ABC no campo

Data de publicação: 26/11/2014

Irene Paz


Uma das principais lutas da juventude rural e dos movimentos ligados à terra é a da manutenção de um sistema educacional que reflita a realidade rural

Em pleno Ano Internacional da Agricultura Familiar, período escolhido pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) para valorizar o papel que esse sistema agropecuário desempenha na segurança alimentar no planeta, a infância e a juventude rurais do País têm mais razões para se preocupar do que comemorar. Segundo o Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação (MEC), somente em 2013 foram fechadas 3.296 escolas rurais de 1o e 2o graus, quase todas mantidas pelos municípios. Nos últimos dez anos, estima-se que, pelo menos, 32,5 mil instituições de ensino encerraram suas atividades. Hoje os cerca de 30 milhões de brasileiros residentes em zonas rurais, grande parte compondo famílias de pequenos e médios agricultores, dispõem de 70.800 estabelecimentos no campo contra 107.432 em 2002.

Para alguns educadores, as razões do desmonte são a falta de investimento das prefeituras; a expansão do agronegócio, que reduz o número de trabalhadores no campo; e a concentração do sistema de ensino, quando escolas de menor porte são extintas e as crianças e jovens acabam transferidos para unidades maiores e mais distantes. “Os pequenos agricultores têm resistido a esse modelo que concentra cada vez mais terras e riqueza, com base em uma produção cuja finalidade é o lucro. Nessa lógica, eles são considerados um atraso. Por isso, lutar contra o fechamento das escolas tem se constituído como expressão de luta das comunidades contra esse modelo de capitalismo neoliberal”, explica Erivan Hilário, diretor da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), fundada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

Federalização? – A tragédia educacional se estende à falta de recursos das escolas sobreviventes. De acordo com o Inep, 90% delas não têm biblioteca e 81% não possuem laboratório de informática. Laboratório de ciências não existe em nenhuma, sendo que 15% delas não têm energia elétrica e 97% não foram preparadas para receber alunos com deficiência. De acordo com a Organização Não Governamental (ONG) Todos Pela Educação, 49,9% dos professores das escolas da zona rural – mais de 200 mil educadores – não têm a formação mínima exigida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Para arrematar, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aprofundou contrastes entre as escolas urbanas e rurais. Nas primeiras, jovens com 15 ou mais anos estudaram em média 8,7 anos, enquanto os da zona rural, 4,8 anos. Por consequência, a taxa de evasão escolar no campo é quase 70% maior do que na cidade.

Este ano, uma lei sancionada pela presidente Dilma Rousseff, a 12.960/2014, tratou de dificultar o fechamento de escolas rurais, indígenas e quilombolas no País, exigindo, antes do mal consumado, um parecer de órgão normativo e uma consulta às comunidades. A nova lei introduz na LDB a necessidade da manifestação dos conselhos municipais de educação antes do fechamento das escolas. E mais: as comunidades envolvidas deverão ser consultadas; e as secretarias de estado de educação, justificar o fim do estabelecimento. Em 2012, a presidente já havia lançado o Programa Nacional de Educação no Campo (Pronacampo) para reduzir as distorções da zona rural por meio de melhores infraestrutura, transporte escolar e formação de professores. Outra medida com intenção de estancar o desmonte educacional é um projeto do senador Cristovam Buarque, o qual propõe a federalização da educação infantil e dos ensinos fundamental e médio, que, atualmente, em sua maior parte, são geridos por estados e municípios.

Acampamento
– Não há dúvida de que tanto quanto um direito inalienável, a urgente reconstrução de um sistema educacional no campo, inserido na realidade do pequeno e médio agricultor brasileiro, é um fator indispensável de justiça social. “A luta por uma reforma agrária popular não se aprende necessariamente entre as quatro paredes de uma escola, mas ela deve ser um espaço que contribui e nos aprofunda na construção de uma sociedade igualitária e de um projeto de País. A educação no campo não pode ser voltada para o agronegócio, como acontece hoje quase que por uma imposição da Confederação Nacional de Agricultura, e sim para a construção de um projeto de agroecologia com foco na agricultura familiar e no desenvolvimento rural sustentável nas diversas esferas da agricultura. Nas escolas rurais, devemos aprender a refletir essencialmente sobre o campo brasileiro”, argumenta Raul Amorim, coordenador nacional do Coletivo da Juventude do MST, que lançou em 2011 a campanha Fechar Escola É Crime!

Compreensivelmente, essa preocupação com a educação no campo é questão recorrente junto aos jovens do MST, em especial aqueles que pertencem às cerca de 350 mil famílias que ocupam aproximadamente 700 assentamentos em quase todos os estados do País. “Quando falamos de luta pela reforma agrária, estamos nos referindo a uma luta pela conquista de direitos como o da terra e as condições necessárias para trabalhar e viver, como o direito à educação. Vinculamos permanentemente à questão do processo educacional a reforma agrária, pois pensar um projeto de campo e de País, fundamentalmente, passa também por pensar um projeto de educação”, atesta o professor Erivan Hilário.

A questão preocupa não apenas jovens assentados no Brasil, mas de toda a América, e tende a ser um dos pontos de reflexão no 14o Acampamento Latino-Americano da Juventude Camponesa, que acontecerá de 20 a 23 de novembro em Palmeira das Missões (RS), na fronteira com a Argentina. Pela primeira vez o Brasil sediará o encontro, que pretende reunir 2 mil jovens de várias nações do continente e até da África. “A perspectiva é que possamos fazer conjuntamente uma leitura latino-americana sobre a realidade dos jovens dos diferentes países e de seus enfrentamentos com o capitalismo, seja na mineração, na agricultura e na educação”, projeta Raul Amorim.




Fonte: Família Cristã 947 - Nov/2014
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Viajar e aprender
O turismo pedagógico é uma área que se especializa a cada ano, como um ótimo recurso educacional
Cidade das Flores
Interior de São Paulo, Holambra, cidade tranquila e clima bucólico, um pedaço da Holanda no Brasil
Grafite, minas e manos na cena
A arte das ruas que veio das periferias conquistou simpatia popular e promove inclusão social
Centro Dragão do Mar
Em Fortaleza, arte, cultura e democracia se encontram em só lugar, Centro Dragão do Mar
Marco Lucchesi e a nostalgia
Trabalho sempre na minha vocação. Escrevo e sonho. Sonho e escrevo. Como num balanço contínuo.
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados