um oportuno exercício de autoconhecimento.

Independentemente do motivo que o provoca, o caminhar já é um exercício poderoso. Ao iniciá-lo, o corpo enfrenta um breve desconforto pelo rompimento da inércia. Logo ele estará liberando hormônios como endorfinas, beta-endorfinas e serotoninas, considerados os elixires da felicidade. Elevam o ânimo e o entusiasmo (Deus dentro de si) e aí, mais que a contemplação da natureza, a maior gratificação da caminhada. Ou do caminho.

Percorrer Os Passos de Anchieta sozinho, em solitude (estando bem consigo) ou na companhia de alguém, é uma rica e marcante experiência. Isso ajuda a explicar por que depois do surgimento desta rota, em 1998, começaram a proliferar em várias partes do País muitas trilhas, caminhos e rotas fundados pelas mesmas motivações.





Fonte: Família Cristã 944 - Ago/2014
Postado por: Família Cristã




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