É agora, José

Data de publicação: 05/11/2014

Por Ieda Estergilda de Abreu Fotos Jesus Carlos/ImagemGlobal

Inspirada no educador Paulo Freire e em um poema de Carlos Drummond de Andrade, uma instituição da periferia paulistana aponta caminhos para muitos Josés sem destino



Um endereço entre o Capão Redondo e os Jardins Ângela e São Luís, bairros tidos entre os mais violentos da zona sul de São Paulo (SP), tem as portas sempre abertas: a Associação Assistencial e Educacional Casa do Zezinho. Ali funciona uma bem-sucedida Organização Não Governamental (ONG) voltada à educação não formal e ganhadora de prêmios nacionais e internacionais. Fundada em 1994 pelo casal Dagmar e Saulo Garroux, respectivamente pedagoga e artista plástico, a chamada Casa do Zezinho atende hoje 1.500 crianças e jovens de baixa renda, em situação de vulnerabilidade e risco social, que frequentam 67 escolas – em sua grande maioria públicas – de bairros próximos. Em suas dependências, a preocupação é ajudar os Zezinhos a superar as barreiras sociais com foco na educação e proporcionar a eles condições de autonomia de pensamento e de ação para traçar os próprios caminhos.

Construída por Dagmar, o nome da Casa do Zezinho foi inspirado no conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade, que começa com o verso “E agora, José?”, que traduz uma situação sem saída para um homem comum. Decidida a mudar a trajetória dos Zezinhos da cidade, Dagmar trocou a pergunta do poeta por uma afirmação: “É agora, José!”, e compôs um rap questionando uma pedagogia nacional ainda distante da realidade de cada aprendiz, afirmando que ele pode ser um Zé Alguém na vida através da educação. Tão associada à periferia onde vive quanto ao escritor Ferréz, autor do romance Capão pecado, entre outras obras, e o rapper Mano Brown, líder e vocalista do grupo Racionais MC’s, que denuncia a violência policial contra os pobres, em especial negros e favelados, Dagmar não lembra quando seu nome de batismo foi substituído por tia Dag, como hoje é mais conhecida. “Sou a favor do afeto, do acolhimento. Sou mãe, tia de todo mundo e, como vivemos no mesmo planeta, somos todos parentes.”

Vocação – Certamente foi quando ela e o marido começaram a acolher, em sua casa, crianças juradas pelo Esquadrão da Morte no período da ditadura militar. A educadora formada na Universidade de São Paulo (USP) apenas seguia uma vocação familiar, já que seu pai ajudou a idealizar as escolas do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e sua mãe, uma empresária, tinha o hábito de acolher moradores de rua. A princípio foram sete crianças e depois 12, que viviam sob os traumas da pobreza, miséria e opressão. Inspirada nas lutas políticas dos anos 1970, ela fez de sua morada um local de educação, diversão e cultura. Não foi fácil, claro. “Alguns vizinhos tentaram nos despejar. Diziam que faríamos mais uma Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor) da vida, com bandidos”, recorda. Mas fato é que, desde sua criação, a ONG cresceu e o casal comprou uma segunda casa no Capão Redondo, onde surgiu uma nova Casa do Zezinho.

Para Dagmar, estar em uma região empobrecida da cidade mais rica do País tem um significado especial. “Acreditamos no desenvolvimento humano local. De que adianta tentar tirar 100 mil pessoas do Parque Santo Antônio ou do Capão Redondo? Por que não, antes, melhorar o local?”, indaga. Em 20 anos, ela  finalmente viu a população levantando a mesma questão. Ou seja: reivindicando e investindo na periferia. Resultado: em 4 mil metros quadrados construídos, crianças e jovens desfrutam, na Casa do Zezinho, de atividades como oficinas de arte, música, teatro, gastronomia e informática, reforço escolar, inglês, esporte, vídeo, foto e debates sobre sexualidade e mercado de trabalho. Palavras, cores, formas, ritmos e sons os ajudam a encontrar segurança e uma identidade.

Arco-íris – Entre as atividades de destaque da Casa do Zezinho está a oficina de Web 2.0, onde jovens com conhecimentos sobre as mídias sociais – blogs, twitters, podcasts, videocasts, streamings – desenvolvem campanhas digitais. Com pouco investimento do governo do estado e algum apoio de empresas privadas, de cidadãos comuns e até de ex-frequentadores, a ONG se estruturou profissionalmente. Tem, atualmente, 100 funcionários registrados em carteira – alguns formados em Pedagogia, Psicologia e outros cursos – ensinando novos Zezinhos a ver o mundo com mais possibilidades. Referência para educadores de várias partes do País e do exterior, alguns métodos empregados na instituição deverão, em breve, ser implantados em comunidades do Rio de Janeiro (RJ) e demais cidades.

Seguidora do educador Paulo Freire, autor do clássico Pedagogia do oprimido, que propõe um método de alfabetização dialético, Dagmar procura colocar em prática seus ideais. Criou com sua equipe a Pedagogia do Arco-íris, cujo centro é o desenvolvimento da autonomia de pensamento e ação com base nos quatro pilares da educação: ser (espiritualidade), saber (filosofia), fazer (arte) e conhecer (ciências). Isso se dá em sete estágios, cada um representando uma cor do arco-íris e com atividades próprias. Assim, quando ingressam na instituição, os alunos percorrem um caminho representado por sete cores. Crianças de 6 a 8 anos, por exemplo, começam pela Sala das Violetas. Com a evolução do aprendizado, chegam à Sala Coração (vermelha), destinada aos jovens de 16 a 21 anos.


Comprometimento – O arco-íris provou que a palheta de cores dos seres humanos tem mais nuances do que se imagina. Sabe-se que hoje há Zezinhos professores, atores, dentistas, escritores e pós-graduados. Uma certa Zezinha, mesmo, que matava pardal na favela para comer, hoje está estudando Física e se mantém com o que aprendeu nas oficinas de atividades artísticas da Casa. Outro Zezinho, que passou pelo suicídio do pai, exploração da mãe, violência do padrasto e sobreviveu, hoje trabalha com cinema. E tem também aquela Zezinha aprovada na Orquestra Filarmônica Infantojuvenil de São Paulo. É como diz Dagmar: “Cada dia tem uma história, um incêndio, mas eles deixam e acreditam no nosso amor. Isso é o mais importante”.

O sucesso da metodologia se deve ao comprometimento dos educadores, 60% dos quais ex-Zezinhos que conhecem a fundo as dificuldades enfrentadas pelo jovem das comunidades. Ao adotar uma estratégia oposta à do crime, a Casa do Zezinho tenta mostrar que os estudos oferecem resultados melhores em um longo prazo. Apesar de todo o esforço, no entanto, ainda existe alguma evasão, mesmo que em torno de 1% dos alunos da casa. Mas independentemente do índice, cada um que se perde é uma vida perdida. É quando Dagmar para e se pergunta o que está errado. E seja o que for é o momento de rever o conceito e trabalhar. “A Casa do Zezinho nunca está estagnada”, reflete. De fato, o sucesso da metodologia do cuidado, do afeto e do conhecimento parece estar estampado na grande maioria do rosto das crianças.

Amadas
– Dagmar admite que educar para o mundo e para a realidade não é uma tarefa fácil. “Envolve uma porção de coisas que a escola não tem dado conta”, observa. Por isso, a ONG está sempre em contato com a escola e os familiares, faz visitas, reuniões, e monitora o desempenho dos alunos em sala de aula. “Esse diálogo é fundamental para entender e acolher as dificuldades enfrentadas por eles. Buscamos tirar as crianças da violência, seja na saúde, na escola, na falta de moradia e de saneamento. E ainda as ensinamos a sonhar”, aponta.

O mais difícil, segundo ela, é convencer os pais a respeito da importância do trabalho da Casa do Zezinho. “É mostrar à família que ter o filho por dois ou três anos aqui dentro valerá muito mais a pena para o seu futuro do que se ele ficar um ano lavando carro ou entregando pizza. Quanto mais cedo a criança precisar trabalhar e ganhar dinheiro, muitas vezes correndo o risco de uma gravidez precoce, se torna maior o nosso dever de lembrá-la de que ela é capaz de sonhar e de ter um futuro melhor. Por isso, nosso desafio constante é termos na Casa do Zezinho conteúdos cada vez mais interessantes para as crianças que há muito deixaram de sonhar. E o primeiro passo é fazê-las se sentirem amadas”, arremata.




Fonte: Família Cristã 946 - Out/2014
Postado por: Família Cristã




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