Tempo, morte e vida

Data de publicação: 02/11/2014

"A bênção, mãe"! Lá no fundo do meu coração posso ouvir, sentir.... "Deus te abençoe, meu filho"! Agora posso dormir!

O amor que nos une não foi improvisado em uma noite somado a um dia de velório, mas ensinado e praticado por ela. Nesse amor que nos une, ela vive. Este tempo que nos separa, esta morte que nos aguarda, esta esperança de que com Cristo ressuscitaremos fazem do nosso drama uma trama nova.

Por Márcio Roberto dos Santos - 13 de abril de 2014


Manhã de domingo, ainda éramos uma família visivelmente completa. Minha mãe estava entre nós. Mal sabíamos que horas mais tarde seriam de dor, angústia e de uma sensação mística de paz e desassossego. Era noite! E tudo perdeu seu brilho, no repente implacável do tempo. Consciente até o fim, ela estava na UTI cardiológica de Campinas (SP). Eu me senti impotente. Máquinas, equipamentos, médicos especializados e uma senhora simples, que no tempo da vida teceu sua trama. Saiu da roça, foi lavadeira de roupa, passadeira, dona de casa, comerciante, mãe de seis filhos, esposa, catequista, teóloga, mestra em Sagradas Escrituras, professora, advogada, conciliadora, enfim, mulher experimentada na fé! E o tempo? Nossa, implacável!
Foram apenas três horas para que o tempo todo vivido e doado em 57 anos viesse a entrar em contagem regressiva. Médicos, máquinas, equipamentos e a família que ela tanto amou se viram numa luta que, na verdade, não estava mais nas possibilidades das determinações dos homens, mas dela e de Deus Pai. Tenho comigo que, levando em consideração a vontade e a alegria de viver, amar e servir tão peculiares a ela, a proposta de antecipar sua Páscoa só foi por ela aceita, devido ao seu olhar místico a vislumbrar o banquete que o Pai preparou para os seus eleitos. Banquete que os olhos e o coração de quem ficou não podem imaginar, ver e sentir. Os místicos enxergam com o coração!
E o tempo? O tempo foi apenas o instrumento a ser usado por ela para realizar o bem. Sua dureza e rigidez foram transformadas em oportunidades de cada vez mais manifestar Aquele que é o Senhor do tempo, o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. Para os santos, o tempo é espaço! É o que está entre ele mesmo e o rosto mais próximo a ser ajudado!
E a morte? A morte.... Repentina! Cruel, sem brechas para negociação! É a marca que carregamos. Porém, de fato, a marca da morte age em nós, mas, por meio da graça de Deus, dela brota a vida. Assim tive forças, com minha família, amigos e a comunidade eclesial, para vivermos essa antecipação! A morte continua a nos sondar com suas propostas de desespero, de dor, de factualmente trazer presente a ausência de alguém insubstituivelmente vital. Mas a paz que vem de Deus nos socorre! E a vida? .... A vida refiro-me não àquela vivida por ela para nós, mas a essa advinda de sua morte, advinda da força da ressurreição que torna cada gesto nosso uma oportunidade para um passo a mais no processo de conversão!
A vida que dela recebemos, após sua morte se tornou perene, de modo que cada filho pode expressar o que achou que não tivesse. Profundos traços da bênção que foi nossa mãe! O tempo, a morte e a vida reconciliaram-se, não para ela, pois isso ela misticamente já havia percebido, mas para nós.
O amor que nos une não foi improvisado em uma noite somado a um dia de velório, mas ensinado e praticado por ela. Nesse amor que nos une, ela vive. Este tempo que nos separa, esta morte que nos aguarda, esta esperança de que com Cristo ressuscitaremos fazem do nosso drama uma trama nova, da-nos a firme convicção de que com ela gozaremos a eternidade, onde tempo, morte e vida são relativizados, onde, a partir dos que já se foram, Deus será tudo em todos! Como de costume, termino com um pedido:

"A bênção, mãe"! Lá no fundo do meu coração posso ouvir, sentir....
" Deus te abençoe, meu filho"! Agora posso dormir!




Fonte: FC
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Um gigante no sertão
Estátua dedicada a padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE), completa meio
Um olhar que viu
Tatiana Belinky, nome importante no mundo da literatura no Brasil, celebra centenário de nascimento.
Marco Frisina no Brasil
O Brasil recebeu a visita do Monsenhor Marco Frisina, compositor e Maestro de música Sacra
Os doze profetas que encantam
As esculturas de Aleijadinho, em Congonhas do Campo (MG), fazem parte do maior museu a céu aberto
Arte e natureza
Visitantes têm experiências múltiplas em um dos maiores centros de arte contemporânea a céu aberto do mundo
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados