Humanidade da Santa das Rosas

Data de publicação: 01/10/2014

Por Fernando Geronazzo
Fotos Thiago Bugallo

Um feixe de luz projetado na cruz de Teresinha de Lisieux, na peça teatral Theresinha, revela, expõe e traz a bordo a dimensão de sua humanidade à santidade e a riqueza do seu temperamento determinado

Num quarto vazio, iluminado pelo sol e com apenas um banquinho ao centro, as pessoas ouvem atentamente a uma jovem que conta a sua história. A humanidade escondida por trás da “imagem angelical” de Thérèse de Lisieux (Maria Francisca Theresa Martin), aqui mais conhecida como Teresinha do Menino Jesus, toma forma.

Essa experiência é apresentada na peça teatral Theresinha, em cartaz na Casa das Rosas, espaço cultural da cidade de São Paulo (SP). O local não foi escolhido por acaso, uma vez que a santa carmelita francesa, que viveu de 1873 a 1897, é conhecida como a Santa das Rosas. O monólogo dura em média 50 minutos e traz um olhar retrospectivo de Teresinha sobre sua vida e, na medida em que relata os fatos, ela os vivencia na pele da atriz Gabriela Cerqueira.

Da devoção à arte
– Embora o projeto não tenha um propósito devocional, ele nasceu de uma devoção. “Quando eu comecei um caminho de busca espiritual, de religiosidade, eu encontrei Teresinha. A figura dela foi muito forte e chegou ao ponto em que eu quis fazer uma peça de teatro com ela e sobre ela. Já que o teatro é o meu instrumento de trabalho”, explica o responsável pela dramaturgia e encenação do espetáculo, Helder Mariani.

A preocupação dos idealizadores era trazer ao público uma Teresinha, que, de fato, fosse próxima das pessoas. “O objetivo é mostrar como uma vida santificada é humana e se aproxima de nós.”

Foram quase cinco anos de preparação do projeto. A pesquisa histórica ficou por conta do professor de Direito e advogado Thiago Brito, grande admirador e devoto da santa. Foram muitos os registros de Teresa de Lisieux. Só de manuscritos autobiográficos foram 3 cadernos, mais de 250 cartas, 50 poesias e 20 orações, 8 peças teatrais. Foram guardadas outras tantas obras e objetos dela como pinturas, pequenos cartões, orações entregues a outras irmãs, roupas e objetos pessoais, mais de 20 fotografias.

O espetáculo Theresinha também mostra como a jovem de Lisieux enfrentou humanamente a “noite escura” da alma. Thiago Brito salienta que os escritos de Teresinha vão além da imagem pueril da santa, mas mostra “uma jovem mulher francesa, no fim do século 19, morrendo de tuberculose e vivendo secretamente a tradição carmelita da ‘noite escura’ em uma pequena cidade na Normandia francesa”.

A mulher
– Para a construção do espetáculo, o mais importante foi “alimentar” a atriz com a obra de Theresinha e dos autores que escrevem sobre a santa. E quem topou o desafio foi Gabriela Cerqueira, 26 anos, formada na Escola de Arte Dramática (EAD), da Universidade de São Paulo (USP).

A jovem atriz não conhecia nada de Teresinha. “Eu comecei a ler os textos dela e, desde então, ela me laçou. No momento em que entrei em contato com as palavras dela eu virei devota de Santa Teresinha”, afirma Gabriela, que contou com a ajuda da atriz Denise Weinberg, que também faz parte do projeto.

O fato de ter lido seus escritos sem conhecê-la como santa fez com que Gabriela conhecesse Teresinha primeiro enquanto mulher. “De alguma maneira, seu lado humano me tocou absurdamente, e eu entendi a santidade dela depois de entender sua humanidade.”

A proposta da peça Theresinha, segundo Helder, é da atriz como protagonista do fenômeno teatral. “Construímos o texto de dramaturgia em cima daquilo que ela trazia enquanto cena. Eu escrevia uma cena, apresentava à Gabriela, ela me de volvia o que escrevi no palco, então eu reescrevia a partir do que ela me devolvia”, conta.

“Concluímos que, de uma maneira ou de outra, é imprescindível jogar luz na cruz desta santa, revelar, expor, trazer a bordo sua ambiguidade, a riqueza do seu temperamento e segredos, aquilo que ainda não se disse a respeito de sua santidade, ou melhor dizendo, de sua vida curta”, relata a atriz.

Dentro do imaginário popular, Teresinha é sempre vista como uma menina. O espetáculo também visa mostrar a mulher que existe por trás do estereótipo da santa. “Quando tomamos os textos de Teresinha, o que logo se vê é um certo infantilismo. São as rosinhas decorando tudo, algo muito ingênuo, o que a coloca nessa condição de ‘menininha’”, ressalta o produtor. Mas a peça mostra que, após entrar no Carmelo, Teresinha vive um amadurecimento de fé. “Eu diria que esse também é um amadurecimento enquanto mulher”, reforça Helder.

Casa das Rosas – O Casarão de 1935, localizado no número 37 da Avenida Paulista, cartão-postal da cidade de São Paulo, que passou a ser um espaço cultural desde 1991, é um contraste em meio a suntuosos edifícios da cidade, sobretudo pelo seu jardim de rosas, lugar ideal para o espetáculo Theresinha, uma vez que a santa esteve sempre associada a essas flores, que ela prometera derramar dos céus após a sua morte como sinal das graças de Deus.

“De alguma forma, a casa nos leva a um outro tempo. É uma casa burguesa, assim como a casa em que viveu Teresinha, na sua infância. A luz do sol faz um contraponto com a escuridão que a alma de Teresinha vive”, destaca Helder.

É num dos cômodos da casa que a peça é apresentada. O espaço pequeno, para uma plateia reduzida por sessão, permite a proximidade com a personagem e a sensação de que se está realmente no quarto da santa. “É um vazio com um banquinho no meio. E quanto mais você a olha de cima, se depara com a mulher nesse vazio”, acrescenta o produtor.

Desde o momento em que o público chega a casa, há o convite para entrar no clima de Theresinha, além do jardim, logo na entrada é servido chá de pétalas de rosas. A escada que leva à sala do espetáculo é adornada com pétalas de rosas, sem contar o aroma da flor que toma o local. “É um caminho que propomos não apenas pela visão e audição da peça, mas vem pelo olfato, pelo paladar. De alguma forma, preparamos a plateia para vivenciar esse momento”, explica Helder.

Impressões – O estudante de Publicidade Guilherme Rodrigues Cardoso, 19 anos, descobriu o espetáculo por acaso. “Eu estava pesquisando as peças de teatro em cartaz na cidade e fiquei interessado. Não conhecia nada sobre a santa. Para mim, chamou a atenção a maneira como a personagem lidava com as suas dúvidas quanto à sua fé.”

A namorada de Guilherme, Karen Otani Domingues, 19 anos, também estudante de Publicidade, teve seu primeiro contato com a santa na peça. “É uma história interessante, que nos faz pensar em como as pessoas lidam com a fé. A atuação da atriz foi excepcional. Como uma jovem, me chama a atenção é que desde pequena ela foi determinada e tinha certeza do que queria.”

Já a empresária Verônica Freire Ferrer de Morais é de Recife (PE) e estava de passagem pela capital paulista. Conhecedora das histórias de Santa Teresinha, Santa Joana d’Arc e Santa Teresa d’Ávila, fundadora do Carmelo Descalço, Verônica se emocionou com a peça. “Consegui viajar pela história muito bem interpretada. O que sempre me chamou a atenção em Teresinha foi a sua fé. Condensar seus 24 anos de vida em 50 minutos não é fácil. Mas o espetáculo conseguiu trazer isso de modo maravilhoso. Pudemos ver uma mulher grande, forte, que mostrou que amar não é fácil, mas é possível.”


Serviço

Peça Theresinha
A partir dos escritos de Thérèse de Lisieux, a atriz Gabriela Cerqueira interpreta a Santa Teresinha. Na peça faz uma radiografia do dilema do homem moderno: o conflito entre a razão e a fé.
Não privilegiando a dimensão puramente religiosa, mas a dimensão humana dessa jovem mulher, que, no fim do século 19, vivenciou as questões e contradições que marcariam o século 20 e a pós-modernidade.




Fonte: Família Cristã 939 - Mar/2014
Postado por: Família Cristã




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